Dica de leitura. Uma das palestras mais instigantes do 16º Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação, sobre O Poder da Mídia no Século 21

Alguém muda o título do tópico para Comunicação digital: uma das frentes da batalha hegemônica. E valeu.

Uma das palestras mais instigantes do 16º Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação, sobre O Poder da Mídia no Século 21, realizado em novembro do ano passado, no Rio, foi a do professor de Comunicação da PUC/SP Silvio Mieli.
É um texto longo, mas que vale a pena ler. É uma ótima reflexão sobre a questão das novas tecnologias de informação.
Boa leitura!

Comunicação digital: uma das frentes da batalha hegemônica

Silvio Mieli
Professor de Comunicação da PUC/SP

Começo esta nossa conversa a partir de um artigo que foi publicado na Revista Superinteressante, voltada ao público jovem, na edição 269 de setembro do ano passado. O texto tem o sugestivo título de “Lugar de Criança é na Internet”. O autor é Silvio Meira, um cientista de um instituto de inovação e incubação de empresas de Recife, considerado um dos mais inovadores do país.

É um texto curto [1] , que como costuma acontecer com matérias ligadas à ciência e tecnologia, lá pelas tantas cita uma pesquisa de mercado. “Pesquisa da Nielsen diz que as crianças (2 a 11 anos de idade) estão na rede em peso. Enquanto o número total de usuários cresceu 10% entre 2004 e 2009, o de crianças subiu 19%. E o número de horas na rede, entre a garotada, cresceu 63% no período, de 7 horas por mês em 2004 para mais de 11 horas em 2009, contra um aumento do número de horas online, como um todo, de 36%”.

“E isso quer dizer o quê?, pergunta o autor. “Primeiro”, diz ele, que as crianças estão usando a “rede” como parte essencial de suas redes, como extensão da escola, conexão com familiares distantes, diversão, e por aí vai. “Segundo”, continua ele, “quem nasce em rede vive em rede; é como aprender a ler: tirante raros casos, ninguém desaprende”. “No futuro”, completa, “todo mundo estará em rede, em todo lugar, o tempo todo, para todas as coisas. Menos uma ou duas. Que justificarão a regra. Isso também quer dizer que pessoas do séc. 19, que passaram quase incólumes pelo séc. 20, vão achar que crianças na rede, no séc. 21, esse tempo todo (…) é um absurdo (…) O futuro das crianças – e dos adultos - é estar online, 24 horas por dia. Daqui para frente, se você existe, existe na rede, em tempo real e o tempo todo. Se você sabe de alguém que não está, torne-se um missionário: traga essa alma perdida para nosso convívio, na rede. Antes que seja tarde demais. O futuro vem das crianças, das múltiplas formas como elas estão construindo, em rede, suas relações. E nós podemos – ainda - fazer parte dele. Pois a rede, pra todo mundo, começa parecer normal…”

Peço desculpas pela longa citação desse artigo, mas eu acho que ele revela toda uma cultura em relação à tecnologia em geral, e a internet em particular. Além, é claro, de referir-se também às chamadas redes sociais. O texto é revelador, até porque foi publicado numa revista voltada ao público jovem.

Em primeiro lugar, numa análise superficial das argumentações do texto, percebe-se como a relação com a tecnologia é naturalizada, ou seja, é vista como algo que cai do céu. A tecnologia é apresentada (ou vendida) como um fato inevitável. Não é um projeto construtivista e coletivo, um processo que vai sendo construído entre a sociedade e a tecnologia a partir de um mapa comum. Não se trata de uma aproximação gradual, a partir da qual a cultura vai absorvendo o dado técnico e que exigiria inclusive uma pedagogia própria, que poderia ser trabalhada no ensino fundamental e médio. Ao invés disso, a técnica é apresentada pelo seu impacto.

Repito a frase do autor: Quem nasce na rede vive em rede. Simples assim. É muito difícil ler essa frase e não imaginar um bebê saindo da barriga da mãe e imediatamente já encontrar o seu perfil colocado numa rede de relacionamentos. Se o bebê ainda não for capaz de tal proeza, um dos pais fará o serviço. Recentemente, uma celebridade da esfera do axé pop, enquanto ia para a maternidade, preocupou-se em avisar os seus fãs das suas dores de parto pelo twitter. Muito sintomático.

