Monarquia como saída para a corrupção

Foram elencados no chat alguns itens em defesa do sistema monárquico como inibidor de práticas corruptas. Para dar continuidade à discussão e não permitir que ela se perca, estou abrindo o tópico.

Eu sou cético em relação a essa esperança. Isto é, não creio que a simples presença de um Imperador como chefe-de-Estado vá surtir tão admirável efeito sobre a corrupção. Por três razões:

-Essencialmente, pouco muda. A alteração do sistema de governo não implica alterações no sistema criminal, não ataca os vícios (infelizmente consolidados) que limitam a ação do Poder Judiciário. É como se fosse mais uma sucessão presidencial, inutilmente acrescida da figura do Imperador. O alcance de intervenção do monarca é questionável e o seu papel (“fiscalizar”) demasiado fluido, impreciso –o que faz com que sua influência política tangível seja diminuta e que, eventualmente, se subordine aos interesses dos reais donos do poder.

-A restauração da monarquia exige nova Constituinte. Em tempos de congressistas ávidos por salvar o próprio couro, nem um pouco hesitantes em ampliar o fosso que os protege da isonomia, é perigosa uma Constituinte. O Ministério Público poderia ter sua independência trucidada; as desigualdades de tratamento nos tribunais provavelmente recrudesceriam. A menos que um movimento popular sebastiânico, duradouro e unificado interviesse, o país seria entregue muito pior ao Imperador -e não surpreendentemente este acabaria levando a culpa.

-Dom Pedro III não duraria. Assim que o Imperador “pisar na bola” com os poderosos -seja por se opor a modelos econômicos e reformas aprovados pelo Congresso mas danosos à população, seja, na melhor das hipóteses, por realmente se esforçar em combater a corrupção-, eles irão derrubá-lo. Campanhas difamatórias, discursos de que “monarquia é coisa velha”, de que a família real vive no luxo e faz viagens caras, de que o monarca é oneroso e nada faz, vão rapidamente lançar a população contra o trono. É fácil imaginar: os deputados, muitos deles envolvidos em corrupção e regados de privilégios, utilizando o monarca como bode expiatório. Assemelha-se, na verdade, à tradicional dinâmica da governabilidade. O governante ou abre mão de suas boas intenções (se as tiver, em primeiro lugar), ou é “demitido”.

[tab=30]A mudança é gradual e contínua, se esperarmos uma mudança de 180 graus estamos fantasiando. A figura do Imperador está mais centrada em termos uma figura centralizadora e norteadora dos princípios da nação. Assim, como em questão de 10 a 15 anos foi-se mudando a perspectiva sobre as questões sociais.

[tab=30]Também não creio que seja uma solução por si mas apenas uma mudança de direção. Ou melhor, uma bússola melhor “calibrada”. Além disso, creio que o Brasil ainda não está pronto para isso, talvez quando Dom Rafael estiver mais maduro…

[tab=30]Exatamente. Necessitaríamos uma nova Constituinte e teríamos que mesclar nossa primeira constituição com a mais atual. Não sei o que poderíamos esperar disso mas é mais provável que quase qualquer nova Constituição no Brasil funcione melhor que essa. Ela quer proteger tudo sem definir muitas coisas, dá muito espaço para jeitinhos e para a corrupção. Isso é claro quando é posta em prática.

[tab=30]O MP ter sua independência funcional limitada pela nova Constituinte é basicamente a mesa a que existe em nossa atual Constituição. Já houve mais de um projeto de lei tentando isso. Bem como para limitar as Justiças e as Policias. Então minha preocupação é mais voltada para os grandes caciques brasileiros que atuam desde o Golpe Republicano até os dias atuais (poucas foram as trocas percebíveis).

[tab=30]E com certeza tens razão que, para o Imperador receber um país em condições de governança, seria necessário um apoio muito maior da população do que os atuais quase 11%.

[tab=30]Essa sua hipótese só ocorreria se houvesse “uma tomada de poder” pelos monarquistas, o que “nunca” ocorrerá. A monarquia só retornará ao Brasil se os brasileiros assim o quiserem. E essa leitura de demissão do monarca é exatamente o contrário do que ocorreria no cenário “requerido” por Dom Pedro II. E sobre isso é só observar a maioria das monarquias atuais e ver quem manda em quem e quem deve ceder em algo.

