[NTW] A Defesa do Rochedo

[justify]Olá, galera, tudo bem com vocês? :smiley:
Postarei uma mini AAR, que teve inspiração em uma parecida feita por um membro do fórum há um tempo atrás. Trata-se de uma AAR focada apenas em uma batalha, escrita em forma de conto. Vou agradecer muito o feedback de vocês para saber se posto outras AARs futuras com um estilo parecido, caso gostem desse.
Quanto ao conto, dividirei ele em três partes, sendo que finalizarei na batalha em si, as duas primeiras partes servirão para dar o contexto e apresentar os personagens fictícios (e alguns reais) do conto. Por fim, estarei aberto a críticas construtivas e sugestões para melhorar a AAR, o objetivo é dar um bom entretenimento para todos. :wink:[/align]

Ainda hoje já estarei postando a primeira parte!
Valeu!

Dados da AAR:
Jogo: Napoleon – Total War
Mod: Darthmod Napoleon
Dificuldade: Não sei qual a dificuldade da campanha pois comecei com um dos saves do Darthmod de 40 unidades em um exército, mas as batalhas estão no difícil.
Facção: Grã-Bretanha – Campanha da Coalisão.

Acompanhando.

Opa, no aguardo :slight_smile:

Vou acompanhar.

Por acaso a mini AAR de inspiração foi a minha no Empire?

Foi sim, uma das inspirações veio daí, agradeço por isso :wink:

Parte I – Um Novo Começo

[center]Campo de Batalha de San Roque – 23 de Setembro de 1805.[/align]

Gibraltar – Agosto de 1805.
[justify]O céu estava limpo, azul e bonito. Era o meio da manhã e o mar estava calmo, as velas brancas se enchiam com o vento a seu favor, fazendo o navio deslizar sob a água azulada do Atlântico. Gaivotas voavam ali perto, ruidosas, pois o navio sempre mantinha a costa visível no seu lado esquerdo.

  • Quer mais chá, senhor? – ofereceu o marinheiro.
  • Não, obrigado Todd – Donald Ridge já havia tomado o suficiente.

Estivera escrevendo uma carta para sua família e esperava enviá-la assim que chegasse ao porto de Sandy Bay, em Algeciras. Não era uma carta fácil de se escrever, Donald Ridge havia deixado a Inglaterra subitamente, mas tinha suas razões. A verdade era que estava cansado. Cansado do fracasso social, da não realização, da sensação do não merecimento. Donald Ridge já tinha 25 anos de idade, estudou os últimos cinco para ser advogado, mas nunca exerceu a profissão, porém não havia problema, pois era filho de Edgar Ridge, um grande banqueiro de Bristol e amigo íntimo de Sir Henry Dundas, Primeiro Lorde do Almirantado Britânico.

O que Donald Ridge odiava.

Odiava como todos olhavam para ele e diziam que ele já possuía tudo na vida, que nunca precisaria trabalhar para sobreviver como a maioria das pessoas, odiava o fato de ter todos os tipos de mordomias sem necessariamente ter merecido tudo isso. Fora obrigado a estudar a lei em Oxford para se tornar advogado da família, ao lado de seu irmão mais velho que já era magistrado de Bristol. Donald sempre havia tido interesse e gosto pela aventura, não o estudo da lei, o que culminou em um péssimo estudante, o que contribuiu para comentários maldosos de seu pai e parentes em reuniões de família. A verdade era que Donald Ridge odiava estar perto daquelas pessoas.

E escrevia uma carta para eles agora.

Quinze dias atrás, Ridge havia pegado o dinheiro que possuía e feito a maior loucura de sua vida, comprou uma patente de capitão do exército. Poderia ter escolhido a Marinha Real, mas não queria que seu pai ou Sir Henry tivessem alguma influência sobre ele. A família também não foi o único fator que contribuiu para a loucura de Ridge, a rejeição de uma garota também o fizera. Ridge havia mantido um relacionamento com a belíssima Lady Joana Tarleton durante três anos. Joana era uma garota determinada e ambiciosa, que sempre valorizou o espírito aventureiro de Ridge, que acabou trocando-o por outro pretendente por não achar que Ridge fosse corajoso o suficiente para desafiar sua família e construir o próprio destino, de modo que o que Ridge fazia também era uma espécie de prova para mostrar à garota.

Ridge estava agora a bordo do HMS Elephant, com destino à Sandy Bay, em Gibraltar. Escrevia sua carta explicando à família suas motivações para ter feito o que fizera, jogava todo seu sentimento nas linhas enquanto o fazia, mas não sabia se realmente enviaria aquilo. O único a bordo do navio que parecia se interessar pela história não muito excitante de vida do recém capitão do exército era o Guarda-marinha Todd Baker, um garoto de 13 anos, magro como uma vareta, de olhos grandes, rosto largo e cabelos negros cacheados. Se encarregou de garantir uma boa viajem a Ridge desde Bristol, e em troca só pedia que contasse sobre Lady Joana.

  • É uma coisa rara neste mundo, garoto – dizia Ridge, orgulhoso de sua conquista – Cabelos dourados como o sol, rosto fino e delicado, olhos castanhos maliciosos e muito meiga – sempre que a descrevia, o garoto ficava boquiaberto.
  • Terei uma mulher assim – dizia sempre, de modo sonhador.
  • Não a perca como eu perdi – dizia Ridge com um sorriso triste.