Sem dúvida nenhuma estamos envolvidos pela dimensão tecnológica, que alguns chamam de infosfera, ciberespaço, vida digital etc. Mas, será que a nossa relação com a tecnologia é assim mesmo impactante, ou esta é uma estratégia daqueles que trabalham em torno do mercado digital e da tecnologia da informação?

A segunda constatação diz respeito à inevitabilidade do processo. Ou seja, não há tempo nem espaço para reflexão, discussão, nem para que se instale o contraditório. Segundo o artigo, não há diálogo diante do arrastão digital,

Ora, é preciso lembrar que sempre houve um mal-estar da cultura em relação à técnica. Ou tomamos a tecnologia como algo que está acima de nós, um grupo de ciborgues alienígenas que dominará o nosso mundo e tomará os nossos empregos (imagem que se implantou desde o tempo da revolução industrial), ou então, por outro lado, as máquinas são tomadas como se fossem conjuntos de escravos que só têm uma função utilitária e que devem servir aos nossos desejos. Quantas vezes não socamos e/ou chutamos engenhocas mecânicas ou eletrônicas que não funcionaram do jeito que queríamos ?

Se dentro de cada máquina existe um gesto humano cristalizado num mecanismo lógico, não seria o caso da cultura, ao invés de olhar de cima para baixo ou de baixo para cima, olhar para o uso que se faz da tecnologia de igual para igual, estabelecendo um diálogo?

No futuro, diz o texto que eu repito, todo mundo estará em rede, em todo lugar, o tempo todo, para todas as coisas. Menos uma ou duas… Fico a imaginar quais seriam essas uma ou duas.

Meu bom Jesus. Nem Hitler e Mussolini juntos, no pior pesadelo ditatorial imaginaram tal possibilidade. Quer dizer que devemos apagar os vários níveis dos quais a realidade é constituída, inclusive esse aqui, onde estamos nos vendo e, de algum modo, interagindo, e nos mudarmos de mala e cuia para A REDE? Lá serei amigo do rei, terei a vida que eu quero na rede social que escolherei, parafraseando Manuel Bandeira? É isso?

Sim companheiros, é exatamente isso que nos é vendido e que o artigo que eu citei referenda. Nada muito diferente dos serviços prestados pela telefonia celular, cujo objetivo é fidelizar o cliente, para usar um termo da moda, e fazê-lo gastar com cada nano-informação enviada por chamadas, torpedos, consultas às mensagens, envio de fotos, vídeos.

O futuro das crianças – e dos adultos - é estar online, 24 horas por dia, acrescenta o artigo. Que belo futuro nos espera. Não há dúvida, não há discussão e nem saída para essa situação. Estamos condenados a isso. É tudo muito natural e, além de natural, inescapável. Mesmo que alguém argumente que a coisa não é bem assim, está fadado ao fracasso porque, segundo o articulista, não existe outro caminho. O texto até termina com a seguinte frase: “Pois a rede, pra todo mundo, começa parecer normal”. Ou seja, com o tempo você se acostuma, dá adeus ao corpo e assume um avatar nas redes sociais. Não é por acaso que nos filmes holywoodianos a figura dos zumbis é tão comum. Afinal de contas os zumbis são almas penadas que vagueiam sem nunca baixar em nada de concreto e de real. Sinceramente não vejo metáfora melhor para definir um tipo de cultura baseada em seres que não conseguem mais olhar para a realidade sem a mediação de um smartphone.

Brincando com os meus alunos costumo dizer que ao lado do iPad, iTouch, iPhone, sugiro a criação do iZombi, uma tecnologia que simplesmente nos retira da realidade instantaneamente, sempre que ela for pesada, insuportável e nos causar desconforto.

A terceira chave de leitura do texto em questão coloca as crianças como portadoras do futuro. O futuro viria das crianças, das múltiplas formas como elas estão construindo, em rede, suas relações. Ora, estamos falando de crianças de 2 a 11 anos. São elas que naturalmente, instintivamente procuram as tecnologias da informação, ou são conduzidas, incentivadas, convidadas, introduzidas, apresentadas e, por vezes, obrigadas a penetrar nesse universo, até por falta de outras formas de lazer ou simples incompetência das escolas no modo como introduzem os computadores em sala de aula?

As crianças de 2 a 11 anos nascem e crescem naturalmente nesse habitat ou será que acabam desenvolvendo formas de convivência com ele? Ou antes disso, de que crianças estamos falando? As que se acotovelam num telecentro da periferia, as que dispõe de vários computadores em casa desde que nasceram, as que usam o computador na escola?

