Corridas de charretes no imperio romano

Ao estudar o Império Romano, muitas coisas parecem ter sido passadas para nós sem grandes alterações. Instituições, língua, costumes; um deles é a paixão por corrida. Hoje temos corridas de cavalos e automobilismo, e o romanos, a corrida de charretes, ou bigas.

  1. Origem

Há indícios que na origem da civilização, talvez antes da invenção da roda ( a escrita e a domesticação do cavalo são datados de aproximadamente 3500 a.C ) aristocratas (supondo que apenas chefes poderiam sustentar essa atividade) poderiam apostar curtas corridas sobre pranchas rebocadas, e depois sobre charretes.
Sabe-se que os egípcios sob Tutmosis III (1500 a.C.) organizavam esquadrões de 25 charretes de guerra. Os hititas usavam batalhões, cada charrete tripulada por um condutor e um ou dois soldados armados de lanças. Cavalos eram criados e selecionados, guerreiros de elite eram treinados, e o resultado eram uma forma de guerra que era um grande desafio para um inimigo sem suas proprias charretes. Reis se orgulhavam da quantidade de charretes que podiam colocar em campo, que viam como prova de seu poder, incluindo aí os reis gregos da era micênica…Um rei de Knossos, em Creta, dizia ter mais de 400 charretes, e um rei menos de Pylos, do peloponeso, dizia ter uma centena.
Em 1100 a.C. houve uma mudança súbita; invasões do norte destruíram os povos que utilizavam charretes, e a civilização micenica desapareceu, assim como os hititas. As charretes perderam seu significado bélico e viraram meio de transporte rápido e exclusivo de membros da elite.
A Ilíada de Homero menciona corridas de charretes entre os nobres, com pedras brancas marcando o percurso e prêmios como potes, mulas e vacas, escravas, valosas barras de ferro; a corrida é vencida por Diomedes de Argos.
Na época de Homero, se organizaram na Grecia as cidades-estado, que celebravam festivais para expressar seu senso de identidade; Olimpia, Delfos, Corinto, Neméia e outras criaram os grandes jogos estefaniticos (que tinha esse nome porque apenas oferecia como premio o Stephanos, uma coroa de ervas e flores)

https://leonmauldin.blog/tag/stephanos/

Desses jogos, os mais famosos eram os olímpicos, realizados em Elis, um distrito de Olimpia, nas confluencia dos rios Cladeus e Alfeus. De acordo com Pausanias, as corridas de charretes foram incluidos nos jogos olimpicos em 680 a.C., nas modalidades de biga (dois cavalos) e quadriga (quatro cavalos). Pelo que se sabe dessas charretes, de acordo com pinturas em vasos, é que elas eram pequenas e leves, com uma guarda que batia nos joelhos e um piso feito de tiras de couro entrelaçadas, e rodas de madeira com proteções de metal.

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Quadriga_in_ancient_Greek_pottery

Não foram encontrados hipódromos no local, provavelmente o campo de competição era preparado especialmente para a competição, sem arquibancadas nem outras amenidades, e devia ter 600 m de comprimento e 200 m de largura, com os postes marcadores de percurso ficando a 390 m de distancia entre si (duas estádias de distancia). Sabemos que entre os vencedores orgulhosos estavam os tiranos Myron e Cleisthenes de Sicyon, Hiero de Siracusa, e Empedocles de Acragas.

(continua quando der, planejo 24 artigos para cobrir 12 capítulos)

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Interessante essa ideia de artigos…

Agora consideração sobre corrida. Gostamos até de correr a pé, pois velocidade nos injeta adrenalina e dá uma sensação de prazer.

E as corridas eram tão importantes que cada região tinha o estádio como, geralmente, a maior medida métrica.

