[LIVRO] Campos de Sangue

[center]Campos de Sangue

ou

A Guerra que não foi[/align]

[center]As Crônicas dos Duzentos[/align]

[center]Prólogo[/align]

[font=Palatino Linotype][size=135][justify]Dedico este livro à todos os duzentos homens, camaradas e companheiros, que partiram na primeira expedição militar Gesebiana, suas famílias e seus amigos. O seu sacrifício não ficará esquecido. As suas histórias não serão perdidas. O povo de Gesébia há de se lembrar dos bravos soldados que participaram do maior combate realizado por tropas do Império, unidas. O fardo de sangue e morte não será carregado pelos veteranos unicamente, mas será conhecido e louvado por todos, e seus nomes ecoarão nos corações de todos os patriotas de nossa Nação. Daqui a cem anos, ainda cantarão os seus feitos por toda Gesébia.

Constarão nesse livro os relatos em primeira mão de Joseph Henry d’Athennie, comandante de uma companhia durante a Guerra dos Ciganos. Recomenda-se cautela. Guerras nunca são bonitas.[/align][/size]

[center]Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

(Cruz e Souza)[/font][/align]
[hr]

[offtopic]Espaço reservado para o off[/offtopic]

[justify][font=Palatino Linotype]Capítulo I - A Preparação

[size=115][i]“Caro Grande Almirante, recebi informações de nosso Imperador de que um grupo de ciganos está agindo de forma violenta contra nossos cidadãos; repasso para o senhor a missão da repressão do mesmo.”

[right]Julio Cesar Prudente de Morais[/align][/i][/size]

[size=125]O ano era 1890, e a coroa do Império ainda repousava sobre a cabeça de Stephano. Aliás, a coroa acabara de repousar novamente sobre a cabeça do Imperador, após a frustrada tentativa de sublevação da Comuna de Gardenne, orquestrada pelo Visconde Biller. Gardenne estava em reconstrução moral. Todos que presenciaram a revolta republicana estiveram tensos com a possibilidade de uma Guerra Civil se iniciar. Contudo, houve apenas alguns disparos, com a revolta sendo rapidamente contida pela presença do Imperador. A tensão na cidade era algo que podia ser tocado. Tamanha tensão, unida ao sentimento patriótico, com o retorno do Imperador, e o álcool, vinha a discussão sobre batalhas. A Intentona Odinista fazia aniversário, e ninguém se recordava de guerras. Coisas do passado, apenas. Falar de batalhas era falar de um tempo que não voltaria mais, de algo glorioso, dos livros de história. Falar de homens honrados, que lideravam batalhões de homens em defesa de ideais, em defesa da sua consciência. A saudade da batalha se entranhou no sentimento nacional de tal forma que era costume existir discussões, em bares, e, principalmente, como toda boa discussão da aristocracia, na Les Amis, sobre a Intentona; veteranos contavam sua versão, eram questionados pelos mais jovens, e todos relembravam o ocorrido com satisfação. Sentia-se que a guerra havia mudado a nação, que a tornara melhor, mais unida, mais forte. Que, após resolverem suas diferenças com sangue, todos os Gesebianos poderiam sentar lado a lado como verdadeiros irmãos, como compatriotas em busca da melhoria de todos.

E na primeira chamada de batalha, todos se dispuseram. Havia notícias, no Almirantado, de um grupo de ciganos que atravessaram as Montanhas Dracônia ao norte, e que talvez fosse necessária uma intervenção militar. E esse talvez foi imediatamente interpretado como um chamado para a guerra, por todos. O Imperador convocou o Juiz Imperial para uma reunião, onde ambos julgaram que, sim, haveria de se mandar uma expedição para a destruição do acampamento cigano que se formava, e que o Almirantado deveria ser responsável pela organização de tal força. O Grande-Almirante, Jean Lamarck de Knight, Conde do Piemonte, que estava em Dunnord, após o ataque contra uma tentativa de golpe pelo revolucionário frustrado Hitler, que teve quatro tentativas de sublevação republicana, assumiu o comando das tropas, e a mera possibilidade de lutar ao lado de um veterano da Intentona atraiu rapidamente a atenção de muitos jovens, que abanavam bandeiras de Gesébia nas janelas de casa, clamando pelas cabeças dos líderes dos invasores, justiça aos Gesebianos atacados e vendo a sua frente uma possibilidade de retorno à glória das batalhas passadas.