Aprendemos a amar Walt Disney por uma operação inata registrada no nosso código genético ou desde que nascemos colocam personagens da Disney nos nossos pratinhos, nas nossas roupinhas, depois vêm os desenhos, as músicas, os CDs, assistimos às múltiplas versões dos mesmos filmes, editados do mesmo jeito, vemos outdoors na ruas com os personagens… até que, naturalmente, por um impulso absolutamente natural pedimos para ir à Disney, onde finalmente teremos tudo isso junto no mesmo lugar mágico e envolvente?

É importante ressaltar, como nos lembra o antropólogo Renato Viveiros de Castro, que a ciência é filha do monoteísmo [2]. Deus desapareceu da ideologia dominante, da ideologia científica, mas é porque no fundo ele não precisa mais estar aí… Dito em outras palavras, sai Deus, entra a Ciência. Sim a ciência, essa dimensão neutra, objetiva, descritiva e factual, que não deve ser detida por nada nem por ninguém, já que pela sua pureza e desprendimento não estaria contaminada por valores sociais sujeitos à contestação.

Portanto quem vai levantar objeções à ciência e tecnologia?

Nós, companheiros, nós da área de humanas é que vamos debater, criticar, analisar e filosofar a partir dessas questões. Falo em filosofar no sentido de criar conceitos, formas de interpretação desses dados técnicos. Nós vamos questionar e politizar a questão tecnocientífica. Politizar não no sentido partidário do termo, mas no sentido de criar novas formas de convivência e relações com os dados técnicos.

Há várias definições de política. Uma delas, de Jacques Rancière, diz que política é a reivindicação da parte dos que não têm parte. Quer utilizemos esta ou outra definição de política, é urgente a politização da tecnociência, e este é um dos principais eixos do ativismo midiático que se configurou na virada do século.

Deixamos de simplesmente reagir ao impacto da mídia hegemônica, e começamos, desde o movimento Zapatista, passando pela batalha de Seattle, pela construção dos centros de Mídia Independente, e do ativismo digital em amplo espectro, a politizar a questão da relação entre mídia e tecnologia. A politizar o papel da internet como dimensão de resistência, criação e invenção de outras formas de sociabilidade. E estamos no olho do furacão deste processo.

E, no fundo, imagino ser este o nosso papel aqui: politizar a discussão. Complexificá-lo e ampliá-lo. A questão da tecnologia nos diz respeito. Temos que assumir a prerrogativa de encarar essa discussão e não deixá-la para os tecnólogos corporativos. É nosso o papel de aprofundar os desdobramentos éticos, estéticos, filosóficos da ciência. Ainda mais quando a ciência fundiu-se à tecnologia e mercantilizou-se violentamente. Não será ela, a tecnociência, que tomará esta atitude crítico-reflexiva sobre ela mesma. Cabe a nós fazê-lo, inclusive via imprensa off e online.

Certa vez, num debate sobre transgênicos, depois de ouvir a pesquisadora indiana Vandana Shiva detonar a empresa Monsanto, a maior produtora de sementes transgênicas sobre a terra, um biólogo, representante de um laboratório bioquímico, sem saber que Vandana Shiva era física nuclear e especialista em meio ambiente, disse que a Indiana não podia falar do que ela não entendia. Vandana Shiva poderia ter dito que o cientista não sabia com quem estava falando, mas optou por outra resposta: preferiu dizer que o que mais a chocava era como os defensores da biotecnologia em geral tinham um baixíssimo conceito filosófico sobre o que era a vida. Nunca me esqueci disso.

Não sei quantos jornalistas aqui estão, mas uma pauta interessante seria entrevistar uns 10 cientistas e fazer-lhes uma única pergunta: Para o Senhor e para a Senhora o que é a vida?

Portanto, se não formos nós, das Ciências Humanas a criticar a tecnologia, quem o fará?
Nós estamos tão habituados a aceitar os produtos tecnológicos sem objeções, inclusive muitos de nós que atuam na linha de frente dos movimentos sociais, estamos tão naturalmente adestrados a ver só o aspecto positivo, utilitário e prático da técnica, que se alguém levanta qualquer dúvida, logo será tachado de pessimista, primitivo, anti-tecnológico, dinossauro, quando não de aiatolá que quer brecar o avanço da ciência.