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Parte 2

A partir do século VI a.C. o número de participantes começou a aumentar, e há evidência que nos jogos píticos de Delfos em 462 a.C. haviam 41 charretes alinhadas na partida, e supõe-se que os números eram grandes em Olímpia também. Com tantos participantes, mesmo sendo uma exceção, ou ainda com metade deste número, deveria ser impossível manter a mesma chance para todos os competidores, com os mais externos já partindo com considerável desvantagem. Os organizadores solucionaram o problema, mantendo uma partida igualitária e evitando colisões nas centenas de metros iniciais, com a criação de portões de partida, com compartimentos para cada charrete. Em Olímpia, os portões eram organizados de forma a que os mais centrais eram colocados mais à frente; quando uma águia de bronze sobre um altar abria suas asas (ou se levantava), e um delfim sobre um poste começava a baixar, através de um mecanismo, era o sinal para que as cordas dos portões mais afastados fossem soltas antes, liberando as charretes mais distantes primeiro. Provavelmente não havia divisão entre as faixas de ida e volta, mas era necessário passar o poste distante em sentido anti-horário; provavelmente havia juízes suficientes para observar as charretes cumprindo as regras.
certamente a partida era furiosa, com os condutores, ou “aurigas” sabendo que um desequilíbrio significaria o fim de sua corrida, que deveria durar doze voltas, com velocidade e habilidade nas curvas elegendo o líder. A expectativa crescia com a trombeta anunciando a última volta. Finalmente a quadriga vencedora cruzava a linha de chegada sob aplauso trovejante do público, e temos um novo campeão olímpico (ou de delfico etc). Eventualmente acontecia um desastre, provavelmente algo bastante comum, com colisões cobrando a vida de competidores, para o horror dos espectadores, mas que continuavam assistindo mesmo assim. Era um evento popular, mas não o mais popular dos jogos; os boxeadores, como o pankration, e os corredores, eram os campeões mais populares e famosos dos jogos, talvez por causa da distância que os espectadores mantinham, talvez porque os competidores pertencessem a uma casta da sociedade capaz de manter cavalos e equipamentos. Apenas em Roma e Constantinopla os charreteiros obtiveram a popularidade e o status de heróis.

Etruria
No século VIII a.C. os esportes equestres chegaram á toscana italiana, certamente por influência dos colonizadores gregos do sul, e afrescos em ruínas etruscas mostram corridas de charretes datando do século VI a.C.; na Tomba della Olimpiadi, em Tarquinia, datada de 530-520 a.C. vemos uma corrida de bigae, com quatro participantes correndo em direção a um poste; sua corrida é intensa, com o quarto participante não terminando a corrida, com um dos seus cavalos pintado de cabeça para baixo.

http://www.cerveteri.beniculturali.it/index.php?it/205/le-tombe-dipinte

Há relatos de corridas em Veios e Chiusi, mas as corridas etruscas eram realizadas ao ar livre ou em circuitos bastante improvisados.

Roma
De acordo com Livius, no livro 1 de sua História de Roma, foi Romulus, fundador e primeiro rei de Roma, que introduziu as corridas de cavalo logo após a fundação da cidade, no longo vale aonde o pequeno rio Murcia passava entre as colinas do Aventino e Palatino. Em pouco tempo organizou pessoalmente também corridas de charrete, fechando o vale e trazendo corredores para o local. Estas corridas constam justamente do programa dos jogos no qual ele chamou a tribo vizinha, os Sabinos, junto com suas filhas, para participar, no que acabou desaguando no Rapto das Sabinas; como os romanos estavam algo carentes de mulheres, sequestraram as filhas dos vizinhos durante a festividade; quase começou uma guerra entre latinos e sabinos, mas estes acabaram fazendo as pazes. Isso pelos menos sugere que as corridas eram bastante populares entre romanos e seus vizinhos.

