[DH] Nem um passo atrás! (Edição Restaurada)

Lá em idos de julho de 2017, quando eu estava ativo no fórum, infelizmente eu acabei abandonando um AAR no Darkest Hour com o Mod New World Order 2: [DH] Nem um passo atrás!

Em tempos pandemia e home office, passei a fazer uma visita ou outra ao fórum. E também voltei a usar um notebook antigo, onde o jogo estava instalado. Infelizmente o save do jogo foi perdido. Como eu já estou ficando enferrujado em escrever, resolvi reativar o AAR.

Pelo que entendi, após a atualização do fórum, o sistema de confiança não permite edição contínua de posts para os membros. Assim, aquele tópico morreu. Então tentei recuperar os textos e algumas imagens, para quem quiser acompanhar desde o começo. Joguei até o ponto e tentei simular os mesmos movimentos feitos no save perdido.

Só que deixei minha estratégia de “enrolar pela narrativa” de lado…

Esta é a postagem inicial original, de junho de 2017: :point_down:

Normalmente eu sempre começo por um post explicativo, mas resolvi inverter. Este é um AAR no Darkest Hour, com o mod New World Order 2, que começou no cenário de 1933. Basicamente esse mod cobre o período da Guerra Fria por completo e vai até o fim da década de 90.

Resolvi narrar em idos de 1939, porque os anos iniciais são meio parados e tal. Isso acaba me cansando para escrever. Não tenho muitos objetivos, a não ser tentar terminar esse AAR, não abandoná-lo e tentar manter ele interessante. Espero que acompanhem.

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ÍNDICE

CAPÍTULOS ANTERIORES - 2017

INTRODUÇÃO

1939: PARTE 1

1939: PARTE 2

1939: PARTE FINAL

1940: PARTE 1

1940: PARTE 2

1941: PARTE 1

1941: PARTE 2

1941: PARTE 3

1941: PARTE 4

1941: PARTE FINAL

NOVOS CAPÍTULOS - 2020

1942: PARTE 1

1942: PARTE 2

1942: CAPÍTULO FINAL

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INTRODUÇÃO
No raiar do dia, a fumaça ainda saía do cano da metralhadora. As mãos e os braços do sargento Kuromiya ainda estavam tão exaustos que ele tinha poucas forças para removê-los da arma. Ao seu lado, os homens de sua unidade estavam exaustos. Observava a cena à sua volta. A alguns metros de distância, o médico trabalhava com dificuldades naqueles com ferimentos graves, mas não poderia fazer milagres. Kuromiya sabia que não haveria tempo para descanso ainda. De qualquer forma, ainda com dificuldades, sacou uma pequena botija com água e bebeu. Ao terminar, olhou para ao soldado que carrega a munição:
Sasaki! Remova os corpos da linha de tiro!
Cumprindo a ordem sem pestanejar, o soldado saltou do buraco da trincheira e começou a empurrar a pilha de soldados soviéticos mortos. A massa de carne ensanguentada era pesada para um soldado de pouco condicionamento físico como Sasaki. As rações diárias não lhe ajudavam e já estavam racionadas. Não era para menos… Sua unidade era parte do IV Regimento da 23ª Divisão de Infantaria, e estava há mais de duzentos quilômetros de Harbin, no norte da Manchúria. Os oficiais estavam tão empenhados em requisitar munição para repelir o ataque soviético, que provavelmente não se importaram com as rações do Exército Imperial nos últimos meses. Naquele lugar esquecido da China, nem o sargento Kuromiya e tampouco o soldado Sasaki imaginavam o que lhes aguardavam nos próximos dias. Era o primeiro dia de junho de 1939.
O ano de 1939 havia começado com muita tensão. Na Europa, a Alemanha ganhava terreno a cada dia. Hitler já havia arrancado dos franceses e ingleses algumas regiões da Tchecoslováquia, no ano anterior. Obviamente, não se contentaria e em março invadiu o restante daquele país, e colocou a Eslováquia sob sua tutela. A situação era preocupante, e havia preocupações em Moscou quanto a isso. O Camarada Stalin convocara reuniões com o Estado-Maior do Exército Vermelho e o comandante do Exército, o Marechal Kliment Voroshilov.
Assim como Stalin, o velho Voroshilov também estava preocupado. Não enxergava uma resposta militar clara para o que ocorria. Em parte porque a única coisa que enxergava eram os rivais que poderiam minar seu prestígio, e tratava de usar a máquina do Partido para eliminá-los com eficiência. Era mesmo uma estratégia muito boa, se não fosse pelos grandes buracos que causaram na cadeia de comando do Exército Vermelho. A caça aos trotskistas e bonapartistas dos anos anteriores fugira um pouco de seu controle, e seus efeitos foram severos.
Para a sorte do Exército Vermelho, do povo, e, ironicamente, do próprio Voroshilov, alguns oficiais brilhantes ainda operavam nesta hierarquia corroída, salvando vidas e aprimorando táticas de combate. Vários deles travavam lutas por recursos e careciam de ajudantes capazes, mesmo que estivessem em grandes formações na Ucrânia ou na Carélia. E, com o fim da Tchecoslováquia, a Polônia era o alvo natural da Alemanha… Preocupação ainda maior para estes homens. Conforme o perigo se avizinhava, as forças da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas estavam de prontidão na Europa.
Enquanto os generais soviéticos fitavam seus olhos no restante da Europa, e ainda debatiam como procederiam, um deles lidava com uma situação imediata. O General Grigori Shtern, comandante das unidades soviéticas no Extremo Oriente, enfrentava a ameaça japonesa. Em 1938, os japoneses haviam iniciado uma infiltração na República Popular da Mongólia. Os esforços desastrados do antigo superior de Shtern - o Marechal Vasily Blyukher - levaram a um empate custoso. Blyukher foi condenado por sua incapacidade e o NKVD o executou. Este fato já não o perturbava, pois era habitual. Tinha em suas mãos contingentes blindados recém-chegados do interior do país. A vitória era um ideal que sempre buscava, mas não a qualquer custo.
Quando os japoneses invadiram novamente a Mongólia, em idos de abril de 1939, ordenou contra-ataques contra as posições inimigas. Entretanto, não obteve sucessos significativos. Temendo o mesmo destino que seu antigo superior, Shtern estava aberto à iniciativa de seus comandados. Neste ponto, as histórias se interligavam. Entre os oficiais soviéticos que sobreviveram aos grandes expurgos, figurava o recém-promovido Major General Georgy Zhukov. Antigo capitão de cavalaria, Zhukov era um devotado comunista e um estrategista promissor. Ali, nos campos da Mongólia, tornara-se o novo executor das operações contra os japoneses.
Zhukov requisitara a Shtern que os embates de maior magnitude fossem sustados. Os japoneses contavam com grande experiência de combate frente aos recrutas do Exército Vermelho, mas tinham outras preocupações na China. Em vez de ataques de linha, a nova diretiva era congregar as forças para um ataque decisivo. Munição, blindados, artilharia… Longe das linhas ferroviárias, os comboios de caminhões traziam o que era preciso. Requisitara esquadrões aéreos com uma justificativa puramente defensiva.

Somente no dia que antecederia o assalto de 4 de junho é que Zhukov revelou ao General Shtern parte da extensão de seu planejamento.
Georgy, isto é muito audacioso… - Shtern estava visivelmente preocupado, enquanto observava o mapa sobre a mesa rústica em seu posto de comando - Nossa missão é garantir a soberania dos mongóis e as nossas posições aqui diante dos manchus e dos japoneses, não lhes declarar guerra aberta.
Camarada General, nossa missão é realizar todo o possível para conter os nipônicos… De uma vez por todas. - A voz de Zhukov era firme, mas demonstrava respeito diante de seu superior. - Não estou arriscando um assalto às cegas, mas um movimento de engajamento em duas frentes ao longo do Rio Khalkha. Se tivermos sorte, os japoneses vão recuar ao longo das posições e da fronteira.
E você acredita que o Estado-Maior vai concordar com isso, camarada? - Respondeu-lhe Shtern.
Bom, acredito que concorde… Eles esperam um resultado de peso. - Zhukov agitou um lenço em sua testa, para espantar um mosquito que lhe causava incômodo - Mas, se tudo isso não der certo, peço que envie meu uniforme de cerimônia para minha família. Não irei precisar dele! - Zhukov esboçou um leve sorriso, ciente das consequências que sofreria, caso falhasse.
Shtern enviou mensagem codificada para o distrito do Baikal, de modo a ser retransmitida a Moscou. Levaria até o fim do dia 3 para receber sua resposta. No fundo, esperava que Zhukov tivesse razão para tanto otimismo. Queria eliminar de vez a ameaça japonesa, mas não queria ser o responsável pela guerra. Zhukov, por outro lado, não relevou a outra parte de seu planejamento: seu ataque não era só uma operação de defesa, mas uma operação ofensiva apta a eliminar os japoneses. Não se atreveria a confiar sua intenção a Shtern, e agiria por seu próprio instinto. Quando as ordens de autorização de Moscou chegaram, os últimos preparativos foram concluídos.
Na madrugada de 4 de junho de 1939, a barragem de artilharia se fez valer duramente sobre as posições inimigas. Uma das granadas caiu muito próximo da trincheira onde o sargento Kuromiya e o soldado Sasaki estavam. A noite ainda se encerrando e a fuligem das explosões dificultavam a ver o que se aproximava. Após vários minutos, esperavam apenas pela ordem de fogo. O ronco de motores se aproximando causava não mais que o pânico usual. Suas mentes disciplinadas já estavam acostumadas. O barulho que ouviam eram vanguardas das forças blindadas do 45º Corpo Mecanizado do Exército Vermelho, investindo contra suas posições. Atrás deles,os morteiros disparavam sem cessar.
Os tiros de sua metralhadora resvalavam na maior parte das vezes, ante a blindagem dos veículos soviéticos. Sentiam que não havia efeito. As armas antitanques não conseguiam fixar muitos alvos específicos. O barulho ensurdecedor apenas aumentava. Os estilhaços e pedras levantadas com as bombas pintavam a cena infernal. A poucas centenas de metros de distância, o capitão da companhia ordenou que resistissem em suas posições até o fim. Kuromiya sabia que a morte se aproximava. Ele e Sasaki cumpririam com honra o seu dever.

A pouco mais de cem metros, o capitão desembainhou sua espada e ordenou o ataque. “Banzai!”
Sasaki pode ver com exatidão o momento que Kuromiya foi alvejado de forma certeira. O sargento esmaeceu de bruços na terra enlameada. Por fim, pode contemplar o clarão da explosão do morteiro a dois metros de onde estava. Caiu ao chão. Um corte horrendo emanava sangue de seu ventre. Esperou os segundos que lhe separava dos veículos e soldados soviéticos, antes de detonar uma granada e encerrar sua vida.
O ataque dirigido por Zhukov obtivera sucesso nas primeiras horas. Ao longo do dia, extensas posições inimigas foram expostas ao fogo impiedoso e as forças blindadas do Exército Vermelho cercaram a 23ª Divisão de Infantaria do Exército Imperial. Levaria mais um dia para debelar a resistência japonesa, mas o espírito obstinado de Zhukov impeliu seus homens à vitória!
O esfacelamento da 23ª DI japonesa selou a posição soviética na Mongólia. Não tardaria até que novos efetivos inimigos fossem enviados contra as tropas vermelhas, mas antes que isso acontecesse, Tóquio apelou para um cessar-fogo. Ao custo de milhares de baixas, os dois lados não se envolveriam em novos combates ou tampouco escaramuças. Dias depois, Shtern e Zhukov seriam condecorados ainda em campo por um adido do Estado-Maior do Exército, enviado pelo próprio Marechal Voroshilov.
Era um reconhecimento simbólico para uma ação que decidiria o futuro de todo o povo soviético. Um pacto de não agressão com o Império do Japão foi celebrado com a premissa de evitar incidentes isolados, e permitiu o equilíbrio de forças no Extremo Oriente. Certamente, nem a agressão japonesa ou a resposta soviética eram ações isoladas ou impensadas. A vitória foi deliberadamente ofuscada pelo peso da diplomacia.
O ano era 1939. Muito estava por vir, mas desde que fora criada pela luta do povo soviético, a Mãe Pátria mais uma vez se impunha para lutar por sua autodeterminação. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas seria testada, mas, através dela, o sólido esteio dos povos irmãos seria perene. Desde sua origem, seria através das tormentas e das batalhas é que veria o sol da liberdade raiar, escrevendo o futuro e mostrando o caminho à vitória do Comunismo!
1939: PARTE 1
Ao longo de toda a década de 30, o povo soviético viveu dias de intensa industrialização e expansão agrícola. Sob a vigência dos Planos Quinquenais, a União Soviética deixava seu passado feudal de herança czarista e se tornava um país economicamente forte. O Camarada Stalin sabia que não haveria como levar a Revolução adiante, se não consolidasse o ideal socialista internamente. Esta industrialização surtira efeitos precisos no bem-estar coletivo e também no desenvolvimento da indústria bélica. Com os rumos que a Europa tomara após o expansionismo dos fascistas, Stalin sabia que a política seria determinada mais pelas armas do que por palavras.
O sonho visionado de Lênin era trilhado à exceção de algumas situações execráveis no caminho. Membros da velha guarda do Partido eram mais fervorosos a consolidar suas próprias carreiras e posições, do que a causa comunista. Forjando relatórios e testemunhos, influenciaram Stalin a assinar ordens para os grandes expurgos que abalaram as Forças Armadas. É certo que inimigos reais tiveram suas punições, mas aqueles imaginários personificados em militares competentes também padeceram. Mesmo diante da perda de quadros fundamentais, homens como o Almirante Nikolai Kuznetsov ainda lutavam para manter as necessidades de segurança coletiva atendidas.
Se no Exército os expurgos foram cruéis, na Frota Vermelha foram devastadores. Nenhum oficial com posto de almirante sobrevivera ao ano de 1937. Kuznetsov fora um dos dois promovidos no início de 1939, e sobre eles recaía o peso de manter a força de combate em condições de operar além da costa. Não hesitara em peitar alguns chefes no Estado-Maior das Forças Armadas e altos comissários do Partido que queriam sujeitar a Frota. Antes de receber as divisas, fora comandante da Frota do Pacífico - a mais antiquada unidade da Marinha. Entretanto, por sua ação, salvou muitos comandados de atrocidades.

Quando foi convocado no Kremlin por pedido de Stalin, recebeu autonomia e a promessa de reaparelhamento das forças navais. E, apesar dos pesares, não eram promessas tão próximas de serem cumpridas. Levaria anos para conseguir modernizar as esquadras. Em fevereiro de 1939, recebeu dois cruzadores pesados: o Kirov e o Voroshilov. Odiava ter o nome do Marechal dado a um de seus navios, mas fora a melhor solução para cortejar o velho a ser mais benevolente.
Um mês depois com a entrega do cruzador de batalha Kronshtadt também fora comissionado no Báltico. Este sim representava o futuro da Armada Soviética. Equipado com canhões de grosso calibre e um menor calado que as naus capitâneas - o Marat e o Revolução de Outubro - ainda assim conseguiu dar combate nos testes de fogo da esquadra. As três unidades se somavam a dois cruzadores e outros quinze contratorpedeiros entregues anos antes. Até junho, mais catorze contratorpedeiros seriam entregues, mas à Frota da Bandeira Vermelha no Norte. Tornar-se-iam as apostas de Kuznetsov de responder às recentes aquisições da Marinha Alemã.
Enquanto as forças militares faziam preparativos, em Moscou, o Comissário do Povo para as Relações Exteriores Vyacheslav Molotov escrevia as linhas para um acordo sem precedentes. Hábil burocrata do Partido, Molotov fora um ativo fundamental não apenas para o crescimento da União Soviética, mas para o restabelecimento da diplomacia com as potências capitalistas ocidentais. Desde 1936, lidava com o belicismo alemão. Em 1938, urgia britânicos e franceses a combaterem a ameaça nazista.