O primeiro erro, na minha opinião, e que também vejo invalidando todo o resto, é achar que a forma de governo é responsável por estimular ou coibir corrupção. A corrupção é natural, há em todos os países, e nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, é muito maior. Ao longo da história do Brasil se vê o porquê de tanta corrupção: política oligárquica, atraso nas relações de trabalho, coronelismo, fisiologismo político, submissão ao imperialismo, etc. O Brasil, assim como muitos outros países, é um prato cheio pra corrupção por causa de muitas características estruturais que a favorecem.

A corrupção é, acima de tudo, um problema secundário, se não terciário, originado de outros problemas e outros defeitos do Brasil. Para acabar com a corrupção, primeiro é preciso acabar com os resquícios do coronelismo e das oligarquias na política; com as relações vergonhosas do Estado com o setor privado e com as multinacionais; com a pobreza, a falta de educação e saúde, generalizadas que justificam, moralmente, a pequena corrupção. Enfim, é, mais que tudo, reorganizar estruturalmente o Brasil, não a partir da política, que já é a cereja do bolo, mas das relações fundamentais do país, no trabalho, na produção, etc.

Desculpe-me, poderia elaborar melhor essa parte?

:beijo :beijo :beijo :amor :goodpost

[tab=30]O próximo Imperador não andaria nessa corda bamba que mencionaste. Se voltarmos a ser Império será com apoio e desejo da população e não algo forçado (como foi a implantação da República), portanto o Imperador não seria um refém tão grande das oligarquias brasileiras.

O apoio da população é tão volúvel quanto a integridade do monarca. É justo nos lembrarmos da trajetória de Dilma, que tinha aprovação na casa dos 70% em 2011 e, cinco anos depois, encarou equivalente percentual de rejeição. Lembremo-nos também do Segundo Reinado, que foi marcado por um líder indiscutivelmente popular e, ainda assim, refém dos cafeicultores e quartéis.

Expandindo o que eu disse antes: basta que o Imperador assuma posições posicionadas um pouco mais à esquerda, que o redscare se espalha. E o pior é que o monarca, literalmente, tem uma melancia na cabeça. Seria ridiculamente fácil para os políticos canalizarem a insatisfação popular contra ele. Isso se a própria família real não se desonrar, envolvendo-se em escândalos.

Vamos lá pessoal. Primeiro: Acreditar que a monarquia será capaz de derrubar uma hegemonia política e cultural, um sistema de corrupção enraizado em todos os setores da sociedade num ‘‘clap de dedos’’ é depositar fé excessiva demais.

Segundo: A negação da política no Brasil, uma cultura enraizada em muitos brasileiros depois do Regime Militar, por exemplo, quando você organiza um pessoal para pressionar deputados/senadores de merd@ do PSDB para que eles endureçam nas críticas ao PT, não demora para alguém interromper dizendo que “é impossível que façamos isso”, que “a culpa é dos políticos que não nos representam” ou que “está tudo dominado nessa porr@”, é muita reclamação, mas na hora de demandar usam desculpas, ficar criando pretextos que não vai fazer o país sair dessa situação podre, o abandono das demandas reais e dos partidos atuais, em troca de “nenhuma opção”, impede que seus interesses sejam atendidos de qualquer forma. No caso de partidos como PSDB, DEM e PMDB(partidos recentemente criados como o NOVO, Livres é a msm coisa tbm) algumas pessoas da direita negam a política ao dizer “ah, é tudo farinha do mesmo saco”, retiram qualquer forma de pressão destes partidos e os empurram na direção oposta aos seus interesses, esse negacionismo afeta tanto a direita como na esquerda no país, mas na direita, acabou se transformando em uma excessividade, ultrapassando qualquer cota de controle, o papel da restauração da monarquia nisso nesse negacionismo é muito ruim, por exemplo, pense que você está em uma comunidade de Facebook ou num grupo de Whatsapp discutindo como pressionar os deputados para aprovar um projeto de lei sobre porte de armas. E então alguém interrompe dizendo: “Ei, desistam disso tudo, o melhor mesmo é um sistema monárquico”. Mas como essa proposta é irrealizável (ao menos nesses dias atuais) e não há nem sequer um contexto cultural adequado para professá-la, qual a razão para sugerir em um momento de discussão de opções viáveis e mais urgentes? Eu não quero dizer que um monarquista está fazendo a interrupção desse caso pensado, mas este é claramente um exemplo de negação da política no Brasil, intervenção militar também é outro exemplo disso, defender o abandono da política por “questões morais” é essencialmente imoral.