E nesse clima de fervor patriótico, nasceu a expedição. Duzentos homens, provindos dos Fuzileiros da I Brigada partiram de Gardenne, aplaudidos e saudados pelo povo, em direção à Campos Noroeste, a localidade na qual os ciganos se instalaram. Junto à Piemonte, haviam outros quatro homens: Sir Allan, regente da Romania; Sir Victor Medeiros, Presidente do Senado; Sir Tiberius Von Braun e Sir Henry d’Athennie, Senadores do Império. Eram homens da política, mais acostumados à campos de discussões, nos Plenários, do que ao Campo de Batalha. Armados com rifles e roupas de oficiais, acreditavam que a repressão aos ciganos seria algo simples, rápido. E, tendo isso como objetivo, aos catorze dias do mês de Junho, marcharam da cidade de Gardenne em direção aos Campos Noroeste.

Aos dezoito dias do mês de Junho, a expedição estava acampada em Campos Noroeste. Homens poliam os rifles, ajeitavam os uniformes azuis-escuros, faziam qualquer coisa para matar o tempo. Eles queriam atirar em alguma coisa. Grande parte dos Fuzileiros não tomou parte durante a Revolta de Gardenne, e sentiam-se mal por isso. Queriam ter atirado na multidão, feito algo, defendido o Império, naquela ocasião. Podia-se sentir a ansiedade no ar, formando uma grossa névoa. No Quartel-General, os cinco comandantes discutiam o ataque. D’Athennie acabara de chegar na barraca, e Piemonte o punha a par de toda a situação, dos homens que comandaria, e das ordens que ele recebera. Deveria eliminar os ciganos de Gesébia, qualquer que fosse o custo. A população estava extasiada com a batalha. Não aceitariam nada menos do que a cabeça do líder dos ciganos em cima de uma lança, enquanto o destacamento vitorioso marcharia pela cidade. Precisaria de uma vitória rápida, preferencialmente que pudesse ser escrita como notícia do jornal da outra semana.

Isso era o que todos esperavam. A realidade seria bem diferente.

Os soldados podiam avistar Andorinhas circundando os céus do pequeno vilarejo, que cantavam alegremente. Athennie, contudo, manteve seu foco em um corvo solitário, que voava ao longe. Enquanto o avistava, calafrios desciam pela sua espinha. [/size][/font][/align]

[justify][font=Palatino Linotype]Capítulo II - O Acampamento

[size=115][i]“Mantenham se distantes daqui, e evitaremos uma possível guerra; ataquem esse acampamento, e o inferno cairá sobre Gesébia.”

[right]Líder Cigano[/align][/i]

Na manhã do dia seguinte, o conselho de Guerra do Conde do Piemonte estava reunido; o comandante havia decidido que tentaria terminar a invasão de forma pacífica, enviando d’Athennie com uma proposta de rendição ao Líder dos Ciganos. Ele aceitou sem titubear. Haveria a possibilidade de, mesmo que não houvesse acordo com os invasores, um dos homens enviados juntamente com a comitiva desenhar um mapa do Acampamento dos Ciganos, facilitando em muito o planejamento do ataque, caso fosse necessário. Piemonte contava com isso, e aguardava a volta de Henry ansiosamente. Qualquer das possibilidades haveria de acarretar uma boa notícia. Caso houvesse a rendição, a missão estaria concluída, e voltariam para Gardenne triunfantes. Caso eles preferissem a luta à rendição, as tropas imperiais atacariam, a vitória seria certa, e voltariam para Gardenne triunfantes. Enquanto o Grande-Almirante contava suas tropas, imaginando o tamanho da “Horda Cigana” que vinha assolando a região, Henry iniciou a cavalgada até o Acampamento, com uma escolta de trinta Lanceiros de La Luna, que, antes do sumiço repentino da Duquesa, faziam a guarda do Palácio.

E após algum tempo de cavalgada pelas pradarias verdes e inóspitas do noroeste da Gardennia, a comitiva finalmente alcançou o famigerado Acampamento. E ele surpreendera a todos. Henry tinha, em seus devaneios, a ideia de que o acampamento fosse de duas formas: ou seria cercado por uma enorme paliçada, com atalaias de vigia, no mesmo estilo dos castelos de terra e madeira medievais; ou seria um acampamento descoberto, com cabanas ao relento em um morro ou uma planície. Era uma mistura dos dois. A primeira vista, pareceria que o acampamento fosse completamente desprotegido, pois as únicas construções aparentes eram os quatro atalaias mal e parcamente posicionados em quatro direções e as cabanas, além, claro de uma construção principal, ao centro, com uma torre de vigia própria, pouco mais alta que as outras. Contudo, um olhar mais observador notaria que, formando uma forma grotescamente esférica, ao redor do acampamento, havia uma vala grande e profunda cercando-o, repleta de estacas no fundo. Uma armadilha inteligente, e que, caso o Conde resolvesse iniciar o ataque prematuramente, teria funcionado perfeitamente, surpreendendo a todos.