Nem Paris e tampouco Londres queriam admitir a realidade dos fatos, e muito menos assumir compromissos com Moscou. Quando os nazistas invadiram Praga e já se alinhavam nas fronteiras com a Polônia, Molotov sentiu que o apaziguamento de Chamberlain e Daladier só visava empurrar as ambições de Hitler cada vez mais para o Leste. Em julho de 1939 já estava claro que meias medidas não seriam suficientes. Era preciso estabelecer uma diplomacia pragmática. As conversações com os nazistas precisavam ser realizadas para estabelecer uma posição geopolítica fiável. Stalin tinha o mesmo sentimento. E, sob suas ordens, Molotov convidou o ministro alemão Joachim von Ribbentrop para uma visita à Moscou.
Dos encontros, firmavam-se as diretrizes de um tratado bilateral. Por maiores formalidades e sorrisos amistosos, ambos os lados procuravam apenas as vantagens unilateralmente. O Camarada Stalin consentira em selar a sorte da Polônia, entretanto, dividiria aquele país em duas partes, sendo uma delas incorporada à União Soviética. Mais do que isso, conseguira eliminar de Berlim as ligações com os enclaves da Lituânia, Letônia e Estônia - incômodos existentes desde que os reacionários tomaram o poder durante a Guerra Civil de 1919 - e ainda transferir a Finlândia à esfera soviética.
A negociata era infame, mas o saldo político era justificável. Dava uma margem de manobra considerável para que as forças militares soviéticas fossem mobilizadas com o pleno consentimento alemão, e o mesmo vice-versa. Ao mesmo tempo em que a situação com o Japão fora resolvida, Molotov resolvera todas as pendências externas, dando tempo para assegurar governos simpáticos no Báltico e na Finlândia.
Em 9 de agosto de 1939, Ribbentrop viajou novamente à Moscou, e, desta vez, como plenipotenciário para assinar um pacto de não agressão e cooperação. Stalin fez questão de estar presente. Por mais difícil que fosse apertar as mãos do palhaço nazista, Stalin sabia que pior ainda seria para Ribbentrop.
Stalin sorriu o tempo inteiro, rompendo com seu semblante sério costumeiro. Tinha a satisfação de saber que aquele papel significava o pedido de permissão por parte dos alemães para entrar na Polônia. Molotov também estava satisfeito. O conflito europeu que se avizinhava seria inevitável, mas os interesses do povo soviético estavam salvaguardados pela firme liderança do Camarada Stalin. De um modo irônico, a causa comunista avançava por linhas tortas.
Na agitada noite de 9 de agosto, Kuznetsov leu a edição suplementar do jornal Pravda com certa satisfação, em seu gabinete no prédio da Marinha em Leningrado. O acordo com os nazistas não era o melhor dos mundos, mas lhe dava tempo para continuar o extenso reaparelhamento da Frota Vermelha. No mais, tinha que redigir e expedir as ordens específicas para a esquadra do Báltico. Acreditava que os alemães não levariam muito tempo para desencadear sua ofensiva sobre os poloneses. À noite, recebeu mensagem codificada de Moscou, entregue por seu imediato:
*-RELATÓRIO DA INTELIGÊNCIA-

AO COMANDO DA MARINHA DA BANDEIRA VERMELHA:

POSSÍVEL MOVIMENTO DE UNIDADES NAVAIS NO CORREDOR POLONÊS. MANTER PRONTIDÃO NOS DISTRITOS NAVAIS. EMPREGAR OS MEIOS PREVISTOS PARA AS UNIDADES DE SUPERFÍCIE. NÃO É UM EXERCÍCIO.*
O Almirante Kuznetsov nem precisaria de um relatório simplista daquele, provido pela Inteligência Militar. O rumo dos fatos já marcava o que ocorria na Europa, e quais deveriam ser seus procedimentos. Só não imaginava que seria tão rápido. Ribbentrop mal acabara de sair de Moscou. Devia ter chegado a poucas horas em Berlim. E, naquele momento, os alemães já engatavam a marcha de seus blindados.
Na manhã de 10 de agosto de 1939, as forças alemãs invadiriam a Polônia. O fascismo mostrava suas garras. Era o início da guerra… E era dever da União Soviética resistir, garantindo a liberdade dos povos socialistas e a sobrevivência da Internacional Comunista.
1939: PARTE 2
Com o início das hostilidades na Polônia, os alemães desencadearam uma operação militar sem precedentes. Ao cabo de três dias, as vanguardas motorizadas alemãs já estavam a não mais que cem quilômetros do subúrbio da capital polonesa. Fora uma média impressionante de cinquenta quilômetros de avanço por dia. Os relatórios da Inteligência Militar Soviética mal chegavam a Moscou e já estavam desatualizados. Durante este espaço de tempo, todos os batalhões poloneses na fronteira soviética foram enviados para o embate com os nazistas.
O fato foi uma surpresa para os observadores do Estado-Maior do Exército Vermelho. E não era para menos. O exército polonês era uma das forças mais capazes da Europa, e sua mobilização para a guerra tinha mais de quatro meses de antecedência. Apesar de nenhuma doutrina militar soviética àquela altura poder prover uma capacidade logística para feito semelhante, o Camarada Stalin sabia que era o momento de agir. Havia milhares de bielorrussos e ucranianos vivendo no leste da Polônia. Defender estas populações era um dever da União Soviética ao tempo que o governo vizinho implodia. Por mais que o pacto assinado dias antes já houvesse selado a sorte da situação, o ritmo da desagregação foi acelerado.
Recomendou ao General Boris Shaposhnikov, chefe do Estado-Maior das Forças Vermelhas, e demais chefes do alto escalão militar, que a solução militar deveria ser empregada de imediato… As tropas soviéticas deviam entrar na Polônia. Em 13 de agosto, o Tenente-General Dmitry Pavlov, comandante do II Exército Mecanizado, foi comunicado de suas ordens de suas ordens. Entre os comandados de Pavlov, estava o veterano da Batalha do Rio Khalkha, o agora Tenente General Georgy Zhukov. Ao mesmo tempo, o IX Exército de Montanha, uma das mais competentes unidades de infantaria do Exército Vermelho, fora redesignada do Cáucaso para a Bielorrússia.

Não se esperava um embate direto com os poloneses, pois já era sabido que estes também não esperavam uma intervenção soviética durante uma situação de guerra contra a Alemanha.
Nas primeiras horas do dia 14, as tropas soviéticas avançaram em formação que mais se assemelhava a um desfile ou um comboio militar. O jornal Pravda noticiara não mais que uma intervenção pacífica para garantir segurança a minorias eslavas. Do lado polonês, as poucas patrulhas de fronteiras resignaram do combate. Ordens difusas de Varsóvia tratavam a ação soviética como um socorro informal. E não era para menos… As unidades vermelhas que haviam entrado no país eram forças veteranas e, em suma, esperava-se que fossem fazer frente ao avanço alemão.
Conforme a situação de Varsóvia avançou, entre os dias 17 e 22, levando à capitulação da capital diante da investida germânica, o Tenente-General Pavlov passou a exigir a rendição de efetivos poloneses ao Exército Vermelho que ainda estivessem em operação no leste. Os mais importantes eram o XIV Exército e o XXIX Corpo de Infantaria, que recuavam da confrontação com os alemães. Surpresos com as demandas soviéticas, seus comandantes resolveram opor resistência em Wolkowysk e Lutsk.
Ainda incrédulo que os poloneses tivessem adotado aquela postura ousada, Pavlov surpreendeu a formação inimiga com um movimento de pinças. Não possuindo a superioridade numérica, solicitou apoio aéreo para saturar a posição inimiga. Uma jogada desenvolta para um comandante de tanques que ainda não acreditava no pleno potencial das formações blindadas. Na tarde do dia 25, dois esquadrões de bombardeiros Tupolev e escoltas realizavam um grande raid sobre as posições do XIV Exército Polonês, causando severas baixas e enorme desorganização no combalido oponente.
Em 29 de agosto, grande parte da Polônia foi ocupada. As forças soviéticas realizaram movimentos precisos para isolar as forças polonesas restantes em bolsões. Em virtude do oportunismo do XIV Exército, Pavlov não fez qualquer cerimônia em aceitar o pedido de um general alemão para promover suporte de artilharia pesada e suporte blindado em um dos flancos. Era mais uma oportunidade de verificar as táticas alemãs, tal qual Pavlov já havia observado in loco no Conflito Civil da Espanha, três anos antes, mas que não aproveitara de modo eficiente.
Dois dias depois, um oficial polonês ofereceu rendição a Pavlov, porém este o ignorou o ato covarde, ignorando a solicitação. Os alemães se prontificaram a se encarregar da sorte daquela tropa. Ao sul de Brest-Litovsk, o Tenente General Zhukov assediava o XXIX Corpo de Infantaria, que àquela altura já estava flanqueado pelos alemães, e não teria outra escolha a não ser baixas armas.
A rendição incondicional das forças polonesas seria completa na primeira hora do dia 1º de setembro de 1939. Milhares de soldados poloneses foram retirados do leste da Polônia e enviados para campos de trabalho no interior da Ásia. Mas antes que as tropas do Exército Vermelho interrompessem sua marcha sobre vilarejos poloneses, o Marechal Kliment Voroshilov foi pessoalmente ao front na noite anterior para realizar mais do que uma visita: vinha com ordens para a entrada das tropas do Exército Vermelho na Lituânia.
Do modo como o acordo com os alemães ditava a situação os países bálticos, a Lituânia, a Letônia e a Estônia deveriam ser submetidas à esfera soviética. Entretanto, não seria possível uma mera aproximação política. Com a ascensão dos nazistas, movimentos reacionários e fascistas surgiram na região, distorcendo os fracos regimes democráticos. Seus presidentes agiam de modo autocrático e mantinham relações próximas entre si. É certo que Hitler já havia influenciado suficientemente os três países.
O Comissário de Relações Exteriores Vyacheslav Molotov já tentara negociações para a concessão de mais liberdades às minorias russas e bielorrussas, além de preservação da existência dos Partidos Comunistas Bálticos, postos na ilegalidade durante o último decênio. A resposta foi um endurecimento nas relações com a União Soviética. Com a carta branca dada pela Alemanha, Stalin esperava uma intervenção rápida nas três repúblicas. Com o IX Exército e o II Exército Mecanizado atuando no front, a Lituânia foi incorporada ao território nacional em quinze dias.
Entre 22 e 25 de setembro, as forças do Exército Vermelho entraram ainda em Riga, na Letônia, e Tallinn, na Estônia. No lugar dos fracos governos republicanos, o Soviete Supremo da União Soviética instaurou os Partidos Comunistas locais como sucessores legítimos nos governos. Deu-se início à política de coletivização dos meios de produção e das terras. Ao mesmo tempo, o NKVD se encarregou de arrestar os elementos fascistas e reacionários que reagiram à mudança política.
O território incorporado à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas detinha uma população de quase vinte milhões de habitantes, de diferentes grupos étnicos. Um longo processo de sovietização do modo de vida das populações polonesas, estonianas, lituanas e letãs seria necessário pelos anos que seguiriam. Em menos de dois meses, mudanças consideráveis haviam ocorrido no Leste Europeu. As deformidades geopolíticas surgidas por necessidade de sobrevivência do povo soviético durante a Guerra Civil de 1918-1921 foram em grande medida sanadas. Sob a liderança de Stalin e do Partido, estas inconsistências foram resolvidas após estes longos vinte anos.
Os alemães não esperavam estes desdobramentos àquela ocasião. O Exército Vermelho saía fortalecido como uma força militar ainda eficiente, e de sobremaneira numerosa. O General Shaposhnikov tentava recompor a hierarquia de comando, mesmo diante dos estragos do velho Voroshilov. Mesmo sem poder intervir frontalmente na organização do Exército, tentou lançar as diretrizes para a segurança das fronteiras com a Alemanha e garantir o sucesso dos próximos passos militares. Sem dúvidas, seria a expansão da esfera socialista soviética sobre a Finlândia.Os soldados marchavam orgulhosos para a fronteira com a Finlândia. Pela força do poder popular, o socialismo avançava de forma histórica!
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1939: PARTE FINAL
Enquanto as forças soviéticas integravam os países bálticos ao território nacional, o Comissário de Relações Exteriores Vyacheslav Molotov encerrava suas negociações com o governo da Finlândia. Durante a Guerra Civil, a Finlândia foi um dos países que foram tomados pelas forças reacionárias, adquirindo sua independência. Houvera um erro grotesco cometido pelo tratado político que reconheceu esta emancipação: a fronteira russo-finlandesa estava muito próxima de Leningrado, uma das maiores cidades russas. O afastamento dessas divisas por mais algumas dezenas de quilômetros era uma prioridade.
Nos anos anteriores, Molotov já havia contactado sua contraparte em Helsinque para acordos neste sentido. O esforço foi em vão, e, de modo grotesco, os finlandeses ampliaram suas fortificações em toda a Carélia. Com o advento do acordo com a Alemanha, não faltou apoio interno de antigos revolucionários bolcheviques finlandeses que haviam deixado sua terra para fugiram da repressão dos reacionários. O Camarada Stalin também tinha o desejo de possibilitar a existência de uma República Popular Finlandesa.
Em idos de outubro, a Seção de Inteligência do Exército Vermelho apontava que as forças finlandesas haviam se preparado intensamente para uma guerra defensiva, em caso de uma intervenção soviética. De igual modo, novas tropas soviéticas foram designadas para a Carélia. O Marechal Voroshilov encarregou o General Semion Timoshenko como comandante-em-chefe do recém-criado Front Norte, sob a crença que Timoshenko executaria os planos previstos. O tempo urgia contra o planejamento soviético, pois o frio e a neve cedo cobriam a Europa Setentrional.
Um competente militar de carreira, Timoshenko logo notou que a Finlândia não se enquadrava na mesma situação de fraqueza militar que os países bálticos. Aquele país havia granjeado diversos acordos internacionais, logo, um ataque frontal indiscriminado poderia receber sanções externas. Os incidentes de fronteiras cresciam e os finlandeses provocavam as patrulhas soviéticas com certa frequência. Disposto a uma ação rápida, Timoshenko revisou e redesenhou os planos convencionais de ataque, dotando-lhe de uma envergadura inédita.

O plano de invasão proposto pelo General Semion Timoshenko para a intervenção na Finlândia.
O plano de Timoshenko era audaz e previa um grau de coordenação e eficiência das Forças Armadas que ainda era prematuro. Em vez de um ataque ao longo do istmo da Carélia e demais regiões da fronteira, preconizava-se um assalto furtivo de unidades mecanizadas através da costa do Báltico, isolando os centros urbanos de maior importância. Uma ação pioneira, pois não havia doutrinas militares fiáveis que apoiassem desembarques motorizados anfíbios. Os ataques por terra deviam apenas distrair a atenção do inimigo antes do ataque naval ser lançado. A Força Aérea e a Marinha Vermelha seriam mobilizadas para apoiar a operação e garantir seu sucesso.
O Estado-Maior das Forças Soviéticas julgou a ação de alto risco, e improcedente até a primeira quinzena de novembro. Boris Shaposhnikov, general chefe do Estado-Maior, externou preocupações quanto ao uso ostensivo de transportes e unidades de superfície. Em defesa de seu procedimento, Timoshenko alegou que a estratégia provocaria o colapso do governo finlandês e evitaria combate prolongado através de relevo de difícil acesso. O velho Voroshilov preferia a estratégia antiga. Nikolai Kuznetsov, enquanto Almirante da Frota Vermelha do Báltico apoiava o novo plano… Era oportunidade para demonstrar a eficiência de suas unidades navais.
Durante as reuniões, o Camarada Stalin, por sua vez, elogiou o empenho estratégico de Timoshenko e contemporizou as reações de Shaposhnikov e Voroshilov. E, no fim, sua palavra prevaleceu em favor da nova operação.
Entre 16 e 19 de novembro, as forças soviéticas foram instruídas das novas ordens. Não houvera tempo de treinar desembarques anfíbios com a infantaria. Os destacamentos de fuzileiros eram ainda incipientes e sem capacidade para combate de inverno. Os componentes mais capazes eram brigadas mecanizadas vindas do interior da Sibéria, logo seriam estes a serem empregados. Os oficiais dessas formações tinham experiência em condições climáticas gélidas, mas nenhum em enfrentar oposição de praia. Portanto, era vital não encontrar resistência.
O reconhecimento aéreo e naval garantiu o sinal verde. Após um incidente de fronteira, onde patrulhas finlandesas dispararam contra soldados de uma unidade do VI Exército, a situação estava posta. Em 18 de novembro, Molotov estipulou um prazo de 48 horas para que o Governo da Finlândia acatasse o pedido de desocupar o istmo da Carélia, desmontar suas forças militares, em troca de compensação territorial e econômica.

As demandas soviéticas foram rejeitadas pela Finlândia e a intervenção se transformou de política em ação direta em 20 de novembro de 1939.
Nas horas após o encerramento do prazo, o General Timoshenko deflagrou o início das hostilidades com ordens para o avanço contra as linhas inimigas.

Tropas do VI Exército avançando em direção à Sortavala, na Finlândia.

Com o avanço das tropas soviéticas, as forças finlandesas resistiram em suas posições. Todo o sistema defensivo finlandês foi acionado para conter as forças vermelhas. O comandante das forças inimigas - Carl Gustaf Emil Mannerheim - mobilizou quase todas as reservas disponíveis, desguarnecendo o litoral e regiões do interior. Confiante em suas linhas de defesa, não hesitou em apostar tudo em uma defesa de linha. Era a oportunidade pretendida por Timoshenko. Menos de dois dias após a declaração de guerra, o efetivo mecanizado sob o comando do Major General Malyshev desembarcou na altura de Vaasa, no centro da Finlândia, sem qualquer oposição.

A surpresa da ação militar foi tremenda. As mensagens militares interceptadas do inimigo apontavam a desorganização do comando. Mannerheim só poderia lançar mão de uma divisão conscrita às pressas e mal organizada, lotada em Helsinque, e formações já engajadas em combate. O comandante finlandês acreditou ser aquela uma distração bem arquitetada, mas com as estradas litorâneas abertas, as tropas soviéticas poderiam circular livremente. Diante da realidade, a solução era evacuar parte das tropas do Istmo da Carélia para a capital em uma marcha de quase dez dias em virtude da dificuldade logística. A armadilha fora posta, e o inimigo caíra nela. Timoshenko já pretendia um segundo desembarque previsto na linha Viipuri-Lappeenranta, bloqueando o trânsito finlandês de múltiplas direções.
Em 28 de novembro, as forças mecanizadas de choque do Major General Ivan Konev já se preparavam para executar a tarefa. Era o desmonte completo do sistema defensivo finlandês no sul da Carélia.

A situação se transformara em defesa exasperada. Timoshenko ludibriara seu oponente, e já desengajara todas as forças soviéticas ao longo da frente de batalha. Apenas as forças utilizadas nos assaltos anfíbios se mantinham em plena operação. Malyshev recebeu ordens para avançar rumo a Hensilque. Recebendo apoio, Konev também o fez. Com dois corpos mecanizados, o comandante soviético pretendeu surpreender as unidades conscritas que haviam deixado sua capital.
A investida em duas direções obrigou Mannerheim a forçar o abandono das linhas. As tropas finlandesas recuariam para regiões do norte e do interior para formar a resistência, pois, caso se mantivessem nas linhas, seriam cercadas e destruídas por um oponente largamente superior. Entretanto, as comunicações se precarizavam. A Força Aérea Vermelha investia contra linhas de suprimentos e cortava a comunicação em várias partes da fronteira. Hensilque vivia sob o blecaute de informações e a ameaça de isolamento. No mar, a Frota do Báltico caçou os parcos navios antiquados e bloqueou o tráfego marítimo finlandês.
As primeiras reações internacionais viriam através da Suécia, que anunciava o envio de ajuda aos seus vizinhos e, possivelmente, de soldados. A Inglaterra e a França condenavam a intervenção da União Soviética. Dada a mobilidade e velocidade das operações, pouco se soube da dimensão da já apelidada “Guerra de Inverno”. Por sua vez, a Alemanha apoiava a ação e evacuava seus navios mercantes no Báltico para longe da frente de guerra.