E a questão é muito prática. Ou seja, ao lado da politização do debate urge fazer perguntas simples: Por que estou usando o Twitter para este dado problema de comunicação, por que migrei para o Facebook neste contexto do meu movimento, por que tenho que transmitir em tempo real essa manifestação?

Para encerrar as minhas críticas contra o texto que citei no começo, num determinado ponto emerge um componente religioso, sagrado, por trás da ironia do articulista. Diz ele: Daqui para frente, se você existe, existe na rede, em tempo real e o tempo todo. Se você sabe de alguém que não está, torne-se um missionário: traga essa alma perdida para nosso convívio, na rede. Antes que seja tarde. Demais”.

É claro que é uma ironia, uma brincadeira, numa revista voltada ao público jovem. Mas ao mesmo tempo é uma frase reveladora, que não deixa de confirmar que há uma missão religiosa por trás desse projeto. Uma missão sagrada. Uma Guerra Santa.

É impossível não lembrar aqui de Walter Benjamin, que dizia ser preciso ver no capitalismo uma religião [3]. O capitalismo não exige a adesão a um credo, a uma doutrina ou a uma “teologia”. O que conta são as ações, que representam, por sua dinâmica social, práticas cultuais. Portanto ao dizer que hoje as pessoas só têm estatuto de existência na rede, o que se vê é o deslocamento de práticas sociais que poderiam ser riquíssimas em puros fetiches.

Na mercadoria, a separação em valor de uso e valor de troca transforma tudo em fetiche. Tudo o que é feito, produzido e vivido (corpo humano, sexualidade e linguagem inclusos) acaba se deslocando para uma esfera separada, na qual todo uso se torna impossível. Não o uso no sentido utilitário, mas no sentido de utilização comum, compartilhamento, partilha. Entenda-se impossibilidade de usar como uma impossibilidade de se fazer experiência, impossibilidade de compartilhar, impossibilidade de habitar, impossibilidade de usufruir da arte e da cultura, impossibilidade de dar uma destinação comum, impossibilidade de democratizar a comunicação… A separação desloca para outra esfera, a esfera do puro CONSUMO.

Nesta fase todas as coisas são exibidas na sua separação de si mesmas. Portanto, espetáculo e consumo são as duas faces de uma única impossibilidade de usar. Se não pode ser usado vira puro espetáculo ou puro exibicionismo espetacular. Ora, não é isso que vemos em abundância nas chamadas redes sociais convencionais? Como subverter essa realidade?

Em nenhum momento do texto citado existe um questionamento sobre o que, efetivamente, as crianças fazem nesse meio digital. Que tipo de informação estão trocando e que tipo de formação estariam recebendo. Nem uma palavra sobre a necessidade de se incluir nos ensinos fundamental e médio aulas de introdução à tecnologia e crítica aos meios de comunicação, modalidade que no Brasil cresce sob o nome de EDUCOMUNICAÇÃO, atividade corriqueira no ensino fundamental canadense, só para citar um exemplo.

Fica a sensação de que a única preocupação do texto é difundir uma cultura da rede que mais parece uma monocultura, cujo objetivo inicial é englobar a todos, o quanto antes, no mesmo mercadão de impressões digitais…

Esta postura revela as três grandes obssessões do mundo contemporâneo, apontadas pelo filósofo Nelson Brissac Peixoto [4]:

  • Obsessão hegemônica: ver tudo em tempo real.
  • Obsessão panóptica: ver tudo ao mesmo tempo.
  • Obsessão consumista: ter tudo ao mesmo tempo agora.

E eu gostaria de colocar mais uma pergunta para o nosso debate. Será que muitas vezes essas também não são as nossas obssessões, ao entrar sem nenhuma resistência no último canto de sereia tecnológico, porque simplesmente não podemos ficar fora disso?

Agora gostaria de fazer um corte deste texto da revista Superinteressante e pular para um recente seminário sobre Redes Sociais, chamado Seminário INFO sobre Redes Sociais, que ocorre anualmente em São Paulo. No ano passado participaram desse evento a Google, Orkut, YouTube, MySpace, Yahoo!, Microsoft, UOL, Terra, Globo.com, Nokia, Laboratório Roche, Bradesco, Volkswagen, Coca-Cola e outras corporações. Só pela presença dessas empresas, a palavra “social” já soaria ridícula ou patética, posto que o que move essas corporações, como sabemos, não é a emancipação social, a preocupacão pelo social ou a relação entre o movimento social e as novas tecnologias. E basta ver o nome das mesas desses eventos:

  • As ferramentas das redes sociais a serviço dos negócios.
  • Melhores práticas: como melhorar produtos e serviços através das redes sociais.
  • Blogs e Blogueiros – Manual de sobrevivência empresarial.
  • Cases de sucesso em redes sociais.

