[Livro] Reinos Perdidos: Lar Perdido

[tab=30]Com a devida autorização dos membros do fórum que opinaram no chat, divulgarei meu primeiro livro (ainda sendo escrito).

[center]Primeiro concurso em que fui selecionado.[/align]
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[center]Índice:[/align]

[center]Capítulo I - A Fera
Capítulo II - A Caverna
Capítulo III - A Protetora
Capítulo IV - Raiva
Capítulo V - Fenda
Capítulo VI - Frustração
Capítulo VII - Isolada
Capítulo VIII – O Encontro[/align]

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[center]Capítulo I - A Fera[/align]

Abriu os olhos num susto. Ofegou contra o solo da mata e sentou-se com dificuldades. Ali viu a fera devorando um de seus companheiros. Os outros eram apenas pedaços espalhados pelo chão e pelas árvores. Enquanto punha-se de pé, segurando o choro e uma lança curta lembrou-se do que aconteceu:

"Estavam patrulhando a fronteira do reino dentro da Floresta Perdida, quando foram surpreendidos por um de seus companheiros sendo partido ao meio. Surpresos e apavorados, veem o aparecimento quase mágico de uma grande fera bípede. As pequenas escamas que recobriam o couro da fera vão, lentamente, revelando duas grandes e fortes pernas, um tronco robusto, braços desarmônicos ao corpo pela sua pequenez e, finalmente uma cabeçorra repleta de grandes e afiados dentes. De onde escorria o sangue quente do último abate.

Antes de a fera virar-se para o próximo alvo, foi golpeada por vários dardos. Poucos sangraram-na. Mais um foi morto, com um só golpe. Outro foi jogado longe, contra uma árvore, pela poderosa cauda da criatura. O corpo já voara sem vida.

O líder girou sua corrente e, mirando na face da criatura, golpeou-a com eficiência. Eficiente, também, foi o giro da fera que derrubou a vida do líder e as esperanças do grupo.

O que se seguiu foi um misto de pavor, coragem desesperada, e morte."

Tepilt, agora de pé, começou a correr na direção contrária à da criatura. “Seus companheiros não mais podiam ser salvos.” Pôs a lança em suas costas e tentou alçar voo. Caiu seco no chão e prontamente olhou para sua asa direita: o leve e poroso osso do úmero estava deformado. A dor da fratura lhe cumprimentou com um soco.

Dor ignorada, imediatamente, por um barulho vindo a alguns metros atrás de si. Era a criatura partindo em sua direção. Tepilt olhou com angústia para o caminho à sua frente. Correu como nunca sonhara correr e arremessou sua lança contra uma grande árvore. Pulou na arma que lhe serviu de apoio e alcançou o primeiro galho da frondosa árvore.

Deu mais alguns saltos e viu a enorme criatura passando sob suas pernas. Estava a salvo, mesmo que a criatura berrasse raivosamente, como se ofendida pela derrota.

Depois de alguns minutos, nos quais certificou a segurança da árvore e do galho que se sentaria, passou a olhar seu ferimento e só agora reparara na falta de algumas penas. A dor apresentou-se novamente e com um lembrete: sem um unguento a ferida inflamaria horrivelmente.

Tepilt foi cuidadoso ao retirar algumas ervas de seu cinto. Mastigou-as com paciência e aplicou na dolorosa ferida. Retirou um pano de seus pertences e conseguiu amarrar sua asa. Agarrou um pingente de prata e lembrou-se de sua casa e cantarolou uma canção:

"Vento do amor, em flauta (acompanhada ou não)

O dia passou e chegou ao seu fim

Como a primavera do meu coração

Ao te deixar partir como o vento

O bater de tuas asas afastou-te de mim

E levou junto meu coração

Queria ser veloz como o vento

E conseguir te alcançar

Ser livre e te prender

Num redemoinho de amor

Me colocaste numa gaiola

Toliu-me do lindo frescor

Da brisa suave do amanhecer

Deixou-me numa tempestade

Feroz como a solidão

Queria ser veloz como o vento

E conseguir te alcançar

Ser livre e te prender

Num redemoinho de amor

O inverno tomou-me

E não posso fugir

As árvores e os frutos morreram

E eu a eles me juntarei

Longe de ti"

Enquanto isso a noite chegava mansamente, ao som, não muito distante, do mastigar de carne e ossos.

Tepilt acordou e recebeu um olhar nada cortês de seu novo acompanhante de viagem. Pensou em como poderia despistar o monstro e voltar para casa. Olhou para os galhos mais altos da árvore e iniciou sua subida. Terminado o esforço fleumático, olhou para o horizonte à procura de alguma rota de fuga ou esconderijo. Viu um pequeno morro e o que, esperava, fosse uma caverna. Contudo ela ficava na direção oposta ao caminho que levaria ao seu lar. Era a única saída possível, pensou, não tinha o luxo da escolha. De qualquer maneira agora precisava de um plano.

Enquanto pensava, a fome lhe acometeu. Com certa dificuldade conjurou alguns frutos para si. Lhe alimentariam e recuperariam um pouco de sua saúde. Sabia, entretanto, que seu contato com a natureza não lhe era suficiente para restaurar o osso quebrado, apenas impediria uma inflamação e estancaria qualquer sangramento no local.

Conhecia, também, que nenhuma de suas magias funcionaria diretamente contra a criatura. Devia contar com sua grande destreza – agora reduzida – e perspicácia para não virar mais uma refeição para a fera.

Ao passar do dia, estudou os movimentos e hábitos daquele monstro enquanto seus dedos passavam pelo pingente de prata. – “Seus dois anos estudando monstros e mais monstros com o mestre Aaquor teriam que valer a pena. Pena! Minhas penas!”. – Olhou com tristeza para seu corpo e suas penas, todas estavam sujas e pequenos besourinhos já se aconchegavam entre elas. Passou a mão esquerda na tentativa de limpar-se. Não conseguiu o efeito esperado. Voltou o olhar para a fera e um plano, entretanto, lhe surgiu enquanto a noite chegava e o calor do sol se esvaía.