Na noite de 6 de dezembro de 1939, vanguardas blindadas de Konev estavam a vinte quilômetros dos subúrbios de Helsinque. Chocado com o rumo da situação, o presidente finlandês Kyösti Kallio sofreu um colapso de sua saúde e falecera. A notícia foi um duro golpe contra o moral finlandês. Além de não conseguir efetivar sua defesa contra os soviéticos, agora aquele país perdia seu representante. O primeiro-ministro Risto Ryti assumiu a presidência e seu gabinete o forçou a negociar a rendição junto aos soviéticos.
Por volta das 22 horas daquele dia, Ryti e uma comitiva de oficiais do exército encontraram-se com o Major General Ivan Konev. Inocentemente, acreditavam negociar um tratado contemporizador com algumas concessões. Mas Stalin determinara que somente a rendição incondicional atendesse a solução do conflito. Aos auspícios de Moscou, Konev exigiu a capitulação da Finlândia. Mannerheim não foi consultado, e, àquela altura, sua opinião não teria mais peso. À meia noite do dia 7, o cessar-fogo seria completo.

Certo de seu destino, pois fora um dos comandantes brancos durante a separação da Finlândia, Mannerheim tentou tomar um avião para o norte do país, e de lá para a Suécia. O NKVD já havia expedido as ordens para sua prisão, e, no caso de resistência, sua execução. Conforme as tropas finlandesas depuseram suas armas diante das tropas soviéticas, a caçada havia começado. O comandante inimigo não tivera a capacidade de se render. Ainda na madrugada do dia 8, tomou um avião biplano para ser levado ao provável destino de Oulu.
Seu destino trágico se deu quando dois Polikarpov I-16 partiram de Viipuri para patrulhar a região e interceptaram o avião sem autorização e sem identificação. O avião foi abatido e Mannerheim morreu na queda. Um destino infeliz.
A ação rápida sobre a Finlândia evitou maiores desdobramentos entre as potências aliadas. A União Soviética seria demovida da Liga das Nações em 14 de dezembro, em virtude da incorporação da Finlândia. Para Hitler, os sucessos soviéticos foram um incômodo de importância. Muitos de seus generais viram com preocupação o crescimento de poder da esfera soviética, ainda mais sob a benção do alto escalão nazista.
O Estado-Maior das Forças Armadas Soviéticas tiraria lições do conflito, aprimorando as doutrinas de guerra e recompondo a hierarquia. Reintroduziria o sistema de promoção entre as tropas e a disciplina militar. O General Semion Timoshenko e outros comandantes foram condecorados com altas marcas por sua competência em comando e suas unidades saíram veteranas de um conflito de curta duração.
No lugar da antiga dissidência, renascia o Partido Comunista da Finlândia. Em 21 de dezembro de 1939, surgia a República Democrática Finlandesa - um estado socialista sob a liderança de Otto Wille Kuusinen e camaradas bolcheviques finlandeses repatriados. O comunismo avançava para unir os proletários de todo o mundo!

1940: PARTE 1
O mês de janeiro já não se iniciava com a mesma agitação dos meses precedentes. Até então, tanto os franceses quanto os britânicos ainda aguardavam as próximas operações alemãs, esperando por outro 1914. Por outro lado, viram as operações soviéticas pregressas como uma fonte de perigo ainda maior. Agentes soviéticos na Europa Ocidental enviaram indícios claros de que havia várias conversas estratégias sobre uma possível intervenção anglo-francesa na Escandinávia. Com a instauração do socialismo na Finlândia em dezembro, os dois lados do canal da Mancha ficaram de mãos atadas. A iniciativa parecia ter morrido antes que qualquer soldado aliado pisasse na Noruega.
Em meados de janeiro, unidades do III Exército interceptaram um grupo considerável de voluntários suecos que tentavam alcançar a fronteira no norte, na altura dos Alpes Escandinavos. Em virtude do geografia do terreno, um destacamento sem identificação se incumbira do resgate, dentro das fronteiras da República Democrática Finlandesa. A missão falhara e todos caíram prisioneiros das forças soviéticas. O Camarada Stalin foi comunicado da situação e lançou uma fala impositiva acerca da incursão sueca em solo finlandês. A crise diplomática estava posta.
A Suécia não reconheceu a veracidade do ocorrido até que a identidade dos oficiais e voluntários suecos arrestados foi divulgada em um edição do Pravda, no começo de fevereiro. Vyacheslav Molotov não tardou em cuidar das negociações, que versariam sobre o reconhecimento do novo governo da Finlândia em troca de todos os voluntários prisioneiros. Demandaria tempo até que Estocolmo passasse a considerar a proposta. Não havia motivação para transformar a situação em pretexto militar. Stalin fora taxativo quanto à importância para que a situação fosse resolvida por canais diplomáticos.
Na Alemanha, todavia, o incidente era recebido com relevância. A Escandinávia era a bola da vez e passava a ter maior atenção do Alto Comando Alemão. Em virtude dos combates navais no Mar do Norte, pareceu plausível que as bases navais norueguesas fossem necessárias para uma confrontação em pé de igualdade com os britânicos. Hitler não demoraria muito para enxergar da mesma forma. Os alemães então lançaram mão de um curso audacioso de ações e surpreenderam a Europa, no dia 24 de março de 1940, com a declaração de hostilidades com a Noruega. No dia seguinte, a Dinamarca também seria comunicada da guerra.

O ataque à Dinamarca seria essencial para controlar bases para o ataque à Noruega, em março de 1940.
Em menos de 24 horas, as forças dinamarquesas capitulariam praticamente sem luta diante das ameaças das tropas nazistas. Era impossível aos dinamarqueses resistirem de qualquer forma. O governo do rei Christian X aceitaria a rendição na noite de 28 de março.

O rendição da Dinamarca foi um choque para a Noruega, pois não demoraria até os alemães investirem neste país.
Nos dias que se seguiram, os alemães tomaram de assalto a cidade de Narvik, no norte da Noruega, e despachavam ataques contra Bergen, Oslo e Trondheim. O ofensiva germânica havia pego tanto os britânicos e os franceses de surpresa. Seus planos de contingência se tornaram obsoletos. A Marinha Real Britânica realizaria extensas operações que retardariam os desembarques e fustigariam a Marinha de Guerra Alemã.
O Estado-Maior das Forças Soviéticas acompanhava estes desdobramentos com preocupação. Por um lado, Hitler agia no limiar máximo de sua esfera de influência geopolítica. Por outro, criava novas complicações sobre a sorte da Suécia. Como maior economia escandinava, a Suécia era a fonte de 45% do minério de ferro consumido pela máquina de guerra da Alemanha. Com a campanha da Noruega se mostrando um cenário ativo, o Estado-Maior temia que a dominação econômica dos alemães sobre a Suécia pudesse se transformar em dominação militar.
As agitações na Suécia não foram poucas e dividiam vozes. Muitos primavam por ajudar seus vizinhos noruegueses. Outros apontavam que o caminho devia ser a adesão aos nazistas, uma vez que a Dinamarca não durou um dia sequer. Internamento, o governo sueco usava suas forças contra a causa comunista. Não aceitou negociar a extradição dos prisioneiros em troca do reconhecimento do novo governo finlandês.
No início de abril, Stalin sentiu a necessidade de tomar providências quanto a situação da Suécia. Requisitou a Voroshilov e Shaposhnikov que elaborassem uma ação militar ofensiva. Enquanto comandante do Front Norte, o General Timoshenko teria o controle das operações em caso de declaração do estado de beligerância. Não demoraria mais do que algumas semanas até que a ordem fosse dada, e as tropas soviéticas entrassem na Suécia. A hábil liderança de Stalin garantia um passo adiante na consolidação do poder soviético na Europa.

O plano de invasão previa o desembarque ao sul, e através das ilhas de Aland, ao centro. No norte, dois exército soviéticos avançariam sobre as linhas defensivas de Lulea, um dos principais portos suecos.

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Em 24 de abril de 1940, Molotov entregou pessoalmente a declaração do estado de beligerância entre a União Soviética e a Suécia.

A declaração de guerra surpreendeu os alemães e os aliados. Não se esperava uma reação da União Soviética por hora. O ministro alemão Ribbentrop enviou protestos formais para Molotov e encaminhou a suspensão da concordata de agosto de 1939. Molotov, por sua vez, dava passos calculados. A Inteligência Militar Soviética sabia que os nazistas estavam às vésperas de lançar uma ofensiva no Oeste da Europa, e não poderiam responder à ação militar. Para contemporizar a situação, o Comissário de Relações Exteriores garantiu que os compromissos econômicos quanto a exportação de minério de ferro sueco seriam garantidos.
Para os Aliados, por seu turno, nada poderia ser feito pela Suécia. Acreditavam que haveria uma redução natural do comércio de minérios para a Alemanha, o que diminuía sua capacidade de fazer guerra. De início, condenaram a ação. Prometeram esforços para garantir a estabilização da Escandinávia. Secretamente, contatos militares britânicos já contatavam Moscou para que a União Soviética reduzisse o afluxo de minérios para os alemães. Provavelmente torciam por um embate entre soviéticos e nazistas.
Enquanto as reações se externavam, ao norte da Suécia, o III e o VIII Exército de Infantaria avançaram sobre as regiões ferríferas do norte da Suécia. Timoshenko ordenou às tropas para que a infraestrutura fosse tomada tão intacta quanto fosse possível. Em virtude disso, os regimentos aéreos se concentraram em raides aéreos sobre posições militares na região de Estocolmo.

Comboios de suprimentos puxados por tração animal, no norte da Suécia, sob a escolta de um blindado BT-7.
Como previsto pela Inteligência, a Alemanha desencadeou sua ofensiva nas primeiras horas do dia 1º de maio de 1940. Bélgica, Holanda, Luxemburgo e regiões da França seriam assoladas pela ação da Força Aérea Alemã. A Campanha do Oeste se iniciava. Rapidamente a Escandinávia deixaria as manchetes dos periódicos ocidentais e os Países Baixos se tornavam o cerne da guerra.
Enquanto os blindados alemães manobravam as forças aliadas para fora dos Países Baixos, durante a primeira quinzena de maio, seus assaltos ainda investiam contra a costa norueguesa. O General Timoshenko tinha pressa e o Estado-Maior do Exército Vermelho também. Com o desembarque do XI Exército e do I Exército de Cavalaria, unidade esta que contava com milhares de conscritos cossacos, na região da Scania, os suecos foram rapidamente submetidos a duas frentes. As tropas avançaram rapidamente pelas vias pavimentadas e sob o auxílio de milhares de caminhões capturados dos suecos.
No Báltico, a Marinha Vermelha cercava as forças costeiras da Marinha Real da Suécia e destruíram várias unidades. Uma ação na baía de Norrkoping afundou mais de doze submarinos suecos que dificultavam o acesso das tropas soviéticos ao longo das ilhas de Aland.

Sob o comando do Almirante Nikolai Kuznetsov, a Frota Vermelha do Báltico deu suporte à ofensiva soviética, durante todo o mês de maio.
Com o desmonte de seu sistema defensivo, restava aos suecos destruírem as vias nas regiões lacustres entre no centro-sul do país. O avanço progrediria de modo mais lento, porém inevitável. No fim de maio, as forças mecanizadas de choque do Major General Ivan Konev haviam sido transportadas de Aland e alcançaram as proximidades de Estocolmo. Era apenas uma questão de tempo.
Ao contrário do que esperava Timoshenko, os suecos lutaram até a exaustão de suas tropas, porém não conseguiram infligir baixas significativas às suas forças. Na madrugada de 18 de junho, as vanguardas motorizadas de Konev entraram em Estocolmo, e o inimigo se rendeu. Na manhã daquele dia, o rei Gustav V foi conduzido coercitivamente, sendo levado ao comandante soviético e forçado a solicitar a rendição geral. O governo foi entregue interinamente ao líder comunista sueco Sven Linderot, secretário-geral do Partido Comunista Sueco e integrante do Parlamento.
Poucos dias depois, em 27 de junho, Linderot instaurava a União Socialista Sueca, um estado tutelado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

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Soldados soviéticos comemoram a vitória, na localidade de Solna, próxima a Estocolmo.

A Guerra da Suécia já não representava nada para os aliados. Os blindados alemães já estavam a poucos quilômetros de entrar na França. Stalin via as ações nazistas como uma justa punição aos Aliados por sua conivência na ascensão de Hitler ao poder, e Molotov já tratava um segundo acordo com os alemães em troca da anuência sobre a Suécia. O Exército Vermelho sagrava-se como uma das mais competentes forças militares europeias. A União Soviética saía fortalecida mais uma vez. O comunismo avança de vitória em vitória!
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1940: PARTE 2
No verão de 1940, o avanço dos exércitos alemães revelava as fraquezas das forças aliadas. Tropas belgas eram cercadas e se rendiam. Na França, seus tanques contornavam a Linha Maginot - famoso conjunto de fortificações defensivas - e chegavam às portas de Paris. O colapso aliado muito se deveu à crença inabalável em defesas estáticas. A União Soviética já havia tirado as lições acerca da inutilidade de linhas defensivas durante a Guerra de Inverno, mas os aliados parecem não ter se certificado disso.
Agora viam na prática e do pior modo. No começo de junho, as estimativas do Estado-Maior do Exército Vermelho indicavam que a estratégia germânica provocaria um desastre sobre seus opositores, que se renderiam até o fim de agosto. Porém, em 25 de julho, Paris foi declarada cidade aberta e os nazistas a ocuparam. Simultaneamente, a Itália declarou guerra à França. Dois dias depois, o ditador Benito Mussolini confirmava o lugar de seu país ao lado da Alemanha de Hitler, formando o Eixo Roma-Berlim.
Em 2 de agosto de 1940, o gabinete francês resignou e o Marechal Philippe Pétain assinou o armistício. Movido pela vingança do armistício oposto de 1918, Hitler taxou as condições através de seu subordinado, Wilhelm Keitel, comandante-em-chefe do supremo comando das Forças Alemãs. A França fora humilhada e abandonava o esforço de guerra. A Inglaterra ficaria isolada com suas colônias diante dos nazistas.

O armistício de 1940 impunha a ocupação de grande parte da França pelas forças alemãs e removia a soberania desta sobre suas colônias.
No dia seguinte, a Noruega também capitularia. Os efeitos do rearranjo territorial na Europa foram calculados e “contidos dentro do possível”, de acordo com o Camarada Stalin. Ele sabia que a instalação do regime socialista na Suécia havia tirado do controle alemão suas reservas “diretas” de minérios. Por consequência, as relações bilaterais entre o Reich alemão e a União Soviética haviam esfriado, mesmo que em nível de contratos comerciais nada houvesse se modificado.
Entre os mais ortodoxos do Partido e no restante dos setores mais radicais da Internacional Comunista, o pacto entre Ribbentrop e Molotov foi condenado desde sua assinatura em agosto de 1939. As visões mais obtusas não enxergavam a realidade dos fatos: a concordata era um engodo. Se por um lado, a União Soviética buscava orientar sua própria esfera de influência em sintonia harmônica com a expansão nazista, por outro visava ganhar tempo e terreno antes do desfecho inevitável: o confronto com a Alemanha.
O tema de confrontação entre alemães e soviéticos era pouco discutido até idos de junho de 1940. No geral, predominava a ideia de que a Alemanha não se arriscaria em um combate frontal contra o Exército Vermelha com a França ainda ativa na guerra. Enquanto Marechal e comandante-em-chefe do Exército, o velho Voroshilov limitava a expansão das medidas de contenção nas fronteiras e das formações de tanques como espinhas dorsais das forças terrestres. Por medo do marechal, Shaposhnikov tinha uma participação não muito engajada nas transformações e acabava somando forças ao primeiro. Representavam o grupo conservador nos circuitos militares soviéticos.
Ao mesmo tempo, um grupo heterodoxo surgiu em torno de oficiais generais como o General Semion Timoshenko - chefe do distrito militar do Norte, que compreendia a Carélia, a Finlândia e a Suécia - e o General Georgy Zhukov - agora chefe do distrito militar da Ucrânia e comandante do II Exército Mecanizado. Ambos eram os comandantes mais experimentados em combate em todo o País e advogavam o emprego de formações modernas, podendo demonstrar o valor destas através das operações militares precedentes.
Stalin seria o fiel da balança e agiu de modo surpreendente. Em agosto de 1940, demitiu Voroshilov de seu posto e encarregou Timoshenko de ser o novo chefe do Estado-Maior do Exército e Comissário do Povo para a Defesa. Era o primeiro passo para a transformação do poderio soviético. Como novo comandante, Timoshenko se aproximou dos generais e outros chefes de distritos militares para melhor organizar seu comando. Determinou um conjunto de medidas de modernização das forças terrestres. A primeira delas era propriamente a expansão dos contingentes.
Os mais novos designs bélicos foram empregados, como carros blindados modelo Ba-11, tanques modelo BT-7 e T28 e artilharia obuseira. Os relatórios do Estado-Maior também apontavam a necessidade de batalhões de engenharia e a reorganização das forças de cavalaria. Uma a uma, as medidas foram implementadas como parte do esforço bélico além da planejada expansão da fábricas de armamentos cazaques, tajiques, usbeques e siberianas.
Paralelamente ao esforço militar, a propaganda soviética utilizou extensivamente os resultados industriais de 1940 como um todo. Sob o comando do Comissário da Indústria Lazar Kaganovich e do chefe do Comitê de Economia Planificada Nikolai Voznesensky, a União Soviética se tornara a terceira maior economia industrializada em todo mundo, superando a Inglaterra. Se não fossem consideradas as novas aquisições do Reich alemão, seria a segunda, somente atrás dos Estados Unidos.

Esforço militar soviético, na segunda metade de 1940. Grande parte das fábricas militares se concentravam além dos Urais.

Linha de montagem de tanques em Omsk, no interior da República Soviética da Rússia.
No fim de agosto de 1940, Stalin autorizou Molotov a pressionar a Romênia em relação aos territórios da Bessarábia e Bucovina do Norte. Estes territórios eram a última parte do acordo de 1939 sobre as pretensões territoriais soviéticas. Em virtude da situação da União Socialista Suécia, Stalin abandonou sua intenção de uma intervenção na Romênia, em prol de uma ocupação de menor monta. Havia relatórios evidentes da concentração de expedientes alemães na Polônia e, com a entrada da Hungria no Eixo, nos Cárpatos.
As negociações demandariam até as últimas semanas de setembro, quando o quadro no sudeste da Europa mudou. Os fascistas italianos invadiram a Grécia e iniciaram de modo malogrado. A situação provocou uma tentativa de golpe na vizinha Iugoslávia, negando o acesso das tropas nazistas por terra. Ficou evidente que Hitler se moveria contra aqueles países, para apoiar seus aliados. Foram justamente estas situações que provavelmente fizeram com que Hitler desse sua anuência sobre a intervenção soviética.
Na madrugada de 26 de setembro de 1940, o II Exército do General Zhukov atravessou as fronteiras romenas a partir da Ucrânia. Os soldados do Exército Vermelho acompanharam de perto a desmobilização dos soldados romenos que avançavam em longas filas em direção ao centro de seu país. A União Soviética havia galgado sua extensão máxima desde o fim da Guerra Civil. Zhukov exaltou os feitos dos revolucionários moldavos e do Exército Vermelho durante a Guerra Civil. O general era o exemplo de oficial de carreira que tinha grande habilidade política.