Terceiro: Não vejo chance da monarquia no Brasil voltar, não existe uma proposta palatável ou uma personalidade carismática no movimento, monarquia não é uma coisa que a maioria dos brasileiros se importa ou entende, a restauração dela no Brasil é a mesma coisa, falando legalmente a constituição poderia ser alterada para um sistema de governo monarca mas também é legal para o governo federal intervir para impedir disso acontecer, imagine a dor de cabeça dos ministros do STF discutindo isso, a visão da maioria da população brasileira associando a monarquia à escravidão e ao absolutismo é outro ponto a dificultar a restauração da mesma, acho que eu n devo nem ir a fundo da propaganda republicana mentirosa que a gente vê em tudo que é lugar (principalmente nas escolas sobre o período imperial) onde os republicanos são os heróis que apareceram para salvar os pobres escravos e os imperiais são os malvados, comedores de crianças, opressores e blá blá blá, para mim é impossível a restauração da monarquia acontecer.

Achei interessante a sua explanação LineTaek.

Realmente é muito difícil vermos a Restauração da Monarquia em nosso tempo, mas creio que se fizermos uma analise da última década e extrapolarmos um pouco as nossas previsões para a próxima década, veremos que a chance da Restauração acontecer se torna cada vez maior.

Não podemos, é claro, ignorar os problemas atuais de nosso país, mas infelizmente esses problemas são… favoráveis ao Movimento Monárquico, afinal a mudança geralmente nasce da insatisfação com o sistema.

Pessoalmente creio que o Movimento Monárquico deveria usar uma estratégia de “comer pelas bordas,” procurar eleger candidatos favoráveis a restauração e continuar a divulgação contante do Monarquismo nas redes sociais e no dia a dia da sociedade, creio que esse tipo de atitude pode tornar a proposta monarquista muito mais atraente para a sociedade em um futuro muito próximo.

Veja Wellington, eu já fui um monarquista, eu sei que é difícil você e outros pensar que eu já fui defensor da restauração depois desse textão acima, mas eu fui, aconteceu naquelas manifestações de 2013, naquele rebuliço todo eu descobri o movimento da restauração a partir de um amigo, eu nunca participei do movimento, mas eu acompanhava nas redes sociais e conversava muito sobre isso com conhecidos que faziam parte e o movimento sofre do problema que eu falei sobre no segundo ponto(negação da política), política é bem mais que redes sociais, saber disso é de suma importância, é muito idealismo e nada de pragmatismo, veja quando eu falo em pragmatismo eu não quis dizer fazer política imoral, isso é um ponto importante nisso de idealismo x pragmatismo que quando eu falo muita gente não entende, não devamos de fato abandonar nossos princípios, é preciso saber que muitas vezes, por questões práticas e até para o avanço de nossos objetivos, teremos que fazer uma ou outra concessão.
Assim funciona o mundo e sempre vai funcionar, não há a menor chance de as ideias monárquicas avançarem na sociedade se tudo o que os poucos apoiadores sabem fazer é se reunir em seus clubinhos, fazendo suas palestras, fazer hangouts, pregando para ‘‘convertidos’’, se encontrando em eventos que só monarquistas vão e não quero dizer que não devam fazer isso nunca, obviamente o máximo que vão conseguir é conquistar meia dúzia de pessoas em anos de puro desperdício, seus interesses nunca serão atingidos assim, porque o segredo é conciliar idealismo com pragmatismo e isso o movimento de restauração não sabe fazer e uma grande parte da direita nesse país também não sabe.