Em 600 a.C., Tarquinio Prisco, o quinto rei de Roma, tendo obtido sucesso em guerras e obtendo grandes riquezas atraves de butim, decidiu que deveria ser celebrados jogos anuais, e iniciou a construção de um circuito permamente, o que viria a ser o Circus Maximus. A versão de Tarquinio do circuito tinha arquibancadas de pedra 4 metros acima do solo, com assentos individuais para senadores e cavaleiros (equites), aonde seria possível assistir a provas de atletismo, lutas, corridas de cavalo e charretes. Isto marca um avanço em relação aos Etruscos, com a criação de um circuito permanente com arquibancadas que não seria desmontado periodicamente.
A partir daí suas instalações passaram a ser utilizadas para colaborar na celebração dos grandes festivais, como a Consualia, em honra a Consus, deus dos cavalos, fontes e mar, depois associado a Netuno, em duas datas, 21 de agosto e 15 de dezembro. posteriormente um segundo festival foi acrescentado, a Equirria, em honra a Marte, realizado todo ano, também em duas datas, 27 de fevereiro e 14 de março. Pelo fim da era dos reis, em 509 a.C., a corrida de charretes já era o evento principal dos festivais.
Nos séculos da república, a popularidade da corrida de charretes continuou a aumentar; as corridas de cavalos ainda constavam do programa, mas passaram a ser apenas um acompanhamento, com acrobatas pulando entre ou sobre os cavalos.
No século IV a.C., foram criados os Ludi, no qual festivais foram expandidos e duravam vários dias seguidos. Os Ludi eram financiados pelo Estado e honrando divindades específicas. O mais antigo era o Ludi Romani, em honra à triade Júpiter, Juno e Minerva, para a celebração do aniversário da fundação o tempo de Jupiter Optimus Maximos no capitólio, em 13 de setembro. Inicialmente os ludi Romani duravam cinco dias, até atingirem 14 dias, entre 5 e 19 de setembro, com duas partes permanentes: peças de teatro e corridas de charrete. Mais dias eram dedicados às peças porque as corridas eram muito mais caras e dificeis de organizar.
Os Ludi Plebei em honra a Jupiter foram criados durante a Segunda Guerra Punica em 216 a.C., realizados entre 4 e 17 de novembro, com tres dias reservados à corrida de charretes.
Os Ludi Apollinares em honra a Apollo foram criados oito anos depois em 208 a.C., entre 6 e 13 de julho, com dois dias de corrida de charretes.
Em 191 a.C. foram criados os Ludi Megalenses, de 4 a 10 de abril, em honra a Cybele, a grande mãe da Frigia, com um dia de corrida de charretes no seu encerramento.
De 12 a 19 de abril havia os Ludi Cereales, em honra a Ceres, deusa da fertilidade, de novo encerrado com um dia de corrida de charretes.
Finalmente, entre 27 de abril e 3 de maio, os Ludi Florales, em horna a Flora, também com corrida de charretes.no seu final.

O aumento do número dos dias de jogos estava associado ao crescimento da própria Roma, que a partir dos seculos V e IV séculos, crescia rapidamente e estava se transformando em uma metrópole, atraindo visitantes e novos habitantes… Em 218 a.C., no início da Segunda Guerra Púnica, deveria ter uma população de 125 mil habitantes, chegando a 300 mil habitantes em 133 a.C., no tempo de Tibério Graco. as corridas eram conhecidas e populares fora de Roma, sendo procuradas como um entretenimento pelos recem chegados, e as autoridades captaram este interesse expandindo as arquibancadas. Os competidores deixaram de ser exclusivamente aristocratas, como filhos de senadores e cavaleiros, e passaram a ser condutores especialmente treinados, de origem comum, com o qual o povo poderia se identificar, e passou a se sentir participante do espetáculo. Obviamente a distinção entre classes sociais persistia, com os assentos mais próximos sendo reservados aos senadores e cavaleiros, e as arquibancadas mais altas e distantes permitidas ao povo comum.
Nesta época os gladiadores estavam apenas surgindo como acessório a celebridades funebres.

No último século da República, foram criados dois novos jogos, em honra não a deuses antigos, mas a realizações de governantes, em uma certa quebra de tradição.
Temos então os Ludi Victoriae Sullanae, estabelecido por Sila em 82 a.C., para celebrar sua vitória sobre os Italianos na Guerra Social. nominalmente honrava a deusa Victória, mas o objetivo era realmente lembrar de Sila, “restaurador da republica Romana” e “protetor e benfeitor do povo romano” através de seu cargo de Dictator. Era realizado de 26 de outubro a 1 de novembro, encerrado com corrida de charretes.

César seguiu o exemplo de Sila criando os Ludi Victoriae Caesaris, de 20 a 30 de julho (creio que o nome do mês já havia mudado de Quinctilis para Julius). De dez dias, nos três ultimos eram realizadas corridas de charretes.

As decisões dos dois ditadores, de criar jogos em sua própria honra, tiveram consequencias importantes, tirando o festivais esportivos de seu contexto religioso tradicional, estimulando outros a fazerem o mesmo. Foi o que criou as bases para os jogos de circo da era imperial.

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A propósito, a bibliografia principal é “Chariot Racing in the Roman Empire”, de Fik Meijer; boa obra.

Terminei a parte 1, provavelmente a próxima parte vai demorar bastante tempo.

Parte 2 - Circo Maximo
Parte 3 - Preparação e organização
Parte 4 - Um dia no Circo Maximo
Parte 5 - Os heróis da arena
Parte 6 - Os espectadores
Parte 7 - As mudanças no percurso
Parte 8 - Heróis do hipódromo
Parte 9 - A revolta de Nika e seus 30 mil mortos
Parte 10 - O desaparecimento das corridas
Parte 11 - Ben-Hur e as corridas nos filmes

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Mto interessante, esse é um tema pouco comentado historicamente, parabéns!