As unidades motorizadas do General Zhukov avançaram a partir de Odessa, na Ucrânia, e efetivaram a ocupação em poucas horas.
Por seu serviço exemplar, Zhukov foi mais uma vez condecorado, e, sob as ordens de Stalin, foi convidado a comparecer em Moscou, em 1º de outubro. Lá receberia o comando do Estado-Maior das Forças Armadas, assumindo o lugar de Shaposhnikov, que, a seu turno, se tornaria chefe do distrito militar de Leningrado. Stalin deu apoio total a seus novos chefes militares. Sabia que com eles, obteria a postura militar ofensiva necessária para fazer frente à Alemanha. No desfile de comemoração à Revolução de Outubro, o Camarada Stalin esteve ao lado de Timoshenko e Zhukov. A União Soviética estava no rumo certo e sob a firme liderança.
Seria em novembro que as relações germano-soviéticas sofreriam um novo abalo. Na manhã de 6 de novembro, os nazistas assinavam uma negociata que seria conhecida como Pacto Tripartite: um acordo de mútua proteção entre o Império do Japão, a Itália Fascista e Alemanha Nazista. Hitler vociferava contra os Aliados e contra os Estados Unidos. Através dos agentes soviéticos em toda a Europa, sabia-se que a repressão contra o comunismo havia assumido nova escala. No mesmo dia, as eleições americanas apontavam a vitória de Roosevelt, que se reelegia mais uma vez como presidente dos Estados Unidos, homem que demonstrava posicionamento claro contra o totalitarismo na Europa e na Ásia.

Diante do quadro geopolítico internacional, Stalin comunicou a seus dois braços fortes - Zhukov e Timoshenko -, dando-lhes uma única taxativa: “Preparem nossos homens, pois a guerra contra os alemães se aproxima. Façam tudo o que estiver ao nosso alcance! Esta será uma luta pela sobrevivência do socialismo soviético…
1941: PARTE 1
Antes que seu avião, um Lisunov Li-2, chegasse ao aeroporto Berlim, o Comissário Molotov sabia da comitiva de calhordas que encontraria. Duas semanas antes, Ribbentrop havia ligado pessoalmente para Moscou com a finalidade de um novo arranjo diplomático. Depois do Pacto Tripartite, nenhuma ação que a União Soviética executara em 1940 pareceu tão intimidatória quanto uma coalização entre a Alemanha, o Japão e a Itália. Para “remediar” a situação, os alemães executavam aquele movimento conciliatório.
Na noite de 26 de janeiro, o Li-2 pousou no Aeroporto Berlim Tempelhof. Molotov pode ver um dos figurões que lhe aguardavam: Himmler, o chefe da SS nazista em pessoa. Ativos do NKVD em Berlim estavam vigiando alguns homens importantes do Reich, mas nenhum havia conseguido informação de importância acerca de Himmler. Ele era um “intocável” e sua guarda era extremamente cuidadosa em protegê-lo. De Tempelhof, a comitiva partiu para a Chancelaria do Reich, onde Molotov se encontraria pela primeira vez com Hitler.

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Na fotografia, Molotov (de sobretudo preto, no centro) cumprimenta Heinrich Himmler, um dos nazistas mais importantes dentro da Alemanha.

Após os encontros da primeira noite, o Comissário enviou uma mensagem para que a embaixada soviética transmitisse à Moscou. O Camarada Stalin foi informado da intenção de Hitler sobre um bloco transcontinental entre os poderes do Eixo e a União Soviética, quanto à manutenção de esferas de influências e rivalidade com os Estados Unidos.
O diálogo seria mantido por mais alguns dias, até o regresso do Comissário Molotov. Stalin consentiu com os objetivos gerais de uma estabilização das fronteiras eurasianas e uma política conciliatória com o Eixo. No mais, os soviéticos aumentavam a proporção da exportação de petróleo cru e combustíveis, em troca de armamentos e da venda de um cruzador pesado para a Frota Soviética - o agora Petropavlovsk. Todavia, tanto Stalin quanto Molotov sabia que a natureza do acordo era mera aparência, pois o Estado-Maior das Forças Armadas soviéticas já advogava um ataque preventivo sobre o Leste Europeu.

O acordo acabou por não simbolizar um real compromisso de nenhuma das partes em uma estabilização, de fato, e só dava tempo para o desfecho inevitável da guerra.
Nos meses que se seguiram, o esforço militar soviético seguia em um ritmo frenético. Em março, dois novos cruzadores pesados - o Blukher e o Zhelezniakov - entraram em operação na Frota Vermelha do Mar Negro. Contratorpedeiros e submarinos foram entregues às formações navais no Báltico, no Norte e no Pacífico. Em abril, as fábricas nos Urais entregaram uma encomenda de mais de trezentos aviões à Força Aérea Soviética, entre caças, interceptores e bombardeiros.
As fábricas desde a Ucrânia até os confins da Sibéria produziam um quantidades crescentes de munição, fuzis e artilharia além de toda sorte de equipamentos. Homens e mulheres, operários soviéticos engrossavam as fileiras do necessário labor para a defesa da Mãe-Pátria. Ainda não havia uma mobilização oficial, mas o Supremo Soviete e o Comitê Central já haviam deliberado as políticas para a expansão máxima das forças militares, excedendo aos orçamentos previstos para tempos de paz. Para isso, o ritmo de crescimento industrial de larga escala sofreu uma desaceleração entre 1940 e os primeiros meses de 1941.

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Operárias trabalhando na linha de montagem de projéteis de artilharia, em uma fábrica de munições no interior da República Soviética Russa.

Em maio, um agente do GRU - o serviço de inteligência militar - chamado Richard Sorge, de codinome Ramsay e ativo em Tóquio, no Japão, obteve informação detalhada sobre a intenção alemã de atacar a União Soviética. Não havia previsão da data, mas sabia-se que os alemães já sinalizavam aos japoneses sobre a possibilidade de um ataque conjunto, que foi descartado pelos planos de ações nipônicos que vigoravam então. Ramsay era um dos mais hábeis agentes do GRU, pois seu disfarce incluía presença entre os circuitos alemães e também os japoneses.
As informações de Sorge convenceram Stalin que a hora estava chegando. Em 7 de junho de 1941, determinou a mobilização parcial da União Soviética. Mais de um milhão e meio de homens foram convocados ao serviço militar ativo, com esmagadoras adições ao Exército Vermelho. Dias depois, o Supremo Comando das Forças Armadas da União Soviética - a Stavka - era instituída sob a liderança dos Generais Georgy Zhukov e Semion Timoshenko, do Comissário da Frota Vermelha Nikolai Kuznetsov e do Comandante da Força Aérea Alexander Golovanov. Voroshilov ainda recebera um posto consultivo juntamente com outros marechais da velha guarda do Exército Vermelho, visto suas posições no Partido.

A mobilização parcial da URSS comprometia apenas uma parte da capacidade total da força industrial soviética.

Parte do gabinete do Conselho de Ministros e da Stavka, sob a liderança do Primeiro-Secretário Geral do Partido Comunista Josef Stalin.

Zhukov e Timoshenko já havia elaborado um plano de ação geral, que envolvia fases múltiplas. Entre as forças do Eixo, as mais capazes obviamente eram as divisões alemães, pois estavam preparadas para o ataque. Húngaros, búlgaros e romenos possuíam unidades de segunda linha. O GRU colheu informações sobre a disposição das tropas justamente através de fontes na Romênia e na Hungria. Zhukov pretendia se antecipar aos seus adversários nazistas, com um assalto através dos Cárpatos, pois o relevo era o menos esperado pelas forças inimigas a receber um ataque direto.
Com a invasão em curso, as tropas na Bielorrússia lançariam operações sobre a Polônia, garantindo posições até o Vístula, ocupando Varsóvia, e organizando uma defesa em profundidade para o esperado contra-ataque blindado alemão, que certamente engajaria as reservas na França e em toda a Alemanha. A esta altura, as forças soviéticas sobre a Hungria a Eslováquia girariam para o sul da Polônia, buscando uma ruptura, e, com o envio de novas reservas do Exército Vermelho, a marcha até Budapeste seria inevitável e a porção austríaca do Reich seria ameaçada.
Na Escandinávia, as forças vermelhas com unidades fino-suecas avançariam sobre a Noruega, sendo, logo depois, mobilizadas em direção ao centro da Europa. Concomitantemente, esperava-se que a Romênia e a Hungria abandonassem o Eixo, seguidos da Bulgária. Forças partisanas na Iugoslávia se sublevariam, desestabilizando todos os esforços alemães. Para a execução desse plano, Zhukov recrutara competentes comandantes do Exército Vermelho. Muitos foram promovidos a generais plenos, recebendo o comando de formações e quartéis-generais.

O plano de ataque soviético, em junho de 1941.
Na manhã do dia 21 de junho, um sábado, uma reunião executiva da Stavka marcou a data do ataque: 30 de junho de 1941. As instruções finais começariam a ser distribuídas entre os oficiais generais a partir de segunda-feira. Stalin estava confiante. Zhukov e Timoshenko foram laureados por ele. Kuznetsov e Golovanov também teriam papéis indiscutíveis, onde o primeiro estabeleceria a supremacia naval no sul do Báltico e o segundo o apoio aéreo às forças terrestres.
Os alemães ainda estavam estabilizando as suas posições na Iugoslávia e na Grécia, por culpa da falta de capacidade dos italianos. Esperava-se que eles ainda levassem mais duas ou três de semanas antes de Hitler dar a ordem. Contudo, não havia nenhuma certeza de que Hitler ficaria conformado pela espera. Era um jogo de xadrez em uma sala escura.

Porém, a trama da fortuna revelaria suas novas linhas. Na madrugada de domingo, dia 22 de junho de 1941, as forças alemãs irromperam ataques ao longo das posições soviéticas na Lituânia, na Bielorrússia e na Ucrânia. A guerra havia começado!

Os porcos nazistas invadem a Mãe-Pátria sem qualquer declaração de guerra…

Os relatos de assédio do inimigo cresciam hora a hora. Zhukov foi surpreendido pela situação e realizou despachos extraordinários para organizar as medidas defensivas emergenciais. Até as 10 horas da manhã, foram instituídos o Front Báltico, o Front Bielorrusso e o Front Ucraniano. A Força Aérea Alemã castigava as linhas soviéticas, isolando regimentos e batalhões na linha de frente. Timoshenko emitiu diretivas para que as reservas dos três fronts fossem mobilizadas. A ordem e a disciplina deviam ser mantidas na linha de combate a qualquer custo!

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Soldados do Exército Vermelho resistindo em suas posições, nas proximidades de Siauliai, na Lituânia.

O curso dos acontecimentos foi desolador para Stalin. O homem forte da União Soviética se resignaria em seus aposentos pessoais durante aquele dia. Notícias desencontradas eram transmitidas pelo rádio. Em seu lugar, Molotov fez um breve pronunciamento, ao meio dia, para todo o país:

- Sem uma declaração de guerra, forças alemãs caíram sobre nosso país, atacando nossas fronteiras em muitos lugares… O Exército Vermelho e toda a Nação farão uma vitoriosa Guerra Patriótica por nosso amado país, pela honra, pela liberdade… Nossa causa é justa. O inimigo será batido! A vitória será nossa!

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1941: PARTE 2
Nas primeiras 48 horas, as pontas-de-lança motorizadas alemãs avançaram quase cem quilômetros no território soviético da Lituânia. Surpreendido pela investida do inimigo e pela falta para um plano defensivo geral, o Coronel General Yakov Cherevichenko, comandante do VII Exército, sustentou suas posições na localidade de Alytus durante o tempo que foi possível. Contava com nove divisões de infantaria ainda mal armadas, pois os depósitos de munição estavam muito além da linha de frente em virtude do status ofensivo ainda em vigor.

Telefonando para o General Timoshenko, que havia chegado de Moscou e assumido o Front Báltico pessoalmente, Cherevichenko solicitou autorização para um recuo coordenado com o XXI Exército do General Vladimir Kachalov, que resistia em Siauliai. Em virtude das pesadas baixas sofridas, Timoshenko deu ordens para que o VII Exército evacuasse para a margem oposta do rio, na madrugada de 24 de junho. No dia seguinte, o XXI Exército também abandonaria suas posições indefensáveis sob o fogo intenso.
Em seu voo para Riga, capital da Letônia, Timoshenko observou que o avanço inimigo na região de Siauliai culminaria em um excelente saliente em relevo favorável a contra-ataques. Para tal, ordenou ao XII Exército de Tanques de Ivan Konev para se mover à Península da Curlândia e contra-atacar tão logo fosse possível.

Os invasores fascistas marcham sobre o eixo sul-noroeste da Lituânia, obrigando o recuo de dois exércitos soviéticos…

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Tanques soviéticos do 39º Regimento Mecanizado do XII Exército de Tanques do General Ivan Konev avançando ao sul da Letônia.
Na Bielorrússia e no norte da Ucrânia, o grosso da blindagem inimiga avançava livremente sobre os eixos rodo-ferroviários. Wolkowysk fora assediada. A fortaleza de Brest-Litovsk era isolada ao norte e ao sul, e, ao quarto dia da invasão, Lutsk capitulava. Uma ruptura se abriu na linha frente, separando o Front Bielorrusso do Front Ucraniano. A situação era grave. O General Georgy Zhukov ordenou ao comandante do II Exército Mecanizado, o general veterano Dmitry Pavlov, que realizasse um contra-ataque para retomar Lutsk.
Alegando séria complicação logística para realizar a tarefa, Pavlov só pode apoiar o recuo do XVI Exército. O chefe da Stavka se enfureceu com a incompetência de Pavlov, pois manter as formações blindadas flanqueando sobre a área pantanosa de Pripyat era um desperdício tático. Frente à situação, Zhukov não se conteve em sua função estratégica em Moscou e foi à linha de frente, removendo Pavlov de seu comando. Por seu erro, Pavlov pagaria com a vida, e seria executado por covardia e incompetência.
A 27 de junho, Zhukov lançou mão de todas as reservas possíveis no interior da Ucrânia, para tentar guarnecer a frente. Instituiu uma divisão entre o Primeiro e o Segundo Front Ucraniano, legando os comandos ao Coronel General Vassili Chuikov e ao General Kirill Meretskov, respectivamente. Tentando evitar que o mesmo ocorresse no sul da Ucrânia, Meretskov recebeu a missão de atacar a região de Iasi, no norte da Romênia, surpreendendo as forças germano-romenas. Ao mesmo tempo, o XXV Exército do General Nikolai Bulganin realizou a primeira contenção ante a iniciativa alemã nos últimos dias, retardando o avanço inimigo.

A fraqueza militar romena foi explorada em uma ação de larga escala, comandada pelo velho e pouco criativo General Grigory Kulik, um veterano da velha guarda do Partido.

O ataque de Kulik ainda seguia as estratégias de avanço mais antiquadas, com cargas de infantaria e pouco apoio dos tanques.
A retirada soviética era acompanhada de um política de terra arrasada. Nada seria deixado para o inimigo. Pontes, estradas, fazendas, estoques… Tudo foi destruído ou incendiado para retardar a invasão. O êxodo urbano foi permitido pelo Exército Vermelho, e a prioridade era proteger a população ainda livre de cair nas mãos alemãs. Raras exceções ocorriam na Lituânia, onde elementos da população, ainda ressentidos com a intervenção soviética dois anos antes, optaram por abraçar os porcos facínoras. Logo se dariam conta do grande erro de sua escolha.
No sexto dia da invasão, o Camarada Stalin recobrou seu espírito de luta. Entrou em contato com Zhukov e Timoshenko, tomando ciência das circunstâncias em curso. A gravidade dos fatos era alarmante. Os voos de reconhecimento indicavam que as colunas de blindados alemães avançavam através do norte da Ucrânia buscando a retaguarda das forças soviéticas. O risco de isolamento e cerco do XXVII Exército de Guardas sob o comando do Tenente-General Ilya Ivanov que defendia Brest-Litovsk era latente.
Para levantar o moral do Exército Vermelho, Stalin requisitou um plano de ataque aos integrantes da Stavka. A única solução de curto prazo era a invasão da Noruega, atacando as bases nazistas a partir da Suécia e da Finlândia. Poucas horas depois, o General Markian Popov - comandante do Front Norte - foi informado de suas ordens: invadir a Noruega e estabelecer a supremacia soviética na Península Escandinava.
Contando com um grupo-de-exército misto entre forças soviéticas e fino-suecas, Popov tinha a tarefa não só de infligir a primeira derrota considerável aos alemães, mas de prover ao povo soviético uma centelha de esperança. Atravessando os Alpes Escandinavos, as forças vermelhas no Norte pegaram os alemães desprevenidos, em 28 de junho. Contanto com o apoio da Frota Norte da Bandeira Vermelha, ao comando do Vice-Almirante Yuri Panteléyev, o ataque sobre Trondheim foi irresistível. O XXIII Exército do Coronel-General Leonid Govorov obteve um considerável ganho tático.

Soldados do 41º Regimento de Montanha do XXIII Exército combatendo nas proximidades de Meraker, ao leste de Trondheim.