Pouco dormiu antes do amanhecer, ainda mais pelos grandes urros da fera durante a madrugada. O plano de fuga, todavia, estava concluído em sua mente.

Na manhã seguinte, Tepilt percebe que a criatura sumira. Embora ainda continuasse a senti-la. Naquele instante o desespero acometeu-lhe profundamente: ele sabia o que aquilo significava! E chorou.

Chorou até que somente a fome lhe fez parar. Precisava comer, embora isso não fosse o problema: a natureza permitia-lhe transformar, magicamente, raminho em frutos curativos. No entanto, essa cura não lhe restauraria a asa quebrada e, se ela ficasse assim por muito tempo, nunca mais poderia voar.

O dia passou e as cores laranja e rosa banhando o verde da floresta, Tepilt observa os pequenos pássaros e esquilos que se abrigavam por entre os galhos das árvores. A cena lhe clareou uma ideia, havia um jeito de fugir para a caverna. Havia esperança. Olhou para o pingente prateado, onde estava a figura de um corvo, a figura de sua amada. Ao pensar se poderia vê-la novamente não conseguiu segurar o choro. Adormeceu.

[center]Capítulo II - A Caverna[/align]

Tepilt acordou com o sol lhe aquecendo as penas. Levantou num susto com o coração disparado.

Fez uma oração a Aruk. Embora nunca fora religioso, sempre preferindo o simples contato com a natureza, não custaria dedicar dois minutos ao padroeiro de sua raça.

Comeu um fruto do dia anterior e, prontamente, começou a quebrar alguns galhos e a jogá-los no chão num círculo ao redor da árvore. Preparou a magia e desceu da árvore.

O barulho suave que suas garras fizeram ao tocar ao chão era contrastado pelo som que Tepilt ouvia de seu próprio coração! Os batimentos lhe acometiam como se fossem os tambores da cerimônia de iniciação dos Patrulheiros. O som quase lhe ensurdecia…

Respirou fundo e curvou-se, lentamente, quase agachando. Os olhos quase cerrados observando os galhos no chão à sua frente. Os ouvidos focavam nos sons que porventura proviessem de sua retaguarda. A lança às costas enquanto um pequeno dardo era segurado na mão útil.

Dilatou-se o tempo, não saberia se passou segundos ou vários minutos. Tepilt apenas sabia que aquele poderia ser seu último tempo em Lanir. Sua respiração estava, agora, suave. Quase sincronizada com a leve brisa que passeava pelas folhas das árvores.

Tudo foi silenciando… havia só o ar e depois o som do vácuo. Até que duas batidas úmidas e o som de uma bocarra se abrindo antecedem o som de galhos sendo quebrados.

Tepilt dá um salto para a esquerda, sentiu o bafo da criatura perto de si. Proferiu poucas palavras mágicas e atirou o dardo de sua mão contra onde, provavelmente, a fera estaria. Onde um pequeno dardo deveria ter acertado, apareceu diversos espinhos. Um grande urro encheu a floresta e um olho se esvaziava.

Tepilt correu freneticamente. Sabia que era morte certa tentar enfrentar a fera. Só conseguiu acertá-la por seu tempo de treinamento com Aaquor, que lhe ensinou a entender as forças e fraquezas de bestas e a como provocar mais dano. “Onde quer que aquele velho sem penas estivesse, eu lhe agradeço.”

Dezenas de metros foram percorridos por Tepilt quando a fera moveu-se furiosamente atrás do aviano. Rapidamente a fera ganhava terreno. Nada de furtividade ou sons abafados, agora a fera vinha em fúria e destruição. Arbustos e pequenas árvores eram derrubados.

O jovem aviano movia-se com graça e leveza, o terreno lhe era como um belo gramado. Os galhos, árvores e pedras lhe serviam como auxílio e não obstáculo. Metade do percurso já estava vencido.

Os tambores de seu coração ecoavam em uníssono. A segunda rodada contra a besta estava em curso. Olhou para trás e a fera, não mais invisível, se aproximava, diminuindo a distância entre eles em alguns metros. Pensou que não daria tempo para chegar à caverna. Viu algumas árvores mais robustas à sua esquerda e rumou para elas.

A fera o seguiu, se aproximando com fúria e fome. Estava sedenta por sangue e ossos. Tão sedenta que quase não consegue acompanhar a curva da pequena ave bípede por entre as árvores.

Curvas, cipós, mudanças de direção, arbustos e árvores parrudas permitiram que Tebilt despistasse a fera. Viu a caverna, pouco mais de cem metros à sua frente.

No caminho para a caverna viu alguns rastros e pelos que lhe indicavam que havia moradores na caverna: lobos.

“Bem, com isso terei que me preocupar quando enxergá-los.”

Antes que ele continuasse seu pensamento, foi atingido por garras e presas. Nada muito grave mas caiu e rolou no chão, aproveitando a força do movimento ficou em pé com a lança armada. Percebeu mais dois lobos atrás de si enquanto o primeiro lobo corria em sua direção.

Girou a lança pela frente e acima de sua cabeça. Fez um arco para trás e, assim, afastou os dois lobos em sua retaguarda, virou o corpo para que seu flanco esquerdo firmasse a lança e esticou a asa. A ponta da lança rasgou os pelos e a carne do pescoço, parando na escápula.

O pelo cinza misturou-se ao vermelho do sangue enquanto Tepilt tombou o lobo para o lado e cravou a lança na traqueia do lupino. Uma morte rápida e com pouca dor.

Virou para trás mas os dois lobos estavam amedrontados e fugiram rumo à caverna. Tepilt os seguiu.