Os cavaleiros pararam, ao seu sinal, em um morro próximo ao acampamento. Podia-se ter uma visão ampla, de todos os arredores, e uma possível retirada, caso as negociações dessem errado, seria facilitada pelo posicionamento. Um dos homens desfraldou um pano branco, que foi imediatamente reconhecido pelos sentinelas do acampamento. Algum tempo depois, um homem alto, com aparência suja, cabelos e barba sebosos e roupas em trapos saiu da cabana principal, carregando uma bandeira branca consigo, e dirigiu-se até a comitiva Imperial. Henry supôs que seria o Líder dos Ciganos, um homem que, pelo visto, fazia jus à fama de seu povo. O bárbaro aproximou-se, cravou a bandeira ao chão, e bradou:

- O que os invasores querem tratar com o meu povo?

Ao passo que o comandante Athennie respondeu:

- Creio que os invasores são vocês, meu caro - disse, aproximando-se e entregando uma carta ao cigano - Estes são os termos da sua rendição às tropas do Império de Gesébia. Dar-vos-eis livre passagem até além das Montanhas Dracônia, com um prazo de um dia para a total retirada do Território do Império.

O homenzarrão leu o papel, riu, amassou-o e arremessou-o na direção de Henry, e completou:

- Diga para quem enviou isso que essa agora é a nossa região; aqui não faz mais parte de Gesébia. Nossos termos são esses: mantenham se distantes daqui, e evitaremos uma possível guerra; ataquem esse acampamento, e o inferno cairá sobre Gesébia.

Henry pegou a carta, fitando o líder, que já havia partido para o acampamento, dizendo, logo:

- Você se arrependerá de sua decisão.

E ele realmente haveria de se arrepender. Guerras sempre deixam arrependimentos. O comandante convocou os cavaleiros e iniciou o retorno ao acampamento Imperial. O suboficial Armand, um de seus comandados, havia feito, às pressas, um mapa da aldeia cigana, e, por isso, a ida não seria totalmente desperdiçada. Algumas vidas seriam poupadas, do lado Imperial, pelos conhecimentos do terreno e pelo melhor planejamento. Com certeza, o Conde do Piemonte estaria orgulhoso de seu hábil estratagema. Henry, porém, não pensava mais nisso. Desde que saíra do acampamento Cigano, uma imagem não deixava sua cabeça. Enquanto o Líder Cigano ameaçava as tropas Imperiais, na aldeia, duas crianças se digladiavam com espadas de madeira.
[/size][/font][/align]

[justify][font=Palatino Linotype]Capítulo III - O Ataque

[size=115][i]“Vamos dar um fim a esses Malditos! Pelo Império, Avante!”

[right]Jean-Baptiste Lamarck de Knight, 1º Conde do Piemonte[/align][/i]

Após a chegada de Henry, a tenda de comando ficou um alvoroço. Todos queriam dar opiniões, fazer planos. Tudo para terminarem rapidamente com a ameaça cigana. Haviam todos os tipos de planos de batalha. Uns focavam no fosso, outros nos atalaias. Outros até diziam que seria mais fácil realizar um cerco, ideia que foi prontamente descartada. Um cerco seria caro e demorado, e os comandantes do exército Imperial preferiam perder vidas à perderem tempo ou dinheiro. A vitória era de extrema necessidade, e deveria vir o quanto antes. O Imperador contava com isso, e Piemonte não queria decepcioná-lo de maneira alguma. Então, após muito debaterem, chegaram à decisão final: Sir Allan atacaria, com alguns soldados, na calada da madrugada. O seu objetivo principal seria incendiar as barracas dos ciganos, e, se possível, destruir o armazém das munições. Logo após, as outras companhias atacariam, na melhor das hipóteses, um inimigo assustado e completamente desorganizado. Piemonte ria consigo mesmo, aceitando como fato consumado a genialidade de seu plano e a certeza da vitória fácil que as tropas Imperiais teriam, na noite seguinte noite. Todos os comandantes, unidos na barraca de comando, festejavam e bebiam, juntos, e aguardavam ansiosamente a batalha que ocorreria no dia seguinte.