O Front Norte possuía algumas das mais capazes unidades soviéticas e escandinavas, em virtude das intervenções soviéticas entre 1939 e 1940.
Um dia depois, Narvik capitularia diante do VI Exército do General Vladimir Chomenko, obrigando à retirada alemã no norte norueguês. O XI Exército avançava mais ao sul em direção a Oslo vencendo as guarnições costeiras inimigas. As vitórias foram publicadas e exaltadas no jornal Estrela Vermelha, a principal publicação do Exército Vermelho, na edição de 29 de junho que era a primeira desde a invasão. Também estava estampada a vitória soviética sobre Iasi, na Romênia, onde o V Exército realizou uma incursão e obrigou a retirada de cinco divisões romenas e duas alemãs.
Enquanto a retirada se ampliava na Bielorrússia, Timoshenko contou com a chegada de reforços. Em 30 de junho, ordenou um contra-ataque em larga escala sobre as linhas alemãs na Lituânia, ao longo das regiões de Siauliai e Alytus. A estratégia era evitar que os alemães estabelecem suas posições ao longo do Rio Neman, fazendo retroceder suas pontas-de-lança motorizadas.
A esta altura, já era provável que o Supremo Comando Alemão começasse a se dar conta do seu erro. No início da invasão, Hitler havia declarado sobre a fraqueza do Exército Vermelho e da causa comunista, insultando todo o povo soviético. Uma semana depois, o Grupo Norte e o Grupo Sul das forças alemãs enfrentavam forte resistência das tropas soviéticas. Mensagens interceptadas indicavam que os alemães estavam trazendo reservas da França e da Áustria para reforçar suas próprias unidades de ataque.
Stalin insistiu por uma linha mais agressiva de ação, mas Zhukov e Timoshenko demonstraram que já não havia muitas reservas russas disponíveis para mais do que contra-ataques localizados. Além disso, a situação na Bielorrússia e no norte da Ucrânia era crítica e lutava-se para reforçar a linha de frente. A cautela era a melhor das opções, um pouco a contragosto de Stalin.
Na Ucrânia, Zhukov interrompeu o avanço inimigo com pesadas baixas para as unidades de tanques do II Exército Mecanizado. Mais de quatrocentos e oitenta tanques foram postos fora de operação em um combate violento contra as pinças alemãs. Os T-34 ainda eram minoria e, àquela altura, os BT-7 e o T-28 ainda eram a espinha dorsal das divisões blindadas, sendo consideravelmente inefetivos contra os Panzer III e IV em combates frontais.
Ao cabo de 4 de julho, a opinião de Zhukov e Timoshenko foi reforçada com a ação de Konev e Voroshilov, na Lituânia. Siauliai fora retomada e as tropas reocupavam posições no Neman. Dois exércitos inimigos retrocederam para suas posições originárias, porém, a vitória custou caro. Houve mais de quinze mil baixas por mortos, desaparecidos ou impossibilitados em ação e outras vinte mil por ferimentos. Timoshenko sabia que muito em breve os alemães fariam um novo ataque, e a única solução seria recuar.

A despeito de tudo, Stalin estava confiante que os invasores nazistas seriam combatidos vitoriosamente. Sabia que o inimigo ainda não havia lançado o grosso de suas forças, mas as vitórias soviéticas em repelir os ataques lhe trouxeram mais uma vez a confiança na capacidade de seus generais. Na manhã de 5 de julho de 1941, Stalin falou ao povo através de um discurso em Moscou, que seria transmitido pelo rádio a todo o povo soviético:

O Camarada Stalin durante seu discurso ao povo soviético, em julho de 1941.
"Camaradas! Cidadãos! Irmãos e irmãs! Soldados de nosso Exército e nossa Marinha!
Eu me dirijo a vocês, meus amigos!
O traiçoeiro ataque militar sobre nossa Pátria, lançado pela Alemanha de Hitler em 22 de junho continua. A despeito da heroica resistência do Exército Vermelho e diante das melhores divisões inimigas e o melhor de sua força aérea, o inimigo continua a avançar e lançar novas tropas. As forças de Hitler conquistaram parte da Lituânia, o noroeste da Ucrânia e parte do oeste da Bielorrússia. Nossas forças conseguiram importantes vitórias contra o inimigo, e isso o enfureceu! Sua propaganda mentirosa alardeia que as tropas nazistas são invencíveis! São mesmo os fascistas invencíveis?
Com certeza não são! A História nos mostra que não existem exércitos invencíveis. O exército de Napoleão foi visto como invencível, mas foi vencido por uma coalização de forças. O exército alemão na Grande Guerra Imperialista se julgava invencível, mas foi derrotado também. O mesmo pode ser dito do exército fascista de Hitler! Até agora eles não haviam encontrado oposição, mas nos últimos dias têm conhecido a bravura dos soldados soviéticos!
Muitos dias de luta ainda virão! Nós devemos organizar um vasto suporte ao nosso Exército Vermelho! Devemos ver nossas fábricas intensificando suas atividades, produzindo mais rifles, mais metralhadoras, mais peças de artilharia, mais aviões, mais tanques e balas! É preciso organizar a proteção de nossas indústrias vitais e linhas de comunicação. Devemos lutar contra os boatos, o pânico, os desertores e os sabotadores e quaisquer dos inimigos que lutem contra nosso povo!

Esta não pode ser considerada uma guerra normal… Esta é uma guerra de todo o povo soviético contra os exércitos fascistas alemães!
Camaradas! Nossas forças são inumeráveis! O arrogante inimigo logo sentirá isso! Todos estão aderindo à luta pela Mãe Pátria! Todos devemos nos mobilizar para suportar a defesa contra o traiçoeiro inimigo que invadiu nossa terra. Esta é uma luta pela liberdade! É feita pela união de todos os soviéticos… Todos os camponeses, operários, acadêmicos, artistas e soldados!"
Todas as nossas forças em suporte de nosso heroico Exército e nossas gloriosas forças vermelhas!
Todas as forças do povo - pela destruição do inimigo!
Avante, para a vitória!
1941: PARTE 3
Como previsto pela inteligência militar, as forças do Eixo empregaram novas tropas ao campo de batalha. O grupo sul das forças invasoras invadiu o sudoeste da Bessarábia, atravessando o Rio Danúbio e ocupando a cidade de Izmail. Ao mesmo tempo, os blindados alemães avançaram ferozmente pelo oeste da Ucrânia, impondo pesadas baixas às unidades soviéticas. Na retirada, muitos batalhões e pelotões foram isolados pelo inimigo e lutas desesperadas foram realizadas para romper os cercos. A República Socialista Soviética da Moldávia fora quase totalmente ocupada.
Na Lituânia, o Marechal Kliment Voroshilov retomou a cidade de Alytus e, com a ação do General Ivan Konev em Siauliai, a frente pode ser guarnecida por quase uma semana. O grupo norte alemão investiu novamente contra a região, mas foi obrigado a interromper seu ataque ante a defesa obstinada das tropas de montanha do IX Exército de Voroshilov, que destruíram 490 veículos alemães, até 11 de julho. Com quase dezesseis mil mortos e milhares de baixas, o velho Voroshilov havia provado que ainda tinha alguma capacidade para defender posições, mas não teve escolha senão recuar estrategicamente para Vilnius.

Com o massivo ataque inimigo, Timoshenko ordenou nova retirada na Lituânia em 13 de julho, de modo a poupar suas forças.

Soldados da 28ª Divisão de Montanha durante a retirada. Com um moral ainda elevado, a tropa de montanha marchava com vigor.
Na Noruega, o progresso das forças soviéticas expulsava os alemães de Oslo. Na noite de 15 de julho de 1941, as vanguardas do XI Exército entraram em Oslo, tomando o controle das baterias de artilharia de costa e do aeródromo. Com o bloqueio dos comboios de suprimentos executados pela Marinha Soviética, os agentes do GRU obtiveram informações sobre a falta de combustível na Noruega, e, com isso, dezenas de caças alemães estavam fora de operação nas pistas norueguesas.
Duas companhias de um regimento da 39ª Divisão da Carélia entraram no aeródromo e entraram em luta contra os aviadores alemães que resistiram. Após a luta, os poucos homens da Força Aérea Alemã se renderam. Grande parte dos aviões foi incendiada por ordem dos comissários políticos e do General Popov, uma vez que se temia um assalto aerotransportado de paraquedistas para retomar Oslo ou recuperar os aviões. Alguns aparelhos restante seriam enviados para Moscou para perícia técnica.

A destruição de dois esquadrões ainda em solo significou um duro golpe contra a Luftwaffe alemã.

Aviões alemães destruídos pelos soldados do Exército Vermelho. A fotografia seria estampadas em edição futura do jornal militar Estrela Vermelha.
Enquanto se lograva a vitória na Noruega, a situação era caótica em outras frentes. Em Brest-Litovsk, o XXVII Exército de Guardas do agora General Ilya Ivanov lutava desesperadamente para manter as fortificações. O próprio General Georgy Zhukov veio em socorro dos defensores com seu II Exército Mecanizado, a 16 de julho. Zhukov sabia que Brest não poderia ser mantida por muito tempo, e sua missão era evitar a destruição das forças completa das unidades de Ivanov, que defendia com bravura sua posição.
Ao mesmo tempo, o Primeiro e o Segundo Front Ucraniano recuavam abruptamente para a linha defensiva formada às pressas no Rio Dniestre. Debandadas ocorriam das cidades de Kamenets, Podolsky, Balti, Chisinau e Proskurov. Vilarejos eram incendiados na retirada, enquanto as linhas de blindados alemães avançavam através das planícies em alta velocidade. O Coronel-General Vassili Chuikov e o General Kirill Meretskov lutavam para evitar a desagregação completa da Ucrânia. Na capital ucraniana, Kiev, milhares de civis cavavam trincheiras e erguiam fortificações.

O cenário era atemorizante para a Stavka. Ainda não haviam reforços para conter o avanço dos invasores fascistas.
Em 17 de julho, Zhukov autorizou o abandono das posições em Brest. Ivanov iniciou sua retirada para Pinsk, com a certeza que havia atrasado em quase um mês o avanço alemão na Bielorrússia. Infelizmente, a ação obstinada custaria a vida de quase vinte e um mil soldados soviéticos, mais de trinta mil feridos e grande parte dos veículos blindados do II Exército Mecanizado destruída.
Tendo em vista a marcha inimiga, Stalin, Vyacheslav Molotov e Nikolai Voznesensky instituíram o Comitê de Defesa do Estado para gerenciar um novo grau de mobilização da capacidade industrial soviética, a 23 de julho. Sob novas diretivas, milhares de fábricas seriam movidas da Ucrânia e do Báltico para a Sibéria. A ideia era evitar que os nazistas pudessem ameaçar os complexos fabris com sua aviação militar e que a produção bélica pudesse ser assegurada. O processo de realocação das matrizes industriais se deu com urgência e duraria semanas.

O maquinário industrial foi removido através de longos comboios ferroviários para centenas de quilômetros ao leste dos Montes Urais.
Ao fim de julho, o comando de Zhukov lograva os efeitos da defesa em profundidade. Apesar de contínuo, o avanço alemão sofria o forte efeito da atrição, da política de terra arrasada e dos contra-ataques obstinados. As colunas blindadas dependiam do avanço em solo aberto ou sobre estradas fortemente minadas pelos sapadores do Exército Vermelho. Ao conseguir vencer tais dificuldades encontravam a resistência das linhas vermelhas.
O grupo do centro e do sul das forças invasoras avançara centenas de quilômetros em território soviético, empurrando as unidades militares cada vez mais. Stalin se tornou cada vez mais impaciente sobre a situação na frente de combate. Mesmo que nenhum objetivo estratégico houvesse caído ao controle do inimigo, a ideia de ceder território para ganhar tempo era cruciante. Zhukov foi convocado a Moscou mais de três vezes para levar os relatórios pessoalmente a Stalin, e as palavras pouco lhe agradavam.

O chefe do Supremo Comando das Forças Soviéticas, Georgy Zhukov, autorizou retiradas táticas em todas os fronts, na esperança de conservar a capacidade de combate do Exército Vermelho.
Mesmo que os alemães estivessem a poucas dezenas de quilômetros de Kiev, sabia-se que precisariam romper as fortificações de Odessa e ganhar o controle do sul da Ucrânia. Havia um saliente considerável se formando na bacia entre os rios Dniestre e Dniepre, exposto aos contra-ataques de carga de cavalaria cossaca e tanques soviéticos.
O comandante do Primeiro Front Ucraniano, o General Meretskov já obtivera informações suficientes para crer que a investida do inimigo seria mais forte sobre Odessa. Era imprescindível sua defesa a qualquer custo. Lançando mão do XVIII Exército de Guardas, do XIII Exército de Infantaria e o VII Corpo de Cavalaria Cossaca, Meretskov planejava a defesa de Odessa desde o começo de julho. Unidades de franco atiradores foram movidas para aquela que seria um dos últimos bastiões de defesa dos esforços soviéticos ao sul da Ucrânia.
Na madrugada do dia 1º de agosto, as vanguardas inimigas se aproximavam da fortaleza ucraniana. Durante a manhã, o próprio Stalin falou diretamente a Meretskov, através da única linha telefônica restante com o exterior:
Camarada Meretskov! Como está a situação? - Perguntou Stalin com um leve tom de entusiasmo.
As coisas estão correndo conforme o previsto, senhor! - Respondeu-lhe incisivamente. - O inimigo está se aproximando, mas estamos mostrando as calorosas recepções de nossa artilharia e ninhos de metralhadoras. Nossos camaradas estão confiantes e lutarão com tenacidade por esta cidade!
Muito bem, general. A defesa de Odessa é fundamental para os nossos esforços. Falarei com Zhukov e Timoshenko sobre a possibilidade de enviar reforço até vocês, camarada. Cada dia de luta aí é um dia a mais que nossas forças se preparam em outras frentes. Boa sorte, Meretskov. Confio em sua capacidade. Os olhos de todo o povo soviético estão sobre vocês! Pela União Soviética!
Nós lutaremos até o último soldado, senhor! - Saudou-lhe Meretskov, que visivelmente tinha apreensão pela responsabilidade conferida pela tarefa. - Pela Mãe Pátria!

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1941: PARTE 4
Na madrugada do dia 4 de agosto de 1941, os inimigos estavam confiantes da investida contra a cidade de Odessa. Desde o começo do mês anterior, a companhia do Capitão Mikhail Potapov cavou trincheiras na região da cidade. Os homens haviam se preparado por vários dias para enfrentar os blindados alemães e o que mais fosse enviado contra eles. Após a longa espera, os homens de Potapov se posicionaram em uma seção da linha, há quase 6 quilômetros da cidade.
Após uma intensa barragem de artilharia, soldados romenos avançaram em um ataque frontal apoiado por seus tanques. Potapov respondeu o ataque com fogo antitanque e de metralhadoras. As minas plantadas dias antes sepultavam vorazmente os fascistas. Com duas baixas, a companhia do X Exército - sob o comando do Coronel General Nikandr Chibisov - resistiu ao ataque durante várias horas, até que o inimigo recuasse. O campo estava cheio de corpos tombados em meio ao emaranhado de arame farpado retorcido. Em outros setores do anel defensivo de Odessa, a luta prosseguia.

O Coronel General Chibisov enfrentou as tropas germano-romenas sob o comando do Marechal Ion Antonescu, o comandante-em-chefe da Romênia.
Nos dias posteriores, os romenos lançaram outros assaltos e eram repelidos com bravura. Bravura, porém, não supria a falta de munição que começava a acometer a Potapov e seus subordinados. Na manhã do dia 8, os alemães resolveram utilizar sua aviação para romper as linhas soviéticas. Esquadrões de Junkers Ju 88 despejaram um cobertor de bombas sobre as posições da companhia de Potapov, que padeceu com muitas baixas. O próprio capitão sofreu um corte em seu braço, provocado por um estilhaço.
Logo após, Potapov observou ao longe os blindados alemães se aproximando. Com pouca munição, não resistiriam por muito tempo. As companhias vizinhas haviam sido sobrepujadas horas antes pelos nazistas. Correu ao telefone para informar das condições do combate ao seu comandante, o coronel Klochkov.

O Capitão Mikhail Potapov ligando ao comandante de seu regimento.
Camarada coronel, aqui fala Potapov.
Prossiga, Potapov. - Respondeu o coronel Klochkov.
Os alemães avançam sobre nossa posição. A quarta e a sétima companhia caíram. Tenho poucos homens para resistir aos fascistas. Estaremos cercados muito em breve.
Entendo sua situação, Potapov. - A voz do coronel Klochkov estava embargada naquele momento. - Mas não há mais reforços. Você tem suas ordens, camarada capitão!
Resistiremos até o último homem…
Ao terminar a ligação, Potapov tomou seu rifle e assumiu sua posição ao lado de seus homens. Informou que suas ordens eram de resistir até o fim. Não haveria recuo. Não haveria rendição. Os soldados esperaram o momento que os tanques estivessem mais próximos. Nenhum tiro seria disparado até que os tanques estivessem ao alcance do último recurso: garrafas com um mistura de combustível e óleo, todas munidas de um pavio, que seriam utilizadas para incendiar os tanques do inimigo.
Nos últimos momentos, os soldados acenderam os pavios e arremessaram nos primeiros blindados que se aproximaram. Incendiando os mesmos, atiraram nos seus tripulantes que tentavam fugir desesperadamente. Os inimigos diminuíram seu avanço e os demais blindados dispararam contra as trincheiras. Foi naquele momento que as últimas granadas antitanque, que destruíram ao menos quatro veículos.
Por quase duas horas resistiram à investida. Os alemães alinhavam ao longe dezenas de blindados que avançariam sobre suas posições. Sem nenhuma comunicação com o exterior, Potapov encarregou o soldado Kuzhubergenov de levar um último relatório à retaguarda, a fim de avisar por onde deveriam passar as formações motorizadas inimigas. O capitão sabia que salvaria a vida de Kuzhubergenov naquele ato, uma vez que o soldado era um de seus melhores atiradores e deveria sobreviver para lutar outro dia.
À metade daquele dia, o capitão Potapov e seus homens seriam mortos por granadas inimigas. Kuzhubergenov levaria o relatório conforme anotado pelo próprio capitão, sem saber de seu fim. A companhia de Potapov havia destruído mais de catorze tanques naquele dia, o que renderia uma condecoração de bravura e, seria recomendado à comenda de Herói da União Soviética.
Ao norte da bacia dos rios Dniestre e Dniepre, o XXXIX Exército do General Fyodor Tolbukhin lançou um forte contra-ataque contra a cidade de Zhitomir, nas proximidades de Kiev. Sua missão era expulsar as vanguardas motorizadas nazistas, obrigando o inimigo a diminuir sua pressão sobre Odessa. O contra-ataque obteve sucesso, mas custou severas baixas às tropas de Tolbukhin. Em Cherkasy, o XXXIV Exército recuava para além do Rio Dniepre.