A fera o seguiu.

A caverna virou abrigo para Tepilt antes que a fera o transformasse em refeição.

Tepilt se aconchegou num canto da caverna, onde podia olhar para os lobos e para a entrada. Os lobos eriçavam seus pelos a cada olhada de Tepilt, e se apertavam contra outro canto da pequena caverna.

A caverna possuía parcos metros para dentro da colina. Servia suficientemente de abrigo contra a criatura. No entanto, agora não teria como dormir por causa dos lobos. Precisava de outra solução.

Rugidos raivosos foram ouvidos por algumas horas. Até que um texugo adentrou a caverna, olhou para os lobos e olhou para o aviano. Ergueu o focinho e cheirou o ar. Sentiu o medo e o sangue. Olhou novamente para o aviano e pareceu cerrar o semblante.

Tepilt olhou para a criatura intrigado.

Viu a face fechada daquele bicho. Algo inédito para si.

E, mais inédito ainda, o texugo começou a crescer e, aparentemente, tornar-se bípede. A asa boa firmou a lança, pronto para revidar qualquer possível ataque.

O que seguiu-se, no entanto, foi a transformação de um animal peludo em uma criatura robusta, atarracada, pernas e braços ligeiramente curtos e sem grande mobilidade. A cabeça era pequena e levemente triangular. O pescoço, se existia, estava fundido no tronco encouraçado da ex-texugo.

Grandes e pesadas placas ósseas protegiam toda a criatura humanoide, especialmente a retaguarda. Ao final de tudo, uma cauda terminada numa densa e perigosíssima bolota óssea.

  • Sinto cheiro de morte e – a criatura olhou para os lobos – e medo. Qual é o motivo desse seu ataque aos seres abençoados por Selur?

  • Que-quem-quem é você? – o abalado aviano conseguiu perguntar.

  • Não importa quem eu sou. – as palavras saíam calmamente pela pequena boca – Importa quem foi e porquê tirou o hálito de Selur de criaturas imparciais?

  • Que criaturas? Do que você fala?

  • Dos lobos. – a impassividade na expressão e na voz despertaram Tepilt para o que ocorrera há não muito.

  • Me defendi apenas. Precisava entrar nesta caverna! Estou fugindo de de uma fera que exterminou meus companheiros.

  • Hummm, então esse cheiro de sangue e magia não vem de ti?

  • Não! Sim! Ah, depende. – confundiu-se Tepilt.

  • Como assim?

  • Se o cheiro de sangue é proveniente de um massacre. Então eu não fui o causador, fui uma das vítimas. – o aviano falava tentando decifrar alguma expressão naquele pequeno rosto quase pétreo - Se foi da morte de um lobo. Então a culpa é minha. Precisei matá-lo para poder me abrigar nesta caverna.

  • E o cheiro de magia? – a metamorfa começava a não considerá-lo uma ameaça à natureza.

  • O único tipo de magia que uso é o proveniente da natureza, com as bênçãos recebidas de Avruck e Vendira. – o nome dos deuses foi acompanhado de alguns sinais respeitosos com a asa esquerda.

  • Avruck e Vendira? Quem são esses? – o rabo da inquiridora passou a mover-se lentamente, fazendo com que Tepilt observa-se, só agora, a existência de um apêndice ósseo em forma de clava.

  • Avruck é o pai criador de nossa raça! – Tepilt disse isso num misto de surpresa e de um, poucas vezes sentido, orgulho. – É o grande Senhor do Céus, o Vento Libertador. Já Vendira é a deusa auxiliadora de Avruck. É ela que cuida de todas as criaturas infe…, das criaturas que não possuem a graça de Avruck para voar.

  • Pelo que me diz, Vendira é como seres como vocês chamam Selur! Hummm. E foram os lobos que lhe quebraram o braço? – Tepilt não percebeu mas havia uma pequena malícia na pergunta.

  • Não!!! Claro que não! Estou fugindo dessa fera que pode ficar invisível aos meus olhos e aos olhos de Avruck! Ela, essa besta maligna matou toda minha patrulha e só consegui sobreviver… – as palavras não saíram mais. O choro também não. Tepilt apenas parou e pensou em seus amigos e comandante morrendo e no barulho nojento dos ossos sendo triturados.

  • Ei! Ei! Acorda! O que aconteceu servo de Avruck? – Tolanle o chamou até o ponto de ter que sacudi-lo.

  • Hã!? Ah, me desculpe… estes dias sozinho. Depois do que ocorreu com meu pelotão de patrulha… Estou cansado. – Tepilt disse isso pesando-se sobre o chão. – Sugiro que se fizer algo contra mim, não se esqueça de escapar da grande Fera aí fora.

  • Não farei algo contra ti. Parece ser um servo de Selur. E eu, Tolanle, protejo a natureza e serei aliada de todos que também vivem em respeito às bênçãos de Mãe Natureza.

Tolante fez um gesto para que Tepilt falasse enquanto curou o aviano e os lobos, deu-lhes um pequeno roedor que havia pego duas horas atrás e fez uma fogueira na entrada da caverna.

Depois de ouvir Tepilt, a druida gesticulou algo e começou a uivar e a latir em diferentes tons. Os lobos responderam sobre o sumiço de presas e a chegada do “monstro que não se vê. Em como sua alcateia foi morta por este monstro. Como se abrigaram nesta caverna e como seu irmão mais velho foi morto pelo intruso com penas”.

Tolanle afagou os dois lobos e ergueu-se. Olhou novamente para Tepilt enquanto andou morosamente até a entrada da caverna. Usou todos seus sentidos. Não conseguiu ver nem ouvir algo, mas sentiu uma perturbação. Algo ali lhe inquietava, a criatura que provocou tanta desgraça não era uma das crias de Selur.