O movimento parece não ter noção do que quer que seja a política atual. Passam muito longe da realidade bruta porque, no fundo, todo o conhecimento que possuem é baseado em academicismos ainda que indiretamente entende? Neste caso eu apelo à filosofia: é preciso entender o mundo antes de querer mudá-lo. Essa mentalidade de querer mudar tudo sem saber de nada é típica de revolucionários mimados, e isso assola muito mais monarquistas, liberais e conservadores hoje do que esquerdistas. Ninguém parece ter esse nível de compreensão. E que nível é este? O nível mais baixo de todos, aquele que atinge a política que acontece lá na favela, nas periferias, nas cidades de interior, o rapaz da periferia que não tem o que comer não está preocupado se em 1889 foi golpe ou não. O idoso que mora em uma cidade longe de tudo e um hospital mais longe ainda não liga se o Dom Pedro II era malvadão escravocrata ou não. A mãe que tem 7 filhos para cuidar no interior do nordeste e não tem água encanada ou saneamento básico quer saber é de dar remédio de vermes para as suas crianças, ela não tá nem ae sobre poder moderador e blá blá blá. O sistema é deste jeito, ele é desvirtuado, é podre. Aí, voltamos ao início de tudo. Não dá para propor uma nova política se você não entende nem a política atual.

Por causa dessas ilusões que eu tive com o movimento da restauração e outros monarquistas, eu fui de um defensor ferrenho da restauração pra um monarquista pragmático(que defende, mas sabe que é impossível a restauração acontecer) depois voltei a ser um defensor da república(com mudanças radicais é claro), você fala ‘‘mudança geralmente nasce da insatisfação com o sistema’’ sim isso é verdade, mas essa insatisfação não começou a pouco tempo, começou a muito tempo desde quando a república nasceu aqui, corrupção enraizada em todos os setores do governo, descontentamento em massa da população com as instituições, acredito que nunca teve nenhuma boa fase da república aqui no Brasil, e o movimento nunca aproveitou isso e não estou falando em fazer um Coup d’État, é muita incompetência, é muito idealismo, é muita palestra que não vai levar à nada, a propaganda republicana como eu falei no primeiro post, a visão da população associando o Império do Brasil à escravidão e ao absolutismo, isso tudo faz a restauração ser impossível de acontecer nem nesse tempo, nem na próxima década ou nos próximos séculos.

Concordo com esses levantamentos. Eu vejo muito meme sobre as coisas absurdas da República e como a Monarquia era boa mas não vi até agora uma proposta de governo se a monarquia voltasse ao Brasil. Talvez daqui uns 20 ou 30 anos…

Line compreendo o que queres dizer e sou obrigado a concordar.

Acho que o movimento monarquista é como é por que a sua liderança, talvez a grande maioria dos membros, não o veem como um movimento politico, mas como um movimento cultural… talvez até um movimento revisionista.

Posso estar errado, é bem provável, mas creio que se o movimento monarquista continuar a se expandir e perceber que deve ser bem mais do que um grupo de revisionistas históricos e defensores de certos aspectos de nossa cultura, talvez, só talvez, a Restauração se tornará mais palpável e até mais atrativa para a população em geral, por que como você falou, o povo em si não está preocupado com a história, mas sim com o que comer amanhã.

:wink: :wink: :wink:

EDIT: eu busquei ver se havia algum programa de governo da monarquia e realmente não há. Como vocês disseram, o movimento monárquico está mais para um movimento cultural do que um movimento político.

Só vi esse tópico agora e por isso mesmo já adianto que não li a maior parte dos textos, só as indagações do Richard, então lá vai: não há como haver um “programa de governo da monarquia”, pois o que é defendido é a monarquia parlamentarista, não a absolutista.
Com uma possível restauração do Trono e da Coroa, os programas de governo ficariam a cargo dos primeiros-ministros. Dizer qualquer outra coisa além disso não passa de especulação. E creio que você se equivoca ao confundir as funções cabíveis da forma de governo com as do sistema de governo.

Entendo isso. Contudo a população em geral não apoiará a monarquia sendo ela meramente um “movimento cultural”. Eles precisam ter um plano geral para que a monarquia fique mais palpável.

Eu não vejo tanto dessa forma com uma simples análise histórica do claramente larapiado plebiscito de 1993. A população em geral não é a desgraçada classe média que pôs o país na merda que vai, mas as pessoas simples e de vidas simples, que não tem as frescuras da classe média. Contudo, não critico os monarquistas que quiserem mudar por dentro, acho louvável que mais monarquistas virem congressistas, fazendo, pelo que li por alto como o Well disse e ir comendo pelas beiradas.

Eu apoio totalmente, pois eles devem mostrar engajamento social por assim dizer.