As forças do Segundo Front Ucraniano do Coronel-General Vassili Chuikov tentava manter as linhas próximas de Kiev, a capital da Ucrânia.
Após a luta desesperada no anel defensivo externo de Odessa, o General Kirill Meretskov ordenou um recuo ordenado das parcas unidades restantes até a cidade, pois os alemães haviam tomado à frente de batalha. A 10 de agosto, o inimigo progredia lentamente no interior da cidade. Ao nordeste de Odessa, as forças do Eixo ameaçavam cercar a bacia entre os rios Dniestre e Dniepre.
Em face da gravidade que corriam os defensores de Odessa, o General Semion Timoshenko havia chegado naquele mesmo dia ao quartel-general de Meretskov, agora fixado na cidade de Nikolayev, a cem quilômetros de Odessa. Meretskov expressou suas preocupações quanto à possibilidade de um cerco de grandes formações do Exército Vermelho na Ucrânia e o perigo que isso representava para o sistema defensivo soviético.
Por sua vez, Timoshenko tinha duas situações para resolver: evitar a perda de unidades experientes na bacia Dniestre-Dniepre, tentando convencer Stalin sobre a necessidade de uma retirada da região, e, ao mesmo tempo, evitar nova investida alemã em seu front no Báltico. Partindo no mesmo dia, Timoshenko somente se encontraria com o General Zhukov no dia 11, nas proximidades de Kiev. Seria então Zhukov o responsável a levar a situação à Stalin.
A 13 de agosto, Zhukov se encontrou com o Camarada Stalin para discutir a situação de Odessa e levar relatórios da frente. Stalin não ficaria nada satisfeito com a urgência em evacuar Odessa. Mas, diante de um documento assinado por Meretskov, Timoshenko e Zhukov, e da argumentação deste último sobre a perda de unidades e a ameaça sobre Kiev, Stalin resolveu consentir com o abandono de Odessa e da bacia Dniestre-Dniepre.

Após dias de luta casa a casa, o Coronel General Chibisov ordenaria o início da retirada de Odessa, ainda na madrugada de 14 de agosto. Seria uma tarefa hercúlea haja vista a quantidade de forças soviéticas engajadas com o inimigo. Horas depois, Chibisov deixava Odessa em um dos navios da Frota Vermelha do Mar Negro, que auxiliaram na evacuação.

As baixas soviéticas foram catastróficas, com mais de sessenta mil mortos em combate e dezenas de milhares de feridos.
A defesa de Odessa demandara as vidas de dezenas de milhares de soldados soviéticos. Mas aos alemães significaria ainda mais, pois sofreram pesadas baixas em um objetivo que, àquela altura, tinha pouca utilidade tática devido a destruição da maior parte da cidade e sua infraestrutura. Além disso, perderam uma Divisão Panzer inteira tentando ocupar a cidade.
Nos próximos dias, o XIII Exército do Coronel-General Ivan Bagramyan lançou um ataque para tentar retomar mais uma vez a cidade de Zhitomir, que atacaram obstinadamente o inimigo. A ação das tropas de Bagramyan obrigaram os alemães a recuarem mais uma vez. Todas as operações inimigas na Ucrânia seriam interrompidas pelas próximas semanas. Neste meio tempo, reforços do Cáucaso, da Sibéria e da Mongólia chegariam à frente da batalha.

Comissário político soviético conduzindo os soldados de seu batalhão ao assalto contra as posições dos nazistas.
Com a situação ucraniana em suspense, os alemães concentravam suas forças na Bielorrússia. O Marechal Voroshilov preparava as defesas em Minsk, enquanto o General Timoshenko redesignou efetivos soviéticos da Escandinávia para o Báltico e ao Front Bielorrusso, como o VI Exército do General Vladimir Chomenko.
Até o dia 1º de setembro, as forças do Exército Vermelho liberariam a Noruega das garras do domínio nazista. Com a conquista das fortalezas costeiras em Bergen e Stavanger pelo XI Exército, a vitória completa seria declarada. Todas as tentativas alemãs para manter a Noruega seriam frustradas, pois as frotas submarinas e de superfície da Marinha Soviéticas impuseram importantes baixas. O ganho político seria tremendo. Correspondentes internacionais foram chamados a pedidos de Stalin para reportar a situação na Escandinávia.
O Camarada Stalin transmitia uma mensagem clara sobre a capacidade soviética em suportar a defesa obstinada de seu território e ainda infligir derrotas em outras frentes. Muitos membros da resistência norueguesa se alinharam ao Partido Comunista da Noruega e ajudaram a suportar a instauração da República Popular da Noruega. Hitler se enfureceria com as desventuras das suas forças militares que não mantiveram uma das conquistas anteriores.

A vitória na Noruega liberava tropas veteranas da Escandinávia para a defesa do solo soviético. Divisões finlandesas e suecas também seriam trazidas para esta tarefa. Na Ucrânia, os alemães retomavam sua iniciativa por ordens expressas de Hitler. As condições climáticas logo começariam a piorar em todo o Leste Europeu, com as chuvas de outono.
Meretskov e Chuikov coordenaram suas formações sob as ordens do General Zhukov que pretendia justamente ganhar tempo e retardar os alemães até o começo de outubro. Meretskov estava pessoalmente encarregado a defender a cidade de Nikolayev e seus arredores a qualquer custo. A 14 de setembro, os alemães engajaram as grandes formações do Primeiro Front Ucraniano, que já estava a sua espera. Intensos combates e contra-ataques foram executados ante a investida dos invasores.

Um dos inúmeros contra-ataques promovidos pelas forças do X Exército de Chibisov, que recebera novos reforços após a defesa de Odessa.

Correndo contra o tempo, as forças do Grupo de Exércitos Alemães do Centro investiram contra a capital bielorrussa de Minsk, no dia 15 de setembro de 1941. A despeito da resistência dos batalhões do combalido IX Exército de Montanha, Voroshilov não pode suportar a defesa de Minsk por mais de seis dias. O velho Voroshilov solicitou a Stalin a autorização para deixar Minsk antes da batalha, provavelmente por temer a captura pelos alemães. Stalin não suportava a ideia de abandonar mais uma cidade soviética de importância.
Zhukov contrariou o pedido de Voroshilov, e endossou a necessidade de manter a cidade. Todavia, Stalin resolveu favorecer Voroshilov. Para evitar uma retirada desastrosa para a carreira de Voroshilov, Stalin convenceu o marechal a deixar seu comando direto no front e assumir uma posição apenas na burocracia militar. A derrota em Minsk foi um desastre para o Front Bielorrusso, e Zhukov teve que lidar com a nova desestabilização da frente.

A 22 de setembro, Zhukov se encontrou com Stalin e com outros líderes da Stavka, entre eles, Timoshenko, Nikolai Kuznetsov e Alexander Golovanov para rever a estratégia geral. Após três meses da invasão alemã, não seria possível recuar por muito mais tempo. Nem mesmo a Marinha Vermelha poderia se mover sempre em função de defesa costeira ou a força aérea a apenas apoiar as operações de terra. Zhukov queria planejar uma estratégia de longo prazo para a luta contra os invasores.
Não era possível mais pensar em uma defesa de uma cidade, de um país ou de toda a União Soviética. O próprio Camarada Stalin expressava que esta guerra era pela defesa de todo o mundo livre ante a ambição de Hitler. A única coisa que interpunha a realidade daqueles dias e o alcance deste objetivo eram as Forças Armadas Soviéticas. Fazia-se claro que a luta só terminaria com a rendição incondicional dos nazistas.
Falando novamente ao rádio, Stalin conclamaria todo o povo soviético e seus soldados à luta com tenacidade e resiliência. Hitler vociferava uma rápida campanha de três meses que levaria à derrocada da União Soviética e do extermínio do ideal comunista. Mas, após três meses, ali resistiam os esforços de milhões de soviéticos… Aquela era de fato a Grande Guerra Patriótica!

Cartaz de propaganda com a mensagem - “A Mãe-Pátria está chamando!”
1941: PARTE FINAL
- Camarada Meretskov, você tem suas ordens! - A fala do General Georgy Zhukov ao rádio impunha a emergência da situação, após breve relatório. Não havia tempo para muita conversa. - A defesa de Nikolayev é de suma importância. Não podemos deixar os fascistas avançarem por esta posição de encruzilhada. Câmbio.
E nós não vamos deixá-los! - Respondeu-lhe General Kirill Meretskov, comandante do Primeiro Front Ucraniano, com firmeza. - Asseguro que não vão esquecer o nome desta cidade ucraniana! Mas preciso de apoio contra o flanco norte do inimigo… Câmbio.
Fique tranquilo! Vou expulsar os alemães de Cherkasy a qualquer custo! - Disse-lhe Zhukov.
- É para isto que estamos aqui… Sem misericórdia aos fascistas! Câmbio e desligo.
Ao desligar o rádio, o General Meretskov não se tardou a transmitir as ordens aos seus oficiais. A 19 de setembro, as forças soviéticas defendiam a chamada “encruzilhada do sul ucraniano”. Nikolayev era o caminho de encruzilhada para diferentes regiões. A Crimeia estava ao sudeste, o Rio Don e Rostov ao leste, as minas ferríferas de Krivoy Rog ao nordeste, e Kirovogrado ao norte. A posição devia ser mantida ou os invasores teriam uma nova base para avançar para além da Ucrânia.
No norte, o General Zhukov tentava tomar Cherkasy e evitar que Kiev fosse exposta em todos os flancos de defesa. Conforme os dias se passavam, os alemães traziam novas reservas ao campo de batalha, principalmente divisões blindadas de seu Grupo do Centro. Segundo informações decifradas pelo GRU, Hitler ordenara que o avanço alemão fosse suspenso às portas de Smolensk.
Para Zhukov aquilo era um alívio, pois depois da queda de Minsk, da linha defensiva de Borisov-Bobruisk e de Vitebsk, poucas divisões combalidas interpunham-se aos alemães na região de Smolensk - a antessala para Moscou. O General Timoshenko também não poderia fazer muita coisa haja vista que o inimigo estava quase sobre Riga, a capital da Letônia. A entrada da Rússia estava desguarnecida. Mas, por um “milagre”, as atenções de Hitler se voltaram novamente sobre a Ucrânia, que recebera reforços.
Após combates encarniçados de defesa em profundidade, Meretskov ordenou dois contra-ataques sobre as posições do Eixo. Utilizando uma combinação de tanques, veículos blindados e cavalaria, o comandante do Primeiro Front Ucraniano conseguiu opor ao inimigo duas nefastas surpresas, destruindo centenas de seus carros de combate. As operações ocorridas entre 22 e 24 de setembro trouxeram a vitória para o lado soviético, com os fascistas interrompendo bruscamente seu ataque de vários dias. O custo foi pesado para o Exército Vermelho, mas igualmente pesado para os invasores, que amargaram a quase destruição de seus corpos-de-exército motorizados.

Soldados do X Exército do Coronel General Nikandr Chibisov durante um contra-ataque contra as forças nazistas.

A defesa de Nikolayev em 24 de setembro foi um duro revés para os fascistas, mas ainda havia muito por vir.
Três dias depois, Zhukov obteve a vitória sobre Cherkasy, impondo mais uma derrota aos alemães. Este ataque empregou divisões mongóis veteranas, que reforçavam o perímetro de Kiev e auxiliaram no ataque. Contudo, o comandante-em-chefe da Stavka resolveu sustar o avanço à Cherkasy diante de duas novas situações: vanguardas alemãs vindas de Zhitomir avançavam em direção à Kiev, e de Korosten e Rechytsa, tentavam uma incursão oportunista contra Chernigov, situada na margem oposta do Dniepre.

A concentração de forças alemãs na Ucrânia dificultava uma correta previsão de seus movimentos. Mas Zhukov acreditou que Kiev era o alvo principal.
Era possível evocar reforços para Chernigov e manter a margem oposta do Rio Dniepre, entretanto a sorte de Kiev não era a mesma. A Força Aérea Alemã realizou raides sobre as pontes dentro de Kiev, em uma tentativa de isolar a porção ocidental e oriental da capital ucraniana. A medida surtiu efeitos e impediu que Zhukov enviasse o reforço adequado de veículos blindados para a outra porção da cidade. O tráfego ao longo do rio ficou exposto e a Força Aérea Soviética transferiu novas unidades para proteger as tropas e manter a superioridade aérea sobre a zona de combate.
Zhukov tinha que lidar com outras necessidades externas. Timoshenko já fizera o impossível de evitar o avanço alemão no Báltico por mais de três meses, e suas tropas já estavam no limite da exaustão. Além disso, a Bielorrússia fora inteiramente ocupada pelo inimigo e se lutava em pleno solo russo. Os reforços escandinavos e as tropas soviéticas que haviam lutado na Noruega ainda não haviam não haviam chegado. Nas primeiras semanas de outubro, a luta agora não era apenas contra os nazistas, mas contra o tempo.
Com preocupações quanto às mudanças climáticas que logo ocorreriam, o Camarada Stalin ordenou os preparativos de médio prazo para tal. De acordo com as lições aprendidas na campanha da Finlândia e com os conhecimentos técnicos dos oficiais comunistas finlandeses, grandes lotes de equipamentos de invernos foram requisitados às fábricas siberianas, para suprir as reservas já disponíveis. Independente de um inverno brando ou mais rigoroso sabia-se que as temperaturas cairiam vários graus negativos. Veículos e adaptações especiais seriam necessários.

Com a batalha por Kiev se intensificando, o comandante do Segundo Front Ucraniano, General Vassili Chuikov, solicitou unidades do Primeiro Front de Meretskov. Reservas foram transferidas, e, de alguma forma, os alemães suspeitaram do movimento. Um grupo de combate da SS nazista comandado pelo tanquista Paul Husser obrigou Meretskov retroceder de Nikolayev e ocupar posições ao longo de Kherson, Melitopol e Krivoy Rog. Se nada fosse feito, as unidades inimigas poderiam tomar Kirovogrado e cruzar o Dniepre.
O General Meretskov aproveitaria a deixa para surpreender seu oponente e impor à força militar da SS nazista uma pesada derrota. Com uma ação coordenada com o XXVI Exército Motorizado do Tenente-General Konstantin Rokossovsky, Nikolayev foi novamente ocupada e os fascistas foram postos em fuga!, a 22 de outubro de 1941. A difícil vitória renderia condecorações à Meretskov e Rokossovsky. Acenderia a fúria de Hitler, que descontaria com um pesado bombardeio sobre Kiev.

Os tanques mais modernos da chamada Waffen-SS foram destruídos, colocando em fuga grossos efetivos germânicos e romenos.

Efetivos da 7ª Divisão Motorizada durante o ataque à Nikolayev, na tarde de 21 de outubro de 1941.
Em Kiev, a situação se transformava em um banho de sangue. Os alemães haviam empregado praticamente um quinto de todas suas forças de invasão na batalha. Chuikov resistia o quanto pode em uma cidade em ruínas. Já havia perdido o equivalente a dois exércitos em mortos em combate, e outros milhares combatiam já na condição de feridos. O comissário político do front, Nikita Khrushchev, que era o representante do Partido Comunista da República Soviética da Ucrânia, exortava os defensores a manterem seus esforços, mas também sabia que a situação não tinha solução.
Em 23 de outubro, Khrushchev foi à Moscou se encontrar com Stalin, pois este havia determinado a defesa a qualquer preço, muito em virtude de seu desgosto pelas derrotas em Minsk. Indiretamente, o velho Voroshilov era o culpado de mais uma tragédia para os soldados soviéticos. Enquanto isso, as pilhas de carne morta e mutilada de ambos os lados era tão grande nas ruas da capital ucraniana, que as patrulhas soviéticas não raro observavam os tratores alemães empurrando corpos de seus camaradas e escombros para abrir ruas.
A mortalha abaixara o moral das tropas defensoras. E, após cinco semanas de combate, Chuikov se encontrou com Zhukov no dia 26 para encontrar uma solução, pois não obtivera nenhuma resposta de Khrushchev. Zhukov exigia seus comandados à exaustão e a derrota lhe parecia inenarrável, mas já compartilhava da situação geral. O alto comandante soviético viu no homem à sua frente o ímpeto para resistir até a morte. Mas de que adiantaria a determinação se não havia mais como segurar Kiev?
Sem a resposta do comissário político, Zhukov já se aprontava para viajar novamente à Moscou para falar com o Camarada Stalin. Estava decidido a por um fim à carnificina. Entretanto, antes que viajasse, Khrushchev retornava de Moscou com novas ordens de Stalin: abandonar Kiev. A façanha daquele feito se devia justamente à Khrushchev, que começou a ser visto como uma figura de importância nos bastidores. Este havia conseguido mudar a postura de Stalin mesmo após a queda de Riga, no Báltico, dois dias antes.

A retirada de Kiev ocorreu após um longo mês de sofrimento para seus defensores. Para Chuikov, seria um difícil momento de sua carreira militar.
Com a queda de Kiev, Zhukov autorizou uma recuo geral do Primeiro e do Segundo Front Ucraniano para além do Rio Dniepre. No Báltico, Timoshenko cedia o território letão ao avanço inimigo, minando as principais estradas e destruindo pontes. As chuvas de outono começavam a cair torrencialmente, e finalmente as condições se tornavam favoráveis para o Exército Vermelho.
Mas a verdadeira reviravolta daqueles dias ocorreria do outro lado do mundo. Resoluto de sua determinação sobre o sudeste da Ásia e o Pacífico, o Império Japonês realizou um sórdido ataque contra os Estados Unidos e outras incursões contra o Reino Unido. O conflito se tornava mundial e a União Soviética não estaria mais sozinha contra a máquina de guerra do Eixo, ainda que houvesse neutralidade com os japoneses.