“Deve ser uma das aberrações do maléfico Rognatur. Terei que estar preparada amanhã.” Tolanle retornou ao fundo da caverna orando por sabedoria. Precisaria escolher bem quais dádiva pediria a Selur, nunca enfrentou alguma criatura desse tipo.

Finalmente peguei tempo para ler.

Eu não sou um leitor assíduo, e por isso minha autoridade crítica é limitada hehe

Se fosse pra resumir, eu gostei. O primeiro capítulo realmente me fez querer ler o segundo, mas ao final do segundo eu me desgastei um pouco. Acho, entretanto, que continuaria lendo se tivessem mais capítulos.

Pelo que entendi tu tá escrevendo capítulo por capítulo? Se esse for o caso, ainda vai ter muita correção pra fazer no final, o que vai enriquecer ainda mais a história.

Não é o tipo de livro que costumo ler, mas vou deixar minhas opiniões que podem muito bem estar erradas. Use-as como quiser.

  • Eu não gosto muito de pontos de exclamação em frases que não são ditas por um personagem. Talvez seja algo desse gênero literário, nesse caso acho que convém deixar.
  • Gostei da construção dos personagens, e de como descobrimos mais sobre eles no decorrer da história. Demorei pra notar que o personagem não tinha braços, e sim asas (certo?), mas não acho que isso seja um problema. A parte de “conjurar alguns frutos” poderia ser um pouco mais explicativa, eu fiquei me perguntando se o conjurar foi usado no sentido de “tirar do bolso” ou “catar na árvore”, apesar de mais tarde isso também ser esclarecido.
  • A história é contada rapidamente e em parágrafos curtos. Ou talvez só dê essa impressão porque estou lendo num post de fórum e não num livro hehe
  • Um pouco da minha natureza “nitpicky”, acho que essa parte"Correu como nunca sonhara correr e arremessou sua lança contra uma grande árvore. Pulou na arma que lhe serviu de apoio e alcançou o primeiro galho da frondosa árvore." ficaria melhor sem repetir árvore tão rapidamente. Grande árvore e frondosa árvore são muito semelhantes e eu esperava que demorassem mais para se repetirem. Mas de novo, sou meio exigente e não necessariamente faria diferente se fosse eu o escritor.
  • Algumas vírgulas extras também “Enquanto punha-se de pé, segurando o choro e uma lança curta, lembrou-se do que aconteceu” e umas a menos “Estavam patrulhando a fronteira do reino dentro da Floresta Perdida, quando foram surpreendidos por um de seus companheiros sendo partido ao meio.”.
  • A velocidade literária com que “rugidosforam ouvidos por alguma horas” se transforma em “um texugo entrou na caverna” me incomoda um pouco.
  • Gostei bastante da parte em que Telpilt descobre que a fera esta invisível, mas acho que poderia ser ainda mais claro para um leitor desavisado (a não ser que a ideia seja realmente manter isso um mistério até a conversa de Telpilt com o texugo. Acho que poderia ser algo como: “Na manhã seguinte, Tepilt percebe que a criatura sumira. Esquadrinhou os arbustos a procura dela mas não encontrou nada, embora ainda continuasse a senti-la muito próxima. Levou alguns segundos para que percebesse o que se passava, e naquele instante o desespero acometeu-lhe profundamente: ele sabia o que aquilo significava. E chorou.”
  • Eu acredito que bons escritores tem o dom de trazer os momentos para fora do livro. Eu não sou muito bom nisso, e acho que você também pode melhorar. Uma das coisas que acho que faltou foi explicação do ambiente da história. Sei que você está sendo breve por opção, mas esperava algo um pouco mais explicativo na parte em que Telpilt observa de cima da árvore e vê a caverna e na parte em que luta com os lobos.

De novo, a maioria desses pontos vem do que estou acostumado em ler e não exatamente esse gênero.

É tudo que lembrei de escrever agora hehe

Primeiro, muito obrigado Gmax. Não tens ideia de como isso me ajuda.

Leitor é leitor. Eu fico muito feliz que tenha tirado um tempo para criticar meu livro.

Sim, estou escrevendo capítulo por capítulo e tenho uns 7% do livro escrito. Escrevo, dou uma rápida revisão e publico. Não estou revisando criticamente.
Ou seja, ainda terá minha revisão. A revisão de uma consultora (sou assinante de uma empresa de “consultoria”, por assim dizer), a revisão dos leitores betas e a revisão do editor ou de um revisor.

:amor

Minha esposa tb não gosta do gênero. Então ela só lê de vez em quando.

Isso é vício de linguagem que eu tenho. Obrigado pelo toque, vou me atentar a isso.

Isso foi de propósito mesmo. Em momento algum eu falo qual é a raça do protagonista. Descrevo como ele é e, em partes. Isso é algo que descobri mestrando RPG. Os jogadores ficam meio loucos tentando entender qual monstro estão enfrentando. E quando eu entrego de cara qual é o monstro eles quase não se interessam.

Foi proposital. Tentei criar um clima de urgência, de perigo e de um pouco de ansiedade. Ele está fugindo de um monstro desconhecido, que ele não enxerga mas sente.

Anotado para revisão. :wink:

A primeira é um aposto, visto que é uma frase “explicativa” dentro da outra. Já a segunda frase está estranha mesmo…

É para ter uma quebra de ritmo mesmo. Acho, contudo, que não o fiz tão bem.

Boa dica. Anotado.

Anotado também.

O público-alvo é quem joga RPG e leitores de alta fantasia (Senhor dos Aneis e Nárnia). Tem certas coisas que esse público já sabe como funciona no mundo. Contudo, essa opção de escrita pode afastar eventuais leitores como você. É algo que debaterei com a consultora.