Não por acaso, um dos participantes do evento, quando perguntado sobre o impacto das redes sociais na vida das pessoas, respondeu: “As redes sociais são uma mina de ouro” para nós. A frase é paradigmática. Ela resume como a internet foi colonizada pelos mesmos valores do capitalismo do mundo atual.

Vejamos que interessante. A postura do capital diante do fenômeno das redes sociais não difere muito da postura do europeu diante das colônias ultramarinas expoliadas no século XVI, da postura de filósofos empiristas como Francis Bacon, ou da postura dos garimpeiros genéticos do século XX e XXI, aqueles que retiram sangue ou fios de cabelos de comunidades distantes para lucrarem com o patenteamento genético. A postura é a mesma: qual seja, a de se apropiar de tudo o que forem capazes.

Neste ponto da nossa conversa entramos diretamente no âmago das características da sociedade contemporânea, da qual será preciso tecer algumas considerações também em relação à noção de rede.

Não nego a importância do fenômeno das redes como um dos mais marcantes da contemporaneidade. Construir redes, conforme destaca o físico Fritjo Capra, tem sido uma das principais atividades de organizações políticas de base, do movimento ambientalista, do movimento pelos direitos humanos, do movimento feminista, do movimento pela paz.

Segundo Fritjo Capra [5], nas ciências, o foco nas redes começou nos anos 20, quando ecologistas viram os ecossistemas como comunidades de organismos ligadas em forma de redes através de relações de alimentação, e usaram o conceito de cadeias alimentares para descrever essas comunidades. A vida é uma complexa relação e interação metabólica entre o indivíduo e o meio. Portanto o metabolismo, que envolve fluxos de energia e material, é uma rede de reações químicas. Mas ainda que as redes biológicas possam nos ajudar a entender as redes sociais, não devemos esperar transferir nossa compreensão das estruturas materiais de redes do campo biológico para o campo social. Redes sociais são, antes de tudo, redes de comunicação que envolvem linguagem simbólica, questões culturais e relações de poder. Para entender as estruturas de tais redes, precisamos de subsídios da teoria social, filosofia, ciências cognitivas, antropologia, teoria da comunicação e outras disciplinas.

Entretanto, há uma questão que sempre escapa aos autores que se dedicam aos impactos das redes. A informação como uma espécie de substrato comum a todos os fenômenos. Dito de outra forma: tudo virou informação. Este fenômeno é pouquíssimo avaliado nos seus confrontos com a comunicação e o próprio jornalismo. É bom não esquecer que se a matéria-prima da comunicacão é a informação, seria o caso de olhar com mais cuidado para a informação como fenômeno. Além disso, nós nos definimos como Sociedade da Informação. O que podemos concluir é que o ser humano encontrou uma espécie de denominador comum para tudo: a informação. Um modelo de compreensão da realidade que concebe os elementos orgânicos, inorgânicos e tecnológicos como se fôssem um dado, uma cifra, uma pura informação quantificável, intercambiável e recombinável.

É a ascensão da “natureza como informação” e da “cultura como informação”. Portanto passível de apropriação e livre modificação. Nossos genes viraram informação, a vida virou informação e a cultura virou informação. Ora, quando um processo vital complexo transforma-se numa sequência de letras ou de dígitos, posso substituir sequências, inserir novos códigos, combinar e recombinar processos (misturam-se genes de animais com frutas e legumes: cria-se uma semente de soja que germina uma só vez e assim por diante…). O casamento entre a biologia e a informática permitiu esse novo campo de recombinação. Se por um lado isso abre uma nova perspectiva de descoberta para as ciências, de outro permite uma nova modalidade de controle sobre a própria vida, que precisa ser analisado com cuidado.

Se o que importa é a informação e que tipo de recombinação posso fazer dos processos vitais e da tecnologia digital, é claro que o capitalismo contemporâneo vai se basear no controle desses processos que se dão no mundo virtual. Mais do que isso, o sistema procurará se apropriar daquilo que pode vir a ser produtivo no futuro, ou seja, daquilo que pode ser atualizado e poderá ser capitalizado. Se acharem que a coisa está muito abstrata pensem nos garotos de 13 e 14 anos que já estão fazendo contratos com times de futebol estrangeiros. O capital esportivo investe na perspectiva potencial desses garotos virarem grandes jogadores. É um mercado futuro de craques, assim como existe um mercado de commodities agrícolas, um mercado de arte e, é claro, um mercado do capital digital.

Nesse tipo de capitalismo, a produção cultural e estética torna-se a própria base de sustentação da mobilização produtiva. É por isso que toda a dimensão da cultura é estratégica para o desenvolvimento capitalista contemporâneo.

Como demonstra muito bem a professora Ivana Bentes, da Escola de Comunicação da UFRJ, no capitalismo contemporâneo nós somos os consumidores-produtores. Na busca de criar fatos midiáticos incessantemente, capturar nossa atenção e comprar nosso tempo, a televisão e a internet convocam, exploram e mobilizam nossos afetos e nossa atenção [6] .

O espectador é o primeiro “explorado” pela publicidade, pela ficção, pelas “atrações”. Somos nós que emprestamos nosso tempo, nossa subjetividade e nosso imaginário para criar valor na TV e na internet. Ou seja, o que a mídia vende/explora dentro e fora da internet não é propriamente a publicidade – somos nós mesmos. A produção de conteúdo parte dos próprios consumidores, através dos reality shows, jogos pseudo-interativos, simulações de situações sociais, produção de narrativas oriundas das múltiplas redes sociais.

Ora, será que existe forma mais sofisticada de controle do que esta? Será que a arquitetura da internet não seria exatamente o diagrama contemporâneo de controle? Com uma perversidade a mais: agora, ao contrário da sociedade disciplinar (que vai mais ou menos do século XVIII até o fim da II Guerra), a vigilância não é mais coercitiva, não se dá mais de fora para dentro, mas é consentida e desejada, e ocorre de dentro para fora. Ou seja, eu coloco a câmera na minha casa e abro a transmissão para o mundo todo me ver; eu abro o meu blog e despejo o meu mundo interior; eu me subdivido em várias personas e distribuo as minhas várias subjetividades nas “redes sociais”.

Diante do que se convencionou chamar de Web 2.0 muitos preferem destacar o seu caráter participativo, seus ideais coletivistas, suas redes socais. Saiu um texto recente na famosa revista Wired onde o editor Kevin Kelly dizia que um novo socialismo e uma nova sociedade coletivista global estava nascendo graças à internet [7]. Socialismo graças à internet? Será que é isso que está se configurando na Rede?

Já outros definem o fenômeno como outra bolha fraudulenta desenhada para distrair investidores com novidades, algo como a MacDonald’s, que a cada seis meses modifica as camadas dos seus sanduíches para lançar um novo produto, para usar uma imagem do pesquisador Trebor Sholtz. O mesmo se dá em relação aos blogs: para alguns, os blogs são ferramentas que transformam o mero leitor passivo em produtor ativo de conteúdo, inclusive jornalístico. Já para outros críticos, talvez os blogs não tenham tanta afinidade assim com o universo informacional. Para eles, ao invés de focar na qualidade do conteúdo ou mesmo na cultura da escrita e na reflexão, os blogs transformaram-se numa corrida, como diz Geert Lovink, pela “máxima atenção a qualquer custo, medida a partir de links e número de amigos”. Enfim, como todo fenômeno na fronteira entre comunicação e tecnologia, ora estamos numa onda de otimismo, ora mergulhamos no pessimismo mais profundo.

Vejamos a Wikipédia, projeto que nasceu com a esperança de ser a maior enciclopédia coletiva do planeta, e talvez seja exatamente isso. O artista Wayne Clements criou o projeto “Logo_Wiki” [8] que cataloga algumas das instituições envolvidas na edição das páginas da Wikipedia para revelar como esses organismos manipulam as informações da enciclopédia coletiva. Em seu catálogo podemos encontrar:

Department of Veterans Affairs
Department of Homeland Security
U.S. House of Representatives
The Boeing Company
General Motors Corporation
U.S. Department of Defence
Australian Department of Defence
Pentagon
HKSAR Government
Exxon Mobil Corporation
Dell
Amazon
Unilever
Johnson and Johnson
General Electric Company
Goldman Sachs
MetLife
Wells Fargo
GlaxoSmithKline
NASA
Deutsche Bank
IBM
U.S. Air Force
Bank of America
Raytheon Company
U.S. Environmental Protection Agency
Performance Systems International Inc.
Shell Oil
UK Cabinet Office Intranet
UK Parliament
Microsoft
Merrill Lynch
Royal Bank of Scotland
ROLLS-ROYCE
Bank of New York Mellon
Morgan Stanley Group
AIG

Quanto ao Google nem se fala. Se a civilização ocidental já não conseguia partir da realidade para emitir algum conceito, a coisa se complicou. Agora o indivíduo parte dos achados do Google, aceita sem grandes resistências os seus resultados e dá sentido e significado à vida através deste buscador único, parcial e limitado.

Assim como pesquisadores como Greg Venter querem montar um banco de dados do maior número de formas de vida, sintéticas ou não, o Google tem a mesma paranóia hegemônica em relação às informação que circulam pelo planeta.

Tudo tem que ser visto agora, na hora. Como se isso fosse uma vantagem extraordinária. Essa é a essência do jornalismo contemporâneo. O grande pressuposto hegemônico da nossa cultura está na instantaneidade do acesso. É uma ilusão, profundamente assentada na tirania do AQUI e AGORA.

Qualquer semelhança com o Twitter não é mera coincidência. Aliás, o criador do Twitter disse uma frase interessante: “O Twitter é aquele tipo de coisa de que ninguém sabia que precisava até começar a usá-lo”. Que legal!!! É outro modo de dizer o seguinte: Vivemos na tirania do tempo real e eu descobri uma forma de criar uma demanda, de criar um hábito que prende as pessoas umas a urgência do tempo real das outras… Nasce assim o que eu chamo de A GRANDE MARCHA dos seguidores digitais. Pra quê e por quê um segue o outro não se sabe exatamente, mas a saga continua… E assim gira a grande roda das informações em tempo real.

Ora, é claro que não se trata de demonizar ou de simplesmente não usar essas ferramentas, mas um projeto contra-hegemônico não pode desconsiderar essas questões, sob pena de achar que está criando o socialismo na rede, mas, ao contrário, está alimentando a pior forma de mais-valia informacional…

E aqui reside uma questão fundamental. Que tipo de riqueza estamos criando em rede? Que tipo de valor? Qual a relação entre o que se cria em rede e a economia real? Será que a tecnologia e o trabalho intelectual não estão pondo em prática uma espécie de parasitismo da produção real? Será que não estamos assistindo a uma espécie de redistribuição da energia material e da mais-valia econômica nas redes sociais?

Uma certa vertente da cultura digital acredita que a internet seja livre de qualquer forma de exploração e que tenda naturalmente para uma forma de equilíbrio social e de redistribuicão da inteligência coletiva. Segundo o pesquisador italiano Matteo Pasquinelli, trata-se aqui de uma espécie de política desencarnada que não tem consciência da força de trabalho offline necessária para sustentar o trabalho online. Além disso, ecologicamente, essa mesma vertente imaterial imagina que o computador é uma espécie de máquina limpa que quase não gasta energia. Nicholas Carr comprovou que um avatar do Second Life, brincadeira virtual que ainda faz um certo sucesso na rede, consome mais eletricidade do que um cidadão brasileiro.

Mas como a economia digital extrai mais-valia?

Os produtores de conteúdo na rede, nós mesmos, na maioria das vezes, não recebemos nada do que foi arrecadado dessa produção. Companhias como a Google é que arrecadam graças à economia da atenção produzidas pelos serviços como Adsense [9] e Adwords [10]. O Google e seus sofisticados algoritmos, se infiltra como um parasita para extrair proveito sem produzir nenhum conteúdo e os programadores do Google são pagos com ações para que depois desenvolvam algoritmos ainda mais sofisticados.

Como se vê, a relação entre o material e o imaterial é uma das mais importantes dessa nossa discussão, porque diz respeito aos efeitos da nossa mobilização em rede sobre o real. Parece claro que os projetos contra-hegemônicos em rede mais sofisticados são aqueles que conseguem relacionar o virtual com o atual, transformando o virtual num lugar de ação política concreta que devolve a sua mobilização para o movimento social.

Projetos como Wiki Leaks (observatoriodefavelas.org.br … /index.php) são todos ótimos exemplos de uma relação rica entre cultura digital e ação política.
Entre a cultura digital e a realidade social.

Um outro bom exemplo foi a ação fantástica do coletivo midiativista The Yes Men (theyesmen.org/), para lembrar o acidente ecológico em Bophal, na Índia, de 1984. Enganaram os produtores da BBC Internacional, e fazendo-se passar por porta-vozes da empresa Dow Chemical, deram uma entrevista ao vivo durante oito minutos e anunciaram um plano de 12 bilhões de dólares para finalmente compensar as vítimas, incluindo as 120 mil pessoas que poderiam precisar de ajuda médica vitalícia. Imediatamente as ações da Dow Chemical caíram 3,4% na Bolsa de Frankfurt e 5 centavos de dólar na Bolsa de Nova Iorque.

A ação entrou para a história do midiativismo porque não se trata de uma brincadeira articulada por garotos desocupados. É ação política direta que atuou no coração do sistema capitalista corporativo.

A título de brincadeira, e já para ir encerrando, sugiro àqueles que estão cansados de administrarem suas contas em tantas redes sociais, que entrem num destes dois sites: Um é o Máquina Suicida Web 2.0. O site é o http://suicidemachine.org/
Ele ajuda a eliminar o perfil do internauta de uma lista de redes sociais. Seu slogan é: “Você quer a sua vida de volta?” O site é hilariante, não deixem de entrar. O outro é o Seppukoo.com (seppukoo.com/), que propõe um suicídio coletivo das redes sociais. Uma apresentação inicial esclarece quais as suas intenções: “Descubra o que há além do Facebook. Nós cuidamos do seu suicídio. Você é mais do que a sua identidade virtual. Impressione o seus amigos, Desconecte-se…” Trata-se, como se vê, de um genial harakiri virtual.

Quando estamos jogando no campo do inimigo e está tudo dominado, às vezes não basta usar as armas do outro a nossos favor. É preciso ir um pouco além. E nesse caso, acho que devemos seguir a premonição do escritor modernista Oswald de Andrade, quando disse que “só a antropofagia” nos une. Isso significa que talvez seja necessário canibalizar aspectos do sistema, deglutir o inimigo. E entre os índios brasileiros, a antropofagia somente acontecia quando o inimigo era forte e digno, sendo uma forma de absorver o que o outro tinha de bom. Eis uma grande metáfora para o uso da rede. Não reproduzir o sistema, absorver o que eventualmente ele tem de melhor e fazer sempre uma leitura crítica da tecnologia digital regada com muito bom-humor…

Até porque o site Seppukoo.com parece ter razão numa coisa: Não há morte onde não há vida.

Muito obrigado!

[1] A íntegra do texto pode ser lida aqui:
http://super.abril.com.br/tecnologia/lugar…et-494435.shtml

[2] Viveiros de Castro discorreu sobre este assunto durante uma entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo, sob o título “O legado de Deus, publicada no Caderno Mais! em 21 de agosto de 2005.

[3] Walter Benjamim escreveu um texto chamado “O Capitalismo como Religião”, cuja resenha de Michael Lowi pode ser lida aqui:
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/ind…ile/33501/32657

[4] O filósofo Nelson Brissac Peixoto falou destas obssessões durante palestra que pode ser vista na íntegra aqui:
http://www.cpflcultura.com.br/site/2008/12…redes-digitais/

[5] CAPRA, Frtijof. “Vivendo Redes”. Fábio Duarte, Carlos Quandt, Quela Souza (org.) O Tempo das Redes. São Paulo, Editora Perspectiva, 2008. Pág.18.

[6] A este respeito ver entrevista de Ivana Bentes sobre o caso da menina Maysa do SBT aqui:
http://www.trezentos.blog.br/?p=1567

[7] O texto The New Socialism: Global Collectivist Society Is Coming Online pode ser lido aqui:
http://www.wired.com/culture/culturereview…ep_newsocialism

[8] http://www.in-vacua.com/logo_wiki.html

[9] O Google AdSense é um programa gratuito que permite que editores on-line gerem receita exibindo anúncios relevantes em uma ampla variedade de conteúdo on-line.

[10] AdWords é um serviço Google que consiste em anúncios em forma de links encontrados principalmente nos sites de busca relacionados às palavras-chave que o internauta está procurando no motor de busca da página.

Caracas… vou imprimir pra ler… nem manual de SO é tão longo, hehehe