O ataque à base naval de Pearl Harbor no meio do Pacífico surpreendeu os americanos, e os arrastaram para a guerra, rompendo com sua postura isolacionista. O drama em torno das notícias daquele ataque era tamanho que os burgueses de Washington pensavam ser aquele o fim do mundo. Ignoravam as agruras sofridas pelo povo soviético. Mais soviéticos morreram para defender a quadra de ruas em torno da estação ferroviária de Kiev que americanos em Pearl Harbor.
Ainda assim Stalin receberia com alguma motivação a entrada dos americanos no conflito, e principalmente a ajuda em equipamentos e veículos que os americanos passaram a fornecer através de empréstimos. Era tardia, mas teria sua utilidade.
No Báltico, na Rússia e na Ucrânia, as chuvas haviam transformado as vias dominadas pelos alemães em lamaçais. Seus blindados pesados chafurdavam em atoleiros e sua ofensiva era interrompida. As duas primeiras semanas de novembro foram dramáticas para os invasores, enquanto novos esforços de guerra e reforços eram erigidos e organizados pelo Exército Vermelho.
Outros esforços ganhavam força também. Alguns extremamente secretos com os dirigidos pelo NKVD, que montou dois departamentos especiais para o desenvolvimento de novas armas. Um no interior da Rússia, para a construção de uma instalação de pesquisas sobre o uso de energia nuclear para fins bélicos, e o outro no Cazaquistão, para o desenvolvimento de “armas aéreas” baseados em tecnologias experimentais de foguetes e engenharia aeronáutica.
A despeito dessa intensa mobilização, o clima tivera sua participação de peso. Nas semanas entre novembro e dezembro, as temperaturas caíram bruscamente com pesadas nevascas que atingiram todo o Leste Europeu. O inverno literalmente congelava as formações alemãs, que não estavam preparadas para esta intercorrência. Já o Exército Vermelho estava mais preparado para esta situação, por suas experiências prévias.

Os invasores nazistas haviam enfrentado avanços custosos e a heroica resistência dos soldados soviéticos. Agora encontravam ainda mais desespero nas gélidas condições climáticas da Mãe-Pátria. Seus generais amargariam o ódio e desavenças entre si sobre a melhor forma de condução da guerra. A tão famigerada “operação Barbarossa” fora fadada ao fracasso. Hitler se enfurecia com a incompetência de seus comandados, enquanto o Camarada Stalin finalmente confiara a seus generais o planejamento estratégico da guerra e em sua capacidade.
O ano de 1941 fora uma dura experiência para o povo soviético. Mas as fileiras estavam formadas, os canhões preparados, os rifles empunhados! Era chegada a hora de contra-atacar!
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1942

Durante o rigoroso inverno do final de 1941, as forças do Exército Vermelho lograram uma vitoriosa ofensiva para barrar o avanço alemão sobre o solo soviético. Em Berlim, Hitler humilhava seus generais por sua incompetência em reuniões desastrosas. Em Moscou, o Camarada Stalin laureava seus comandantes e as forças do povo soviético pelo heroico esforço.

Na virada do ano, o front se estabilizara. O General Georgy Zhukov utilizara forças da Sibéria e do Oriente para defender a capital russa e retomar Smolensk, nas portas da Rússia. Milhares de quilômetros ao sul, unidades organizavam defesas na bacia do Rio Don, no Leste da Ucrânia. A natureza das estepes tornava hercúlea a tarefa de proteger o flanco mais vulnerável da frente. Reforços advindos da Ásia Central só seriam significativos no início de abril.

Evidências obtidas pela Inteligência apontavam que o inimigo iria abandonar os esforços por Moscou e lançar um novo assalto à Ucrânia e o sul da Rússia. Comboios de suprimentos rumavam para lá. Partisanos relatavam a mudança de estratégia. Zhukov pretendia surpreender os alemães antes que o degelo de março impedisse qualquer ação. Reuniu-se às pressas com outros comandantes e obteve informações precisas antes de apresentar a situação à Stalin.

O Camarada Stalin se viu surpreso. Até novembro defendia uma ofensiva generalizada. Agora em meados de janeiro de 1942, quando já acreditava na cautela, encontrou-se com um Zhukov que sugeria o impensável: uma ofensiva em profundidade para romper as linhas alemãs utilizando as já exauridas reservas soviéticas no setor defensivo Rhzev-Smolensk e ainda requisitar as reservas blindadas da Ucrânia. Se bem sucedido, o plano eliminaria os salientes de forças inimigas, retomando parte da Bielorrússia. Sem malogrado, poria a ruína da linha defensiva e Moscou iria à capitulação.

Quando o pedido quase foi recusado, Zhukov colocou seu comando à disposição e pediu para voltar à frente, se o Camarada Stalin assim desejasse. Em contrapartida, afirmou que, se o plano natural de defesa da bacia do Rio Don na Ucrânia, em plena estepe, fosse seguido, os porcos fascistas só poderiam ser detidos ao fim de 1942, onde seria possível retomar a iniciativa estratégica e, talvez, voltar a Polônia somente em 1944. Stalin hesitou, mas consentiu. Sabia que sem Zhukov e seu estilo agressivo de comando, o país talvez já teria caído. Em meados de fevereiro, após preparativos desesperados e alocação de forças, a ofensiva foi iniciada. Dado pessoalmente por Stalin, o codinome da operação era Bagration.

Com mais de seis mil blindados em quatro exércitos mecanizados, milhares de peças de artilharia e caminhões além de mais de um milhão e meio de soldados equipados, a Operação Bagration tinha o objetivo de retomar as partes orientais da Bielorrussia, da Lituânia e da Letônia.
Utilizando manobras de dissimulação, o Exército Vermelho conseguiu ludibriar os alemães. Sob distrações no setor Bryansk e sobre as fortificações Lago Peipus-Pskov, o Alto Comando Alemão não viu relevância na movimentação no começo de fevereiro. Afinal, haviam quase 800 km de distância, sem nenhuma correlação aparente. Em tempo, unidades desfalcadas de blindados em Kursk, fotografada pela Força Áerea Alemã não sugeria, sugeria apenas desgaste soviético. Por garantia, entretanto, o General Von Kluge, novo comandante do Grupo de Exércitos Central deslocou algumas forças motorizadas alemãs adicionais para Bryansk e Pskov, confiando que dispunha de meios infantes suficientemente instalados para guarnecer a frente. Caiu na armadilha.
A surpresa foi total. Em menos de quatro dias, as forças combinadas do IV Exército Blindado do General Aleksandr Vasilevsky, que avançava por Pskov, do III Exército Blindado de Ivan Konev e do II Exército de Konstantin Rokossovsky contornaram a infantaria alemã em Velikiye Luki e abriram uma brecha de vinte quilômetros em direção ao coração da República Socialista Soviética da Letônia. As unidades alemãs que tentaram resistir, mesmo depois de intensa barragem de artilharia, foram destroçadas pelos T-34 soviéticos.

Àquela altura, só cabia aos alemães correrem contra o tempo. Moviam-se incrédulos da nova investida soviética em tamanha magnitude. Tentaram retirar sua blindagem de Bryansk e trazê-la de volta ao Báltico. Mas era tarde. Comandado pessoalmente pelo General Georgy Zhukov, o I Exército Blindado girou de Smolensk para Roslavl, e dali para Mogilev, em quase 200 quilômetros em uma semana, sobrepujando uma blindagem panzer de quatro divisões, em Roslavl. Forças reforçadas do III Exército de Guardas protegiam o flanco do I Exército Blindado atacando e ocupando Klintsky

03 - Ofensiva da Bielorussia-Ucrania - Gen Malinovsky - 8 Ex. Infantaria - 1 de Cavalaria - Uso da Reserva do Ex. Vermelho

Em menos de um mês, o Exército Vermelho havia rompido as linhas alemães em dois pontos significativos. Havia aberto o caminho para Riga e estava a ponto de cruzar o Rio Dniepre, ao sul de Vitebsk. Isolara ainda grossa blindagem alemã em um bolsão em Bryansk. Para sustentar as duas manobras, o Marechal Kliment Voroshilov, do 1º Front Moscovita, e o General Rodion Malinovsky, do 1º Front Bielorusso, utilizaram suas exauridas unidades para segurar cinco exércitos alemães no eixo Polotsk-Vitebsk.

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Ataque da infantaria do Exército Vermelho, nas cercanias de Vitebsk
A destabilização dos porcos nazistas começava a se transformar em colapso. Stalin quase não pode acreditar no sucesso operacional da Bagration. Se antes o objetivo era reocupar as porções orientais da Letônia e da Bielorrússia, agora a ordem era liberar a maior quantidade possível de territórios.
Em 1º de março, as vanguardas do IV Exército Blindado de Vasilevsky libertaram Riga, na Letônia, com oposição incipiente. Quatro dias depois, Zhukov avançava em direção a Minsk, Konev girava ao norte com seu III Exército Blindado para a Estônia, e o II Exército Blindado de Rokossovsky girava para o sul, convergindo ao oeste de Minsk.

O Alto Comando Alemão quis suspender qualquer operação presente na Ucrânia e futura no sul da Rússia. O Grupo do Centro se fragmentara em três partes isoladas. A maior parte do Grupo Norte ficou preso na Estônia e parte dele foi destacado para a Lituânia. Hitler frustou as intenções e proibiu o que chamou de “retirada”. Pelo contrário, determinou que o Grupo de Exércitos Sul fosse dividido em dois: o A e o B. Sob seu comando direto, e operacional do Marechal de Campo Von Manstein, o Grupo A deveria libertar o cerco em Bryansk e o B, sob o comando o General Von Weichs tomar o que restava da Bacia do Rio Don. E o grosso das forças presas próximas à Smolensk deveria recuperar a frente.
As ordens eram absurdas. O degelo que se iniciava transformou algumas vias em lamaçais intransitáveis. Na região pantanosa ao norte da Ucrânia praticamente impedia a transferência de blindados alemães do Grupo de Exércitos Sul, que congestionavam as poucas vias. Zhukov sabia disso, e sua ação cirúrgica em direção a Minsk, retalhava o front alemão. A 9 de março, o 16º Exército do General Fyodor Tolbukhin logrou a capitulação do 36º Corpo de Exército Alemão, destruindo significativa blindagem alemã de uma só vez. No mesmo dia, o 1º Front Bielorrusso entrou em Vitebsk. Sem combustível, a 6ª Frota da Força Aérea Alemã foi destruída em solo.

A loucura de Hitler e o esforço do Exército Vermelho, operando no limite de seus suprimentos e da tenacidade de seus soldados, em marcha quase ininterrupta, levou o esforço finalmente a se transformar em colapso. Pelo feito, Zhukov e Timoshenko receberam as estrelas do Marechalato. Mais de uma centena de condecorações de “heróis da União Soviética” foram entregues oficiais do alto e médio escalão. Outras milhares de comendas foram distribuídas entre as unidades pelos feitos heroicos.
Até o fim da Operação Bagration, em fins de março, as Repúblicas Socialistas Soviéticas da Lituânia e da Letônia haviam sido quase totalmente liberadas. Grande parte da Bielorrússia retornava à União Soviética. O Exército Vermelho também marchou na Estônia, liberando Tallinn e criando os maiores cerco da História Militar: o cerco de Narva, onde quase setecentos mil combatentes do Grupo de Exércitos Norte foram completamente cercado em terreno desfavorável; e o cerco de Polotsk, onde meio milhão de soldados do Grupo de Exércitos Centro foram cercados.

Não obstante para o Reich, o IV Exército Blindado Soviético havia progredido tanto que pela primeira vez forças do Exército Vermelho pisavam em solo alemão: a fortaleza de Konigsberg foi sobrepujada ante as desgastadas vanguardas mecanizadas do General Vasilevsky, em 2 de março de 1942. Pelo rádio, Zhukov já havia adiantado uma interrupção da marcha, uma vez que a maior parte das unidades estavam desfalcadas e exauriram seus suprimentos.
A ironia do destino era tremenda: desconhecida pela Inteligência Soviética, a chamada Toca do Lobo, quartel-general de Hitler no Leste, ficava a apenas sessenta quilômetros da vanguarda de Vasilevsky. O movimento foi tão veloz que bombardeiros alemães que levantaram vôo ao fim da tarde do dia 1º de março confundiram as colunas em campo aberto com uma formação alemã! Ao fim do dia, a noite havia encoberto as colunas. E, mesmo horas antes, quando relatórios locais sobre a aproximação soviética em Konigsberg foram dispensados como equívocos. Se não fosse um operador ter interceptado parte da mensagem codificada de Zhukov à Vasilevsky, a surpresa seria completa. Hitler foi retirado as pressas junto com o restante do Alto Comando Alemão para Berlim e o complexo foi destruído.

Rendição de soldados alemães em Konigsberg, na Prússia Oriental, Alemanha.
Este era o momento da virada triunfante das forças do Exército Soviético e do Povo Soviético sobre os invasores fascistas!

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@Biller, muito bom ver você voltando a escrever! Muito bom, como sempre :clap:
Que bela reviravolta, Alemanha certamente sentiu essas derrotas!

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Maravilha! É disso que o povo gosta! E ainda sugiro voltar com o “enrolar pela narrativa” hahahaha, porque você narra muito bem o relato a ser escrito.

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As AARs do Biller estão entre as melhores do GSB. Assino embaixo do que o Victor escreveu.

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1942: Parte 2
O colapso do Exército Alemão no sagrado solo soviético foi um golpe severo contra o Reich. Por considerar como atos de incompetência absoluta, Hitler demitiu o Alto Comando Alemão por completo. Obviamente, assumir o controle total do curso da guerra já não significava mais nada. As únicas forças ativas na Frente Oriental eram os Grupos A e B, ainda em operação na Ucrânia. As reservas militares na Polônia não podiam fazer frente ao Exército Vermelho, mesmo que este se encontrasse em depleção parcial de suas unidades.
Mesmo com a intenção de Stalin em continuar com um avanço irrefreável, o Supremo Comando das Forças Armadas da União Soviética concordou com uma estruturação na frente, durante abril de 1942. A política de terra arrasada do início da guerra e o terror aplicado pelos invasores nazistas culminou na destruição de pontes e minagem de estradas, que impôs grandes restrições logísticas. Mais do que isso, os cercos sobre o Grupo Norte, em Narva, e o Grupo Centro, em Polotsk, ainda representavam graves ameaças na retaguarda.
Os alemães sabiam que não haveria resgate. No caso de Polotsk, as deserções eram crescentes e os suprimentos estavam exauridos, mas Hitler ordenou que essas forças deviam romper o cerco e retornar à Polônia. Sob as ordens do Marechal Voroshilov, as tropas soviéticas conseguiram manter o cerco e comprimir os defensores, levando-os à capitulação.

A rendição dos invasores em Polotsk após 28 dias de cerco, durante o final do inverno russo eliminou cinco exércitos alemães ao longo de diferentes assaltos até a capitulação dos defensores.
A situação de Narva era complexa, mas o desespero ante o desastre em Polotsk motivou Hitler a ordenar que a Marinha Alemã enviasse todos os seus meios para o Báltico. Mesmo da ação heroica do Almirante Nikolai Kuznetsov e da Frota Vermelha do Báltico, as forças navais soviéticas recuar momentaneamente para Leningrado, após severas investidas. Isso permitiu a manutenção de alguns parcos comboios de suprimentos para as forças cercadas em Narva. O uso da artilharia costeira fino-soviética e uma contra-ofensiva naval no Báltico levou os alemães a novamente abandonarem os esforços.

Sem título

Após o envio de suprimentos por quase uma semana, as forças alemãs ensaiaram uma tentativa de romper o cerco em direção ao sul da Estônia.

Diante dos acontecimentos da Grande Guerra Patriótica, o Camarada Stalin consentiu com uma sensível mudança estratégica: se, antes, a luta era por sobrevivência contra os invasores fascistas, agora, pela primeira vez, havia condições de atingir o coração da Alemanha e eliminar a mácula nazista da Europa. Isso significava que o Supremo Comando Soviético já acreditava que esperar pela liberação completa da Ucrânia antes de prosseguir ofensivamente poderia dar tempo ao Reich para se recuperar. Cada dia em que a guerra perdurasse era um dia a mais de sofrimento do povo soviético.

Assim, na primeira semana de maio, um pouco mais de um mês após o fim da Operação Bagration, forças soviéticas foram transferidas da Ucrânia para abrir caminho através da Polônia. Ao mesmo tempo, o 1º e o 2º Front Ucraniano, comandados respectivamente pelos Generais Nikolay Voronov e Vasily Chuikov, com o apoio do recém formado 2º Front Bielorrusso, comandado pelo General Rodion Malinovsky, lançaram a Operação Saturno, que tinha por objetivo cercar os alemães em solo ucraniano.

Na Polônia, as pontas-de-lança do II Exército Blindado do General Rokossovsky surpreenderam as forças alemãs, cruzando o Rio Vístula e obrigando uma retirada total para o leste da Alemanha. A 7 de maio de 1942, tropas soviéticas libertaram Varsóvia.

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Unidades blindadas do II Exército compunham as vanguardas da chamada Ofensiva do Vístula, que tinha o objetivo de liberar a Polônia até alcançar o Rio Oder, na Alemanha.

O mais impactante foi a nefasta descoberta de que os nazistas estavam colocando em curso um sistema brutal de confinamento e extermínio da população judaica. Em Lublin, ao sul de Varsóvia, um grande campo de prisioneiros foi localizado, no qual foi descoberto um sistema de extermínio para seres humanos em fase final de construção. Os prisioneiros relataram que as execuções sumárias e privações eram recorrentes, mas que estavam sendo forçados a construir estruturas destinadas a cremação e execução em massa. Documentos capturados indicavam também que se pretendia a eliminação sistemática da população confinada no chamado “gueto judeu de Varsóvia”. O NKVD colheu uma quantidade significativa evidências das atrocidades nazistas.

Enviadas para Stalin e para todo o Supremo Comando, as informações foram retransmitidas através dos embaixadores soviéticos em Londres e Washington para suas contrapartes ocidentais. A primeira conferência entre Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética teve lugar em Moscou, em maio de 1942.

O encontro histórico entre Churchill, Stalin e William Averell Harriman, embaixador dos EUA na União Soviética, deu-se em um momento de encruzilhada estratégica.

O próprio Stalin urgiu o Primeiro-Ministro Britânico Winston Churchill pela abertura imediata de uma segunda frente na Europa ocupada, uma vez que os Aliados somente combatiam italianos e alemães no norte da África.