Novamente agradeço as críticas. Agora vou anotar os pontos para revisão. :cool

Ah sim, preciso dizer, gostei do estilo mais direto ao ponto do livro. Por mais que eu goste do Senhor dos Anéis e de conhecer o mundo criado por Tolkien, o livro é massante demais para mim algumas vezes. Nada muito importante acontece, mas muita coisa é escrita. Com o adendo que fiz de que gostaria de um pouco mais de ambientação no seu texto, eu gostei da história fluir mais rapidamente. Não acho que deva perder isso.

Também gostei do fato de que você está visivelmente criando coisas do seu imaginário, isso é muito mais interessante. E você acertou em começar o livro de cara com ação, já que é um desafio captar a atenção do leitor com vastas descrições.

Não sou crítico pra afirmar se teria como fazer melhor, nesse caso acho que vale opiniões divergentes hehe

Fico no aguardo por mais! Já tentei escrever quando adolescente, mas nunca terminei nada. Vou tentar acompanhar seu livro para ver o progresso hehe

Essa de começar com ação aprendi nesta empresa de “assessoria para escritores”. As duas, no máximo três, primeiras páginas devem atrair o leitor e mostrar para o quê o livro “veio”. Dar a cara da obra de primeira.

E essa história se passa no segundo continente de um mundo que criei. Daqui a algum tempo eu posto aqui as descrições que tenho pronta.

Bom, bom… realmente o andamento parece um GM mestrando, hehe… concordo com alguns pontos do GMax, mas como dissestes que ainda está apenas “semi-revisado”, não acho que seja extremamente pertinente agora.
Gostei da parte da aparição da druida, deixou o leitor com a sensação de “que raios tá acontecendo” que o personagem tbém deveria estar sentindo.
Não sei se é um gosto pessoal meu, mas gosto quando cenas de ação/combate são mais descritivas… mas isso é opção do autor.
Segue em frente, mestre!

Gostei dessa de parecer mesmo uma narrativa rpgística.

Se vc sentiu isso na parte da druida fico feliz em ter conseguido transmitir o que almejei para a cena.

Também prefiro cenas de luta mais detalhadas. Espero que eu consiga fazer isso…
Até agora só teve uma luta (Tepilt x lobo), as outras duas foram mais cenas de fuga mesmo.

[center]Capítulo III - A Protetora[/align]

A noite passou conturbada, a Fera rugia de tempos em tempos. A “matilha” formada e liderada por Tolanle pouco descansou e antes do raiar do levantaram. A druida usou da benção de Selur para falar com os lobos e explicar-lhes o que deveriam fazer. Além de acalmá-los. Depois explicou seu plano para Tepilt.

  • O plano que tenho em mente é este: eu lançarei luz do dia alguns metros à frente da caverna. Todos nós corremos para o lado direito da caverna, de onde eu vim. Tem um pequeno desfiladeiro onde poderemos nos proteger e recuperar o fôlego.

  • Para mim é mais distante ainda de casa. Preciso voltar para casa, para receber tratamento apropriado para poder voar novamente.

  • Você pode tentar voltar pelo caminho em que veio. Mas não poderei lhe proteger, além de não saber se há algum elemento natural do qual possamos nos utilizar contra a Fera.

Tepilt abaixou a cabeça em concordância. Não lhe agradara ir a um local que seu povo nunca se embrenhou. Se não fosse a Fera não haveria razão para se embrenhar mata adentro. Sua patrulha já ocorria nos limites do domínio de seu povo, os avianos.

  • Se a Fera nos perseguir – prosseguiu Tolanle – tenho preparado algumas magias de contensão. No entanto, sou lenta em minha forma natural e por isso me transformarei assim que sairmos da caverna. E devo me manter nesta forma o maior tempo possível pois só posso lançar magias quando não estou transformada.

  • E você não pode se transformar de novo após cada magia?

  • Poder, posso. Contudo somente uma vez. Então tenho que economizar esse recurso. Retomando. A forma que assumirei é mais rápida que você, portanto você deverá correr o mais rápido que conseguir e se quiser eu posso levar todo seu equipamento que não for essencial.

  • Meu equipamento? Não, não. Obrigado – a surpresa de Tepilt espantou Tolanle. Enquanto ela era acostumada a ajudar quem precisasse, ele sempre fora ensinado a se virar sozinho e a não depender de ninguém, exceto seus companheiros de armas. Mesmos estes também eram individualistas e desconfiados.

  • Entendi, druida! Deixe-me me arrumar e… estou pronto! Quando quiser.

Tolante apontou o local onde o aviano e os lobos deveriam ficar e prontamente lançou sua magia alguns metros a frente. O urro da criatura desconfortada com a luz repentina indicou a decisão acertada da druida e foi o estalo para a corrida de todos.

Os lobos partiram em plena disparada, seguidos por Tepilt. Tolanle demorou alguns segundos para completar sua transformação numa raposa. Pouco tempo depois os lobos mal podiam ser vistos por Tolanle e Tepilt, já que se embrenharam pela mata muitos metros à frente.

Tepilt ficava para trás quando o urro da Fera fez-se ouvir novamente. Passado o aturdimento, a criatura não titubeou em seguir atrás do pequeno grupo. Certo de que conseguiria alcança-los. Ao menos um deles.

Tepilt olhou para trás e depois na direção de Tolanle. Viu-a correndo muito à frente. Pensou que ele só estava servindo de isca para que ela escapasse com seus animaizinhos. Já soubera de alguns druidas que matavam até membros de sua própria raça para proteger pequenos animais ou até mesmo uma única árvore.

Sentiu-se traído, sentiu-se abandonado e o peso da solidão lhe fez perder o ritmo da corrida. Pensou que estava carregando peso demais e que poderia ter deixado sua lança e alguns de seus utensílios com a druida. Logo depois, no entanto, pensou que ao menos teria chance de lutar e machucar a Fera.

Em meio a esses pensamento não percebeu que não estava mais vendo mais nenhuma das criaturas. Embora, para a confirmação de seu temor, o barulho pesado dos passos da Fera lhe achegavam mais a seus ouvidos. Como se estivessem se sincronizando com as rápidas batidas de seu coração.