Fora conversar com o guarda-marinha, Ridge também era sempre convidado a jantar com o capitão do navio, Merlin Rose, um homem corpulento e calvo que sempre falava bem de Edgar Ridge, talvez esperando que Donald fosse elogiá-lo ao pai, e este por sua vez falaria bem do capitão à Sir Henry. Merlin era um homem de grande apetite, e Donald sempre saía de barriga cheia de seus jantares.

  • Coma mais, garoto! Está muito magro! – dizia o capitão. E Donald era realmente magro, não tão magro quanto Todd, mas possuía uma boa forma. Era também alto, media cerca de um metro e oitenta, tinha cabelos pretos cortados curtos e sempre andava de barba feita, além de possuir olhos verdes que faziam sucesso com as damas.
  • Como vai sua carta? – gostava de perguntar o capitão.
  • Ainda escrevendo, senhor.
  • Ainda? Estamos no mar há o que? Treze, quatorze dias? Não deve possuir alma de poeta, não é garoto? – e completava gargalhando.
    Ridge gostava do capitão, apreciava sua companhia e esperava que fosse conhecer homens parecidos em Gibraltar.
  • Para qual regimento vai se juntar ao chegar lá? – perguntou certo dia.
  • Vigésimo Primeiro de Infantaria do Rei, senhor.
  • Rá! Não lembro do nome do coronel deles, mas é bom você ficar perto do Major Ashcroft, é um veterano experimentado, esteve em Assaye, bom sujeito. Me acompanha em um charuto? – acendeu um para Ridge sem esperar resposta.
  • Por que chamam aquele lugar de O Rochedo? – Ridge perguntou com curiosidade e pegando o charuto.
  • Porque é uma maldita pedra enorme virada para o mar, claro! – disse o capitão, rindo – É tudo calmo por ali, esse maldito lugar é nosso há mais de cem anos, você vai ter muito tempo para entender sobre o lugar, só tente não morrer de tédio.
  • E quanto à ameaça dos espanhóis?
  • Ameaça? Rá! É o máximo que esses idiotas farão, acredite! Escolheu um ótimo lugar para iniciar sua carreira, relaxe! – disse confiante.[/align]

    [center]Ameaça espanhola[/align]

[justify]Mas Ridge não queria relaxar. No fundo, queria ação, queria que os espanhóis atacassem o Rochedo, queria provar algo para si mesmo. Mas por outro lado também sentia medo, uma excitação do desconhecido, algo dizia a ele que essa experiência mudaria sua vida. Aquela era sua última noite de jantar com o Capitão Rose, desembarcariam em Sandy Bay no dia seguinte e seria a hora da verdade. Ridge achava que no momento em que colocasse os pés em terra, saberia se a loucura que fizera foi uma decisão boa ou não.

Na manhã seguinte, entraram na baía de Gibraltar, e Ridge pôde ver que o lugar fazia por merecer seu apelido. Havia um gigantesco rochedo que ia em direção ao mar, cercado por casas, ruas e igrejas ao pé deste. Do mar, a visão era lindíssima. Se fosse um desenhista, estaria desenhando a paisagem agora mesmo, pensou consigo Ridge. O contraste do grande rochedo com a cidade, que não era feia de se ver, e o céu claro e azulado de verão acima, tudo convergia para uma beleza única.

  • Aquela é Gibraltar – apontou o Capitão Rose, enquanto tomava uma quente xícara de chá.
  • E do outro lado? – perguntou Ridge, Gibraltar estava à direita deles enquanto entravam na baía, e agora ele apontava para a esquerda, onde parecia haver outra cidade, um pouco menor que Gibraltar.
  • Ali é onde vamos desembarcar, Algeciras. Sandy Bay também é ali.
  • Pertenceu aos espanhóis no passado – disse o guarda-marinha, querendo demonstrar conhecimento – mas quando montaram uma bateria de canhões e ameaçaram o Rochedo, tomamos de volta.

Fora a beleza dos lugares, também havia navios, muitos navios. Havia navios de todas as nacionalidades, entrando e saindo da baía. Ridge procurou, mas não viu navios espanhóis nem franceses, quando perguntou a respeito para Todd, quem respondeu foi o Capitão Rose.

  • Os espanhóis não comerciam aqui desde que possuímos o lugar! Lá pelos tempos de quando meu avô ainda nem sabia o que era uma mulher! E quanto aos franceses? Rá! Nem se quisessem poderiam, pois Nelson garantiu que eles não tivessem mais navios! – e deu as costas gargalhando para gritar ordens de descer a âncora e os botes.
  • O Estreito é um dos lugares com mais tráfego de navios do mundo, senhor. Certa vez, um cientista fez algumas contas e concluiu que um navio passa por aqui a cada seis minutos! – disse Todd em modo de curiosidade.

Ridge estava impressionado com tudo, a beleza, o mar azul, as gaivotas, e soube que tomou a decisão correta. Aquele lugar parecia estar esperando por ele o tempo todo, e isso o encheu de entusiasmo. Desceu a um bote com vários outros marinheiros, iam buscar suprimentos para a próxima viajem do HMS Elephant, Todd ia no comando do pequeno