Entretanto, nem a América nem a Grã-Bretanha conseguiriam se comprometer com seriedade na Europa. Depois das dificuldades de desembarcar na Argélia e eliminar os fascistas italianos do Norte da África, nenhum dos países parecia disposto a lançar uma nova ofensiva naquele ano. Os americanos ainda tinham dificuldades em lidar com os japoneses no Pacífico e nem mesmo tinham efetivos suficientes para libertar a Europa em 1942. Os britânicos tampouco. As palavras de contemporização desapontaram Stalin profundamente.

Embora os líderes ocidentais não admitissem em detalhes, o Comissário de Assuntos Exteriores Vyatcheslav Molotov já alertara o Camarada Stalin sobre a incapacidade dos capitalistas. Sua visão ideológica de lucro privado com a guerra prejudicava seu espírito de luta. Mas, infelizmente, isso ocorria ao custo do prolongamento do sofrimento do povo e dos soldados da União Soviética.

Ao fim da conferência de cinco dias, enquanto Churchill se preparava para seu longo retorno a Londres, uma notícia veiculada na Rádio de Berlim provocou emoções mistas.

Segundo informações preliminares, um atentado foi provido contra Hitler por alguns oficiais descontentes com os rumos da guerra. Para a Inteligência, parecia ser um sinal claro que de que poderiam haver elementos não leais aos nazistas na sociedade alemã. Uma série de execuções na cadeia de comando do que sobrara do Exército Alemão desmoralizava ainda mais as tropas.

Enquanto o Exército Vermelho ocupava a margem oriental do Rio Oder, no Leste da Alemanha, ao mesmo tempo Zhukov comandou uma manobra para assegurar o flanco sul, ocupando o sul da Polônia e avançando em direção à Eslováquia. Na Ucrânia, os recém-formados 5º e 6º Exércitos Blindados, comandados pelos Generais Pavel Rybalko e Mikhail Katukov, executavam o objetivo principal da Operação Saturno: uma incursão através da República Soviética da Moldávia ocupada estava prestas a cercar o último reduto dos porcos fascistas.

Até o fim de maio, a capitulação da Eslováquia marcou mais um capítulo na liberação do Leste Europeu. Cruzando o Rio Oder, Rokossovsky lançava os primeiros assaltos nas cercanias da capital alemã. Uma semana depois, já no início de junho, a Hungria capitulou. Sob organização militar soviética direta, um governo de transição foi instalado no país. Cidadão soviético de origem húngara, o partidário Imre Nagy foi instalado como representante da nova unidade nacional socialista na Hungria.

Soldados do Exército Vermelho comemoram vitória em Budapeste, na Hungria.

A 6 de junho, Berlim se tornara parte da linha de frente. A ordem para luta até o último soldado feita por Hitler não seria suficiente para impedir a determinação destemida dos soldados do Exército Vermelho. Na altura daqueles acontecimentos, não se sabia mais o destino de Hitler. Muitos alemães se tornaram colaboracionistas com o NKVD, mas nenhuma informação consistente foi obtida.

Os sobrevoos feitos pela Força Aérea Soviética tinham total superioridade aérea. Pelo ar, a fuga do ditador nazista não era viável. O único meio era uma fuga por terra, mas as linhas se estreitariam a cada dia, uma vez que ao norte e ao sul de Berlim as vanguardas do Exército Vermelho já avançavam em direção ao Rio Elba, no coração da Alemanha. A Rádio de Berlim afirmava que seu Führer acreditava na vitória final através do esforço superior dos “guerreiros alemães”, evocando sua ideia degenerada de raça ariana.

Seja pela obstinação dos defensores de Berlim ou por mérito, Stalin logrou ao Marechal Zhukov a primazia de convergir seu quartel-general sobre Berlim. Isso causou certo desconforto aos generais Rokossovsky e Vasilevsky, que haviam se encarregado da execução das principais manobras através do Báltico e da Polônia, apesar do plano ter sido idealizado por Zhukov. Mas em certa medida deram o braço a torcer ao marechal soviético, que se não fosse sua insistência, ainda estariam lutando contra os alemães na Ucrânia, em vez de alcançar o inimigo em sua terra natal.

Ao mesmo as forças soviéticas avançavam sobre a Romênia e comprimiam o “Bolsão do Baixo Don”. Se em Narva e Polotsk as cifras superavam meio milhão de combatentes cercados, na bacia do Rio Don, os grupos alemães A e B somados superavam em muito a marca de um milhão de combatentes. Dezenas de formações presas em território soviético a mais de 1500 quilômetros de Berlim. Não fosse um leve esforço de búlgaros e romenos para suprir Odessa por terra e mar, as forças já teriam se rendido muito antes. Mas em junho Odessa foi libertada, e nenhuma sorte livraria os fascistas agora.

Por mais notável que fosse o feito militar, seria sobre Berlim que os olhos da Europa e do mundo se voltavam, em junho de 1942. Conforme o cerco sobre a capital alemã se apertava dia após dia, Stalin determinou que unidades especiais do NKVD se certificassem que sobre o paradeiro de Hitler. Havia um temor dele e de outros comandantes soviéticos que Hitler fugisse para a França ocupada ou mesmo fosse retirado da Europa. Por mais que no discurso, Hitler afirmasse que não abandonaria Berlim, é fato que os ratos sempre pulam antes do naufrágio.

A artilharia soviética castigou o centro de Berlim, e os blindados do Exército Vermelho estavam a poucos quilômetros da Chancelaria do Reich. Se Hitler ainda estava em Berlim, provavelmente se abrigara em alguma fortificação subterrânea. Àquela altura, não haveria como confirmar. Pouco mais de uma dúzia de oficiais foram capturados com vida. A grande maioria optava pelo suicídio covarde antes da captura. Na manhã de 30 de junho de 1942, o setor de comunicações traduziu uma transmissão aberta de rádio veiculada por toda a Alemanha que jamais seria pensada:

Atenção! Atenção! O Sistema Alemão de Comunicações dará um importante anúncio do Governo Alemão para o povo da Alemanha.

O Marechal-do Ar alemão Hermann Göring foi anunciado aos ouvintes, após minutos de uma música solene de Richard Wagner. E então discursou:
Homens e mulheres alemães,soldados das Força Armadas alemãs. Nosso Führer, Adolf Hitler, tombou. Em profunda tristeza e reverência, o povo alemão se curva. Ele reconheceu o terrível perigo do bolchevismo desde cedo e dedicou sua existência a essa luta. O fim disso, sua luta e seu caminho reto e inabalável de vida, é marcado por sua morte heroica na capital do Reich. Sua vida foi um único serviço para a Alemanha. Além disso, sua ação na luta contra a maré bolchevista foi empreendida pela Europa e por todo o mundo civilizado. O Fuhrer me nomeou seu sucessor…

Em um misto de êxtase e perplexidade, os tradutores de comunicação do Exército Vermelho transmitiriam em minutos até Moscou. Será mesmo que o bastardo havia morrido? Seria aquele o fim do Reich e da pujante vitória do Povo e das Forças Armadas da União Soviética?

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Um avanço impressionante, apesar do desgaste. E nada dos Aliados fazerem algo… :roll_eyes:

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Ótimo capítulo! Triste capitulação precoce de Hitler. Queria que a Alemanha brigasse um pouco mais.

E justamente porque o foco é a narração, o relato, não as tecnicidades do gameplay. Acho que disse algo nessa linha em algum canto do tópico velho dessa AAR, mas o que me atrai mesmo é a narração bem feita e bem cuidada com umas imagens contextualizantes do jogo ou de um contexto parecido. Começou com as tecnicidades ou explicações do jogo em si, não da história, eu passo direto hahahahaha

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1942: Capítulo Final

Enquanto as últimas formações nazistas ainda agonizavam em Berlim e as informações sobre a morte de Hitler eram verificadas, Stalin não conteve sua insatisfação com a passividade dos aliados ocidentais quanto a não abertura de uma segunda frente. Em vez de agir, Churchill parecia mais preocupado em garantir uma posição confortável na Europa Ocidental do que acabar com a ameaça nazista.

Londres se mostrava insatisfeita com o progresso soviético na Europa Central, e começava a requerer garantias quanto ao destino da Itália, da França e do chamado Benelux - a região dos Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo. Os Estados Unidos, por seu turno, se apressavam para armar seu aliado chinês - o governo ultranacionalista de Chiang Kai-Shek - temendo não os japoneses, mas a influência soviética no Oriente no pós-guerra.

Frustrado com a conferência de Moscou, Stalin ironizou, através das vias diplomáticas, que se deveria deixar a Europa nas mãos nos nazistas até que o debate sobre o futuro europeu estivesse concluído. Sabia que era o esforço e o sangue soviético que pagaram o mais alto preço até aquele momento, e continuariam pagando a cada dia se a guerra não fosse abreviada. Autorizou, sob esta lógica, uma ofensiva ampla e irrestrita sobre o norte da Itália e os Bálcãs.

Debilitado desde a derrota na Líbia, o governo de Mussolini enfrentava cada vez mais resistência de uma população faminta e oprimida. Partisanos se armavam por toda a Itália. Desmoralizado, o Exército Italiano desertava. Prevendo sua própria derrocada, o ditador fascista abandonou Roma e provavelmente deixaria o país. Com o apoio do NKVD, o antigo líder do Partido Comunista Italiano Palmiro Togliatti, refugiado desde o início da guerra, retornou à Itália e recebeu forte suporte da resistência anti-fascista. Por seu turno, ao perceber o rumo dos acontecimentos, o novo governo de Göring tomou controle virtual da Itália e suas posições balcânicas.

Quando as vanguardas soviéticas começavam a se aproximar na região do Veneto, a resistência italiana já pavimentava o caminho em todo o norte da Itália. Em meio a um comboio de retirada de forças alemãs que foi interceptado pelos partisanos, Mussolini foi encontrado em roupas civis. Por seus crimes de guerra, a resistência não teve misericórdia do porco fascista.

A morte de Mussolini, em 15 de julho de 1942, coincidiu com a rendição incondicional da guarnição de Berlim. Liderado pelo próprio Marechal Zhukov, as forças soviéticas entraram em uma cidade em escombros… Ali findava a loucura degenerada de Hitler. Fadado desde sua gênese, o mundo testemunhava a ruína do nazismo. Era o triunfo heroico do Exército Vermelho!
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A fotografia icônica da Bandeira Vermelha da União Soviética sobre o prédio da Dieta do Reich perduraria por gerações como lembrança do esforço do povo soviético

Mas ao contrário do que o Supremo Comando Soviético acreditava, o governo alemão não capitulou. Göring até era uma figura popular entre os nazistas, mas não possuía habilidades políticas. Não fosse o senso de preservar a si próprio, teria se rendido. Por outro lado, temia a SS de Himmler, que tomou o controle do Exército e apelava para o fanatismo doentio. A parte ocidental da Alemanha era também a mais populosa e industrializada, e isso dava uma certa sensação de que seu país ainda tinha condições de não apenas resistir, como alcançar uma “vitória final” contra o Exército Vermelho.
*A manutenção da guerra era crítica e representava um dilema. Em marcha há seis meses quase ininterruptos, o Exército Vermelho sofria de problemas crônicos de logística, desgaste físico de combatentes exaustos, depleção de veículos e equipamentos. Encarado uma resistência obstinada além do Rio Weser, no centro da Alemanha, Zhukov ordenou a suspensão da iniciativa estratégica das forças militares naquele setor, pois não queria ser surpreendido por nenhum revés. O Camarada Stalin também visava um acordo pacífico com os Aliados Ocidentais, a fim de dividir e ocupar a Alemanha. Não pretendia ocupar a França, apenas suportar a coalização anglo-americana. *
Na Estônia, o que restara do Grupo Norte Alemão se rendeu após meses de penúria e isolamento total. O único foco de ação a altura de agosto e setembro de 1942 era no sul da Ucrânia, onde a supressão logística de combustível e munição interrompeu o cerco soviético na Moldávia. Isso permitiu que unidades romenas e alemãs rompessem o logo cerco, em direção à Romênia. Essa situação foi considerada uma falha operacional gravíssima, e demonstrava que as forças soviéticas precisavam de tempo para se recuperar e estruturar o front. Na Itália e nos Bálcãs, as forças soviéticas mantiveram uma progressão apoiada por forças partisanas. A 8 de setembro, o 18º Exército do General Filipp Golikov entrou em Roma.

Entrada do 18º Exército de Infantaria do Exército Vermelho em Roma, na Itália

Àquela altura dos acontecimentos, os alemães encerraram o famigerado governo da França de Vichy. Dependiam da exploração à exaustão de cada recurso do solo francês para alimentar a combalida força militar nazista. Essa ação expôs a resistência popular francesa a uma maior repressão da SS. Em tempo, uma inesperada ação militar britânica causou inquietação sobre o Supremo Comando Soviético. Comandos ingleses lançaram assaltos anfíbio na Sicília e sobre o sul da Grécia. A ação foi vista como decisão de Churchill, para garantir a Grécia dentro da esfera capitalista, assim como a Itália, na tentativa de criar um governo paralelo pró-Londres.

Diante do avanço soviético, um movimento político da ala progressista da Romênia com o apoio de partisanos comunistas removeu o Marechal Ion Antoniescu do poder. Lideranças comunistas ganharam apoio popular de grande parte da população, após os anos de desolação causada pelo extremismo nacionalista desses países.A saída da Romênia da guerra foi seguida de um grande desarme de unidades ainda beligerantes no sul da Ucrânia. As forças que ainda estavam sob a bandeira alemã se renderam dias depois.

A setembro de 1942, a ação precipitada dos britânicos gerou discordâncias entre os próprios aliados ocidentais, segundo informes da Inteligência Soviética. O general e líder da “França Livre”, Charles De Gaulle, foi o maior crítico da estratégia. Criticava o descaso com a causa francesa e com a resistência francesa, ainda mais agora com o fim de Vichy. O presidente americano Roosevelt se viu dividido entre seu apoio a uma invasão no litoral da França e as divergência políticas com De Gaulle. Em meio a este cenário, havia ainda indícios de que portugueses e espanhóis estavam suprindo as forças alemãs, em temor à União Soviética.
O impasse ocidental motivou Stalin a apressar o fim da questão do nazismo. Deu ordens a Zhukov a reiniciar as operações. A ordem era clara: só pare quando avistar a fronteiras da Espanha. Não havia mais tempo para esperar pelos americanos ou esperar outra idiotice britânica. Se Churchill poderia agir por conta própria para salvaguardar os interesses dos capitalistas, era dever da União Soviética garantir que a vontade popular dos povos europeus assegurada.

Lançada no fim de outubro, a ofensiva pela liberação da Europa Ocidental seria fulminante. Em menos de duas semanas, as forças soviéticas cercaram o que sobrara do Exército Alemão no Rio Weser, entrando nas regiões industriais do Sarre e na Renânia. Isso significava que o plano soviético de divisão da Alemanha com os poderes ocidentais estava virtualmente encerrado. Na Dinamarca, forças mecanizadas do Exército Vermelho entraram no país apenas para aceitar a rendição das guarnições costeiras alemãs

No sul da França, a infantaria soviética enfrentou resistência nos Alpes Franceses, mas logo se ligaria ao avanço no norte. O apoio da resistência na Itália foi fundamental para assegurar as linhas na retaguarda, uma vez que a baixa concentração de forças para a liberação da Itália foi a menos custosa para o Exército Vermelho, mas era sempre um risco em potencial.

Em 11 de novembro, a Bulgária baixou armas incondicionalmente e aderiu à causa socialista, após a deposição do Primeiro-Ministro Bogdan Filov. O líder político Georgi Dimitrov, outrora líder da Internacional Comunista e famoso por seu papel de resistência ao nazismo durante a chegada de Hitler ao poder, retornou à Bulgária para presidir o reformado Partido Comunista da Bulgária.

O esfacelamento das forças alemãs e a saída do último aliado europeu promoveu a implosão do Partido Nazista, que infelizmente não padecera com seu “Führer”. Himmler, que publicamente pregava a vitória final, ordenando que a SS lutasse até o último homem e executasse traidors, secretamente tentou fugir da Europa. Foi capturado ao acaso por um comando do NKVD destacado para cortar a rota de acesso terrestre para os ratos nazistas. Provavelmente ao saber de Himmler e outros que abandonavam a Alemanha, Göring, não teve dúvidas e cometeu o suicídio.

Não a toa a História já havia identificado que certos fatos ocorrem com certa periodicidade ou até mesmo com aparente ironia. Mas, sem dúvidas, o destino escolheu de modo jocoso que justamente em, 11 de novembro de 1942, 24 anos depois da rendição do Império Alemão na Grande Guerra Imperialista, o governo do Terceiro Reich chegaria ao fim.

A implosão da cadeia de comando político e militar da Alemanha poderia incentivar a transformação das forças alemãs em guerrilha. Temendo uma luta que levaria a destruição completa da Alemanha, o Almirante Karl Dönitz assumiu interinamente o governo, com o apoio de Wilhelm Keitel, marechal e comandante do Exército.

Assinada na Berlim, a rendição incondicional da Alemanha foi assinada ante o Supremo Comando das Forças Armadas da União Soviética, em 11 de novembro de 1942.

Após três longos anos, estava finda a guerra na Europa. Forjada nas lutas, a União Soviética varreu os vis inimigos e decidiu o destino de gerações da humanidade!

Longa vida à nossa vitória!

Glória aos vitoriosos soldados que defenderam a honra, liberdade e independência de nossa Mãe Pátria!

Glória ao grande Povo Soviético - o povo vitorioso!

Glória ao inspirador e organizador de nossa vitória - o Partido de Lênin e Stalin!

Glória ao nosso sábio líder e comandante, Marechal da União Soviética - o grande Stalin!

Urra!

Marechal Georgy Zhukov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da URSS

FIM

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Além de não ajudar, ainda quer palpitar… conheço alguns assim :face_with_hand_over_mouth:

Faltou um “esperava”, acho…

Tinha q ser…

Belo final!

Parabéns por mais um AAR completado de forma esplendorosa, @Biller!

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Valeu a pena esperar tantos anos. Baita final! Soyuz nerushimy…

Baita sacanagem da IA. HAHAHA!

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É, eu nem pretendia encerrar este AAR agora… Mas pensando na proposta do título desse AAR, o sentido acaba quando a Alemanha é derrotada, mesmo que precocemente.

Ainda pretendo uma curta continuação dele, no mesmo save de jogo, mas com outro nome. Valeu, por acompanharem, mesmo que anos tenham separado a narrativa! :+1:

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