Mas a história nos ensina que nenhum plano de batalha sobrevive ao primeiro contato com o inimigo. Mal saíram as tropas do Acampamento Imperial, desceu sobre todos, como se numa premonição do dia por vir, um ar de aflição. Marcharam por algum tempo, até chegarem próximo às elevações que circundavam os ciganos, e esperaram. Henry dividiu seus homens em duas meia-companhias, uma sob seu comando e outra sob comando do Tenente Wilhelm, um filho de alemães nascido na Gardenha, e ordenou aos homens que esperassem, procurando se esconder da vista do inimigo, camuflando-se nas extensas pradarias do Noroeste Gardenhano. E, no intervalo de tempo que dispunha, enquanto aguardava seu momento de juntar-se à luta, pode observar o ataque de Sir Allan. Uma empreitada suicida, louca. E que estava em andamento.

O Regente, seguido de perto por dez dos melhores homens do exército Imperial, esgueirava pela mata alta até próximo ao atalaia grotescamente posicionado ao norte. O que seguiu foi algo digno dos mais inacreditáveis romances medievais. Dois membros do cortejo de Allan mataram o par de vigias ciganos que estava na torre, subindo, logo após, nela, permanecendo de guarda. O comandante e os outros oito seguiram, com os rifles em uma mão e tochas embebidas em óleo na outra, para o coração do acampamento inimigo. Quando estavam próximos das barracas inimigas, acenderam todas as tochas, e começaram a correr pelo acampamento, acendendo as barracas com seus ocupantes, adormecidos, dentro delas. O caos tomou conta do grupamento cigano. Vários homens, e várias mulheres, tentavam inutilmente apagar as chamas das barracas. Queimavam-se bens de valor, roupas, pessoas, tudo que haviam juntado por gerações era dizimado pelo calor infernal do fogo. Apesar de distante, um dos subordinados do Romaniano arremessou sua tocha no armazém central, que, não sabia ele, continha toda a munição dos selvagens. Uma enorme explosão pôde ser ouvida, e confundira e desesperara ainda mais os ciganos, que inutilmente lutavam simultaneamente contra as tropas Imperiais e contra o fogo.

Aproveitando a oportunidade, Sir Allan iniciou a retirada de seus homens pela passagem Norte do fosso. Contudo, quando estavam na ponte de terra, estacaram ao virem duas figuras pequenas, cravadas em cima de lanças. Eram os dois sentinelas que haviam deixado no Atalaia, mortos, provavelmente, por um contra-ataque cigano. O Regente, recobrando-se do choque, ordenou para que seus homens continuassem a retirada até as forças Imperiais, para que o ataque total pudesse ter início. E rapidamente foram impedidos por um círculo de ciganos armados, e, entre eles, Henry pôde reconhecer, estava o líder dos Ciganos, que pouco tempo atrás recusara aceitar a rendição de seu povo. Os Imperiais abaixaram as armas, e os comandantes de ambos os lados trocaram algumas palavras. Athennie estava distante demais para entendê-las, mas entendeu imediatamente que a situação de Allan era desesperadora. E o comandante Gesebiano bradou tão alto, que as suas palavras ecoaram pelos campos da Gardenha: [/size]

- Eu o desafio para um combate singular![/font][/align]

[justify][font=Palatino Linotype]Capítulo IV - O Duelo

[size=115][i]“Nós iremos resistir!”

[right]Filho do Líder Cigano[/align][/i]

Sir Allan permanecia com a sua espada desembainhada, pronto para a morte. Observando ao longe, Henry sabia que, se o cigano fosse minimamente esperto, ou desejasse a vitória, recusaria imediatamente o combate e atiraria no Regente sem dó nem piedade, e o esforço de seu grupo teria sido em vão. Todos observavam, imóveis, a resolução do conflito. Em um breve momento de lucidez, o comandante piemontês ordenou que sua meia companhia avançasse, alguns passos, sorrateiramente e agachados, tentando não fazer nenhum barulho, juntamente com a do Tenente Wilhelm, para que, caso o pior acontecesse, estivessem próximos ao acampamento. Os segundos pareciam horas, enquanto os dois homens se estudavam. O grande bárbaro, de cabelo e barba igualmente longos e grisalhos, mantinha a palma da mão sobre o pomo da espada. O romaniano mantinha-se sério, com a espada em riste, desafiando o seu adversário. Os outros Imperiais apenas observavam aterrorizados a cena macabra em suas frentes. Os companheiros que, meia hora atrás, estavam vivos com eles, agora estavam desmembrados, descorporizados. Deus sabe o que os ciganos fizeram com eles antes da morte. Descansando acima das lanças sangrentas e rústicas dos ciganos, a expressão em suas faces incorpóreas era de absoluto terror.