Precisou desviar de um pequeno agrupamento de árvores e arbustos que lhe bloqueavam o caminho. Enquanto calculava qual seria o momento certo para virar-se para trás e lançar magias e a lança utilizando-se de sua intuição, esperançoso de que a acertaria e atrasaria a temível Fera.

Ao concluir o contorno daqueles arbustos, contudo, quase trombou com Tolanle em sua forma original, de pé como uma rocha, com as atarracadas mãos estendidas apenas aguardando algum sinal do monstro.

O que não demorou. Um arbusto foi esmagado e Tolanle virou seus pulsos para cima, girou-os e fez um movimento de empurrar.

Tepilt olhou para trás e viu uma grande onda derrubando as árvores e algo que parecia uma criatura de uns três metros. Não conseguiu vê-la mas pode notar a resistência da água.

Tolanle também notou e, com um giro de corpo e dos braços, energias laranjas saíram do chão e prenderam o corpanzil da criatura. Fora possível distinguir as duas grossas e fortes patas traseira, a robusta cauda e a alongada mas forte cabeça pontuada por o que parecia grandes ossos.

A druida virou-se e correu sem se transformar, seu corpo atarracado e a concentração na magia de imobilização a faziam quase caminhar. Tepilt olhou para ela mas antes que houvesse qualquer reação correu tudo o que pôde. Até que ouviu o rugido da Fera soltando-se.

Estou revisando o que escrevi até agora observando os apontamentos que vocês e mais outras pessoas fizeram.

Eu estou achando muito bom! Ritmo abrupto e veloz, parágrafos concisos, privilégio de verbos em vez de adjetivos… É um tipo de escrita que aprecio, embora não goste do gênero fantasia.

O 3º capítulo certamente é o que mais me conduziu à narrativa até agora. Ali, na parte intermediária do capítulo, pude me identificar perfeitamente com os temores do protagonista acerca de uma possível traição. Refleti sobre qual conduta teria sido mais prudente. Conclusão: não sei dizer. E isso é bom, porque dá um caráter de imprevisibilidade à obra. Se o leitor tivesse a saída pra tudo, não teria graça; também precisa ser posto no labirinto.

Agora, tenho uma sugestão em relação ao estilo linguístico. Sei que o uso abundante da vírgula em detrimento do ponto final confere velocidade ao texto; todavia, às vezes isso atrapalha a compreensão do que foi dito, porque é introduzida uma frase sem relação de subordinação com a anterior, e eu, leitor, fico procurando a subordinação, relendo até perceber que ela não existe. Exemplo:

Num primeiro momento, pensei que a parte em negrito era uma descrição mais detalhada da ação constante da parte em itálico. Mas aí avistei novo verbo no indicativo e interrompi a leitura. Só então percebi que se tratava de uma nova ação, independente da anterior do ponto de vista gramatical.

Outra situação, agora inversa, que eu acho estranha, mas nada contra:

Me parece que a frase que está depois do ponto final é parte da frase que está antes do ponto, constituindo-se entre elas uma relação temporal. Aqui seria cabível uma simples vírgula, mas você utiliza ponto final. Tenho percebido esse emprego em diversas outras passagens, então creio se tratar mais de estilo que descuido. Mas é algo que distrai e, até mesmo, confunde o leitor.

Resumindo: no mérito, estou mais que satisfeito com a história. No âmbito formal, deixo as anotações acima

De fato, algumas frases acabam não se interligando como deveriam, mesmo a ação descrita sendo continuidade da anterior. Talvez, invés de ponto, quando não sendo um adendo, poderias usar ponto e virgula, quando for o caso de uma pequena pausa mas continuando a ação descrita. Talvez…
Enfim, estou gostando do andamento :slight_smile:

Só posso agradecer esses comentários e apontamentos.

Muito bom o capítulo!

Também concordo com os pontos do divilly e não poderia descrevê-los melhor do que ele fez.

[center]Capítulo IV – Raiva[/align]

[justify]Itzil andava pela floresta chutando alguns galhos e folhas. Estava com raiva de algo que não conseguia definir. Seus pés, com três dedos cada, não eram bons para chutar coisas pelo chão e logo um galho quebrado lhe cortou entre um dedo e outro.

Urrou de raiva! Não de dor, pois o corte foi pequeno que ele mal sentiu. A raiva lhe cortou muito mais.

Pegou o galho e furiosamente o quebrou em dois. Um deles pôs na boca com forma de cunha e mastigou, quebrando em vários pedaços. Ao mesmo tempo batia com a outra metade no chão e nas árvores ao redor.

Esfacelou as duas partes e viu que estava sangrando nas mãos e na boca. O choro foi empurrado de volta para dentro, só deixando o nó na garganta.

“Vou voltar lá e matar todos aqueles idiotas! Me expulsaram da tribo! Eu vou expulsar a tribo deles!!!”. – o pensamento foi acompanhado de um grito de desabafo.

  • AAAAAAAHHH.

Pequenos pássaros saíram das árvores próximas e alçaram voo pelo céu azul. Itzil caiu por terra. Suas asas membranosas ao largo do corpo inerte. Sua alma voltou ao dia em que foi expulso da tribo dos Ornissauros.

“Seu irmão de ninhada o chamou, novamente, de amaldiçoado e que ele só trazia vergonha para sua família e para a tribo: Um dia a desgraça que você irá trazer para nós será tão grande que não poupará ninguém. Você será o causador de todo sofrimento. Na verdade, você já é o culpado por tudo de ruim que nos acontece.

A raiva subia a cada palavra ouvida. Seus membros vibravam de ódio. Cresceu ouvindo os membros da tribo lhe chamando de maldito, abandonado pelos espíritos e escolhido pelos deuses malignos para ser um canal de destruição no mundo.

Seus pais não quiseram dar muita importância quando o xamã disse-lhes que Itzil, um pequeno filhote, só traria a desgraça para todos. Se esforçaram para educá-lo e amá-lo da melhor forma que podiam.

O mesmo, infelizmente, não poderia ser dito do restante da tribo, inclusive de quase todos seus irmãos. A qualquer incidente acontecido com alguém da tribo lhe imputavam a culpa, mesmo que nada fizesse.

Se alguém tropeçasse e ele estivesse por perto, prontamente impropérios e maldições lhe eram dirigidos. Parcas vezes ocorreu alguma briga ou algum contato mais hostil entretanto lembrava com dor e ódio o isolamento e os conselhos dados pelos adultos de que brigar com ele traria má sorte às demais crianças.

Desta vez, no entanto, não deixaria aquilo barato. As palavras malditas e os escárnios de todos não ficariam impunes. Seu irmão pagaria pelo que dizia.

O tremor parou!

Os sons, cores e sabores deixaram de existir.

Sentiu suas quatro garras direitas próximas à garganta de seu irmão. Que foi para trás, tonto, com a força do golpe. Itzil abriu seu braço esquerdo, permitindo que o ar passasse por baixo da membrana de sua asa, facilitando, assim, um pulo de ataque.

Chutou-o duas vezes com seus pés, perfurando o peito de seu irmão e o arremessando ao chão. Seus movimentos eram instintivos, não havia raciocínio.

Suas garras pingavam vermelhas, mas ele não viu isso!

Apenas via seu alvo apavorado no chão, se contorcendo de dor. Deveria resolver esse problema: pulou pronto para concluir o fratricídio.

Algo, no entanto, se chocou com ele no ar! Não percebeu o que era, apenas se livrou daquele corpo o jogando para o lado. Prontamente, ergueu-se. Sentiu algo batendo em seu corpo e caindo no chão.

Não fez qualquer esforço para entender o que o atacou. Caminhou em direção ao seu irmão que ainda rastejava apavorado.
Parecia que dois vultos tentavam ajudá-lo a erguer-se. Um outro vulto pôs-se à sua frente. Imediatamente Itzil pulou com ferocidade sobre o peito de seu conterrâneo, derrubando-o facilmente.

Itzil, impulsionado pela raiva cega e pelo embalo do golpe que acabara de dar, alça um pequeno e rápido voo. Agarra a perna de um outro vulto que voava em sua direção, arremessando-o para longe. O vulto bateu seco no chão e emitiu um grito abafado de dor por ter quebrado alguma coisa. Outro vulto teve seu movimento parado ainda no ar. Caiu ao chão apavorado.

Itzil posou a poucos centímetros de seu quase falecido irmão quando tudo escureceu. Itzil magicamente adormeceu.

  • …esses foram seus crimes. – a voz velha mas ainda firme do xamã parecia como trovoada. E se não bastasse a maldição que tempos atrás lançou sobre Itzil, agora lhe bania… – E por isso está banido deste lar e desta tribo por todo o restante de sua vida. Siga, para longe deste povo, seu caminho de “bloindblod”, ou seja, sangue fervido na língua dos nossos ancestrais.

Itzil olhou para o lado, viu sua mãe chorando, seu pai expressando desaprovação e pena. Caminhou até os dois, escoltado pelos mais experientes guerreiros, deixou, aos pés de sua mãe, um pequeno pingente de osso antes preso em sua tanga.
A corda em seus punhos foram puxadas e foi escoltado até longe da tribo. Ali foi solto e vigiado enquanto ia embora sem nada seu, exceto o pedaço de couro em que estava gravado as palavras de sua maldição.”

Itzil abriu os olhos secos. Já fazia algum tempo que isso tinha acontecido e não havia mais lágrimas a serem derramadas.
Viu o vento balançando as folhas verdes das árvores. Conseguia ver a beleza da natureza quando não estava em fúria. Respirou fundo, o ar entrou lentamente em suas narinas e o cheiro da floresta penetrou fundo em seus pulmões.

Ergueu seu tronco, ainda sentado em meio às folhas mortas da floresta, observou ao seu redor. Nem sua visão normal nem sua visão térmica identificaram qualquer animal de médio ou grande porte. Pequenos roedores, esquilos e passarinhos apenas.

Estranhou! Não podia ter sido ele a causar isso. Saltou e de pé se concentrou para ouvir algo. Pode ouvir um som distante mas nítido. Procurou algum espaço entre as árvores e alcançou os céus em direção ao som.

O som cada vez ficava mais nítido e Itzil percebeu se tratar dos urros de um predador caçando. O som ficou nítido antes mesmo que Itzil visse uma fenda na floresta.

Voou até a beirada da fenda e, do outro lado do precipício, viu os contornos parcamente quentes de uma criatura grande e bípede e que estava muito mal-humorada. “Alguém está pior que eu” pensou rindo-se.

Posou numa árvore próxima e procurou o motivo daquela criatura urrar tão ferozmente em direção à fenda. Em pouco instantes viu um ser atarracado e lento, contudo também era gracioso e belo. Viu junto da bela antropossaura um outro humanoide esguio coberto com penas e dois lobos.

Todos estavam próximos ao riacho que corria belamente pelo meio do pequeno vale. Decidiu seguir o grupo de longe mesmo que isso não fosse seu costume. Algo o impulsionava a isso.[/align]

[center]Capítulo V – Fenda[/align]

[justify]A Fera rugia com raiva da derrota. Seu som avançava quilômetros pela floresta e preenchia todo o vale abaixo.

Tolanle se assentou por último na beirada do riacho que jazia no fundo do vale. Bebendo água ajoelhado estava Tepilt com os dois lobos ofegantes e deitados ao seu lado.

  • Todos estão bem? – sorriu maternalmente Tolanle ao olhar para seus três “protegidos” e ver que não possuíam ferimentos. - Bom, então conseguimos.

Os lobos levantaram a cabeça, recebendo, cada um dos irmãos, um afago da druida.

  • Como está Ranuf? E você minha linda Volka?
  • Linda Volka?!? São um casal de lobos, então? – surpreendeu-se Tepilt enquanto lutava para fechava seu cantil.
  • Sim, um casal. Mas de irmãos. São da mesma ninhada até.
  • E porque você deu esses nomes para eles?
  • Não fui eu quem dei esses nomes. – riu Tolanle docemente – É apenas uma tradução para nossa linguagem de como eles eram chamados pela alcateia.
  • Eles se dão nome!? Disso não sabia.
  • Sim, eles se identificam por alguma característica peculiar e, por isso, o nome deles podem mudar de acordo com o tempo.
  • Você é muito sábia e realmente uma grande druida. – Tepilt caminhava devagar, se aproximando de Tolanle.
    Olhos raivosos, no entanto, miravam Tepilt. Ele virou-se, mirou as bordas da fenda procurando algo mas nada viu. Apenas ouvia a Fera ainda urrando.
  • Algum problema servo de Selur?
  • Não. A sensação de ser observado ainda continua forte. Contudo, me admiro por seu grande conhecimento e poder. - continuou em genuína admiração – Não conheci muitos druidas com esse nível de poder.
  • Não sou grande coisa não. De onde vim ainda sou considerada uma aprendiz ou iniciada, como preferir chamar. – disse encabulada.
  • Como assim aprendiz?! Seu povo deve reger grandes extensões de terra com pessoas tão poderosas?
  • Nós protegemos grandes áreas sim. Não regemos nada, no entanto. Nossa função é proteger plantas, animais e a natureza de alguma determinada região. – o estranhamento de Tolanle era evidente – A natureza nos rege. É o dever dos mais sábios ensinar e guiar os mais inexperientes. Apenas isso meu jovem.
  • Então é um dever seu. – refletiu Tepilt – Agora entendo.
  • Não é um dever meu. Não faço por dever, faço por amor. E como assim “entende”? Nós somos parte da natureza e a ela pertencemos. Não é esse os ensinamentos sobre Selur? – as sobrancelhas no pequeno rosto de Tolanle se fecharam formando um “v” invertido sobre seus olhos. Pôs seu rosto próximo a Tepilt, que pela primeira vez viu a druida sair de sua postura sóbria.
  • Meu povo – Tepilt falou acanhado com a inquirição. Não sabia se era curiosidade ou se ela se sentiu ofendida – entende que todos somos livres se respeitarmos nossas obrigações com o clã, com a tribo e com a nação.
  • E sobre Selur? – o rosto ainda próximo ao patrulheiro.
  • Vendira, quer dizer, Selur é a governante dos seres que não voam.
  • Governante então!? – interrompeu Tolanle – Então para vocês tudo deve ter um governante? Alguém deve ser superior aos demais?
  • Para nós é a ordem natural. – respondeu Tepilt menos vacilante do que esperava. – Embora sejamos, em grande parte, iguais uns aos outros.
  • Me explique então quais seriam os iguais e quem seriam os superiores que governam os demais?
  • Bem, nós consideramos – cada palavra saia engasgada – que os seres alados são superi…, digo, são mais abençoados que os demais.
  • Superiores você ia dizer? Porquê? – a voz tranquila de Tolanle perturbava ainda mais Tepilt.
  • É, sim. Nós consideramos o ar a maior dádiva que existe. E aqueles que possuem o dom de voar são mais abençoados que aqueles presos ao chão. – Tepilt não sabia até que ponto podia ter falado aquelas palavras.

Mal conhecia aquela que acabara de lhe salvar a vida. No entanto, tinha que falar tudo aquilo em que fora ensinado desde que saiu do ovo. Sua sinceridade era uma demonstração de gratidão pelo que a druida lhe fez.

  • Então todas as aves são iguais? Ou só a raça de vocês é digna de governar? – uma pausa antecipou a derradeira pergunta. A qual deixou um gosto amargo na garganta e no peito de Tepilt – E quando alguém deixa de voar, como você, ele deverá ser governado por aqueles que antes lhe eram iguais?

  • Nossa hierarquia é baseado nas habilidades de voo. Então… escute a Fera parou de urrar. – Tepilt pôs uma das mãos ao redor de seu ouvido, inclinando seu corpo para o lado como se isso fosse necessário para ouvir o barulho que a Fera fazia até o momento.

Tolanle prestou atenção na ausência de barulhos ao redor da fenda. Entendeu a estratégia de Tepilt e, mesmo assim, indicou com a mão para que andassem:

  • Não podemos ficar aqui muito tempo. Temos que achar uma saída desse pequeno vale, já que a Fera provavelmente tentará nos emboscar se subirmos por onde chegamos.

Do outro lado, ainda oculto por entre as árvores, Itzil observava e seguia o estranho grupo. Dentro de si o desejo de conhecer melhor aquela bela fêmea e a experiência de não se intrometer em assuntos de estranhos conflitavam.

  • Seguimos em frente atentos! – completou Tolanle, enquanto andava para o fim do vale seguida pelos lobos e, mais atrás, de Tepilt.[/align]

Um bom meio de introduzir um novo personagem. Particularmente gosto de flashbacks inseridos em meio à ação, explicando-a de certa forma.
Apenas ficou um pouco confuso o final do combate, mas acabou se auto-explicando depois. Bom, bom… gostei.

Achei melhor fazer esse flashback pois ficaria muito estranho se o Itzil tivesse sua primeira aparição somente quando ele entrasse em ação. Iria aparecer que era algo Deus Ex Machina.

Cuidado importante. Vamos ver qual a próxima encrenca…