(OFF: Quem mais lembrou direto o jogo Centurion? :sweat_smile: )

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Esse eu não conheço, mas recomendo demais o Qvadriga

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“Centurion , Defender of Rome”
https://www.old-games.com/download/217/centurion-defender-of-rome
http://www.abandonia.com/pt/games/11329/Centurion+-+Defender+of+Rome.html

Ótimo jogo para o seu tempo (1990). Nunca terminei uma corrida no entanto.

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Capítulo 2, “Circus Maximus” parte 1,

Em 27 a.C. Roma deixou de ser uma república aristocrática para se tornar uma monarquia absolutista, sob uma dinastia fundada pelo Imperador Augustus. Ele e seus sucessores deveriam sempre provar aos súditos que seu bem-estar estaria garantido por eles. por todo o império eram realizados festivais, com gladiadores, peças e corridas. As corridas de charretes se provaram imensamente populares no império, e os governantes locais se esforçavam para promover suas próprias corridas; de Cesareia na Judéia a Santiago do Cacém, na Lusitania, condutores e cavalos se concentravam em circos especialmente construídos.
Mas o maior de todos os circos era o Circus Maximus, vasto e impressionante, localizado no centro de Roma, perto do Forum Romanum e vizinho à Colina Palatina.
Em seu começo, não era chamado de Maximus, mas apenas de Circus, afinal era o único existente, e era feito apenas de um campo aberto com dois postes, que marcavam o percurso. Já no século II a.C., se tornou assunto de lendas, com um circuito fabuloso, e vastas arquibancadas capazes de abrigar 150 mil espectadores. Atualmente, o Circus meio que voltou a suas origens, e não passa de um gramado, com apenas os restos de um pequeno trecho de muro perto da Piazza di Porta Capena, à vista das ruínas do Palacio de Domiciano. O resto se foi, presa das forças da natureza, de terremotos devastadores, e provavelmente mais ainda devido a roubo de suas pedras para construção, por séculos. Desde a metade da Idade Média até o séc. XIX, as arquibancadas de pedra e a muralha que separava o circuito foi demolida, e agora há o gramado circundada pelas colinas de Roma; mas é um vasto gramado, e mesmo este vazio impressiona.

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Pouco se sabe sobre os primórdios do Circus, apenas trechos de lendas nas quais se diz que Romulus organizou corridas no local, que Tarquinius Priscus nivelou o terreno, que Tarquinius Superbus expandiu as acomodações para arquibancadas permanentes.
A infraesrutura do Circus era aprimorada continuadamente a partir do sec V a.C. em diante, conforme a popularidade das corridas se firmava. Em 494 a.C. o Dictator, Marcus Valerius Maximus construiu um trecho de plataforma especialmente para altos magistrados, separando-os do resto do povo. Em 328 a.C. forma construidos “carceres”, ou portões de largada, provavelmente de madeira. Os magistrados deveriam ter a certeza de haver um procedimento de largada mais profissional e justo; provavelmente devia ser usada uma corda com as charretes alinhadas atras antes disso. O número de participantes crescia, e talvez com isso o número de falsas largadas. Ruas de acesso o Circus passaram a ser alargadas e pavimentadas, para facilitar o acesso do povo. No séc 196 a. C. Gaius Stertinus construiu um arco triunfal na muralha externa, com estátuas no topo, e os postes que marcavam as voltas (os Metae) foram tornados permanentes; foi inventado um sistema que baixava ovos de pedra para indicar o numero de voltas completadas. Ajustamentos foram feitos para proteger os assentos mais baixos da poeira do circuito (e da aproximaçao perigosa das proprias charretes), com um perímetro de muros, em 186 a.C., por Fulvius Nobilior.

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Julio Cesar alongou o Circus em seu comprimento em ambos os lados, e criou uma fossa para separar mais o circuito das arquibancadas. Algumas das modificações de Cesar foram destruidas pelo fogo de 31 a.C., mas Augustus reconstruiu o que foi perdido e acrescentou mais alguns avanços. Arquibancadas foram acrescentadas em uma das curvas ( no lado oposto ao da largada). Os assentos baixos foram reservados para senadores e altos magistrados, e construidos em pedra, enquanto as arquibancadas superiores continuavam a ser erguidas em madeira.
Com um novo incendio, o imperador Claudius fez com que os portões de saída fossem reconstruidos em pedra, e construiu postes de chegada. Depois do terrivel incendio de 64 AD, que danificou o Circus Maximus severamente, o imperador Nero o reconstruiu a toda velocidade.
(continua)

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