O velho cigano encarava o romaniano. Desembainhou sua espada, uma dois gumes, de mão-e-meia, que pesava muito mais do que aparentava, e repousou sua ponta no chão; o duelo, que outrora não passava de uma tentativa de não perder a vida, estava se concretizando. Na face do Regente, o desespero se transformava em oportunidade. E foi quando um jovem cigano, de longos cabelos castanhos, barba rala e estatura mediana, interveio no combate entre os dois comandantes. Segurando o braço do gigante cigano, encarou-o friamente:

- Pai, não se renda. Mate esse tolo gesebiano! Nós iremos resistir!

Por sua vez, o Líder cigano pouco pensou na resposta. Tomado pelo espírito rebelde de cigano, e, principalmente, pela honra guerreira dos povos bárbaros, sabia que não poderia tomar outra opção. O seu destino era esse. Já havia sido escolhido desde o momento em que invadira Gesébia. Sabia que a luta contra os Imperiais era uma luta praticamente perdida. Mas, se morreria, haveria de levar aquele arrogante Gesebiano que lhe desafiara em sua frente. Não o respeitariam na outra vida, se recusasse um combate. Seria um servo. Empurrou seu filho para o lado, rudemente, dizendo:

-Cale-se idiota! - apontou sua espada para o homem à sua frente - eu aceito o combate.

Houve um curto espaço de tempo, onde ambos os adversários se estudaram, vendo quem hesitaria primeiro. Imobilidade esta que foi quebrada pelo cigano, que, ferozmente, partiu contra o Gesebiano, desferindo-lhe um golpe cruzado, de cima para baixo, prontamente esquivado pelo jovem capitão, que retribuiu com um golpe horizontal contra a perna do homenzarrão, defendido com uma leve virada de lâmina. Os dois combatentes eram proficientes na arte da espada, e, meio à procissão de chamas e gritos atormentadores vindos do acampamento, a dança de aço dos homens era uma cena quase romântica. O tinir das espadas se chocando era constante. Golpes aparados, esquivados, defletidos, era tudo que se ouvia. A guarda dos experientes soldados permanecia intacta, mas ambos arfavam nos intervalos. Vendo o cansaço de seu adversário, e sentindo que não poderia mais manter este ritmo por muito tempo, o cigano tentou uma investida final. Fingiu um corte de cima a baixo, direcionado para o ombro do Regente, mas, na metade do caminho, mudou-o para uma estocada que visava as suas entranhas. Fechou os olhos, esperando o contato com a carne. Sentiu apenas ar. O ágil gesebiano abaixou-se o mais rápido que pôde, escapando do golpe fatal, e estocou sua espada na garganta do Líder dos Ciganos, fazendo-o soltar um grito rouco, mais de surpresa do que de dor, antes de expirar. Retirou a espada, ungida pelo sangue do homem que havia desafiado todo o Império.

O corpo do cigano caiu com um estrondo no chão, e rapidamente formou-se uma poça de sangue ao seu redor, como uma auréola macabra. Sua barba e cabelo cinzentos arruivavam-se, tamanha a quantidade de sangue que vertia do pescoço do bárbaro. Embriagado pela cólera de ver seu pai morto em sua frente, o Jovem Cigano urrou de fúria, retirando uma pistola rudimentar do coldre preso à seu cinto, e atirou contra o Regente, que caiu sobre a sua vítima, gravemente ferido. Vendo as expressões de terror no rosto dos Gesebianos da companhia de Sir Allan, ele sorriu, e disse, exultante:

- Ciganos, irmãos! Matem-nos!

O grupo de dezesseis homens rapidamente cumpre suas ordens, derrubando a tiros todos os soldados Imperiais, para depois cortar-lhes a cabeça, expondo-as, cada uma em uma lança, como as dos outros dois que foram mortos mais cedo. Os ciganos o fizeram rapidamente e com gosto, numa orgia de morte e sangue. Quando viraram-se para Sir Allan, viam que ainda respirava, mas com dificuldade. Pegaram-no e jogaram seu corpo inerte para fora do Acampamento. Para eles, corajoso gesebiano fora covarde demais para morrer. [/size][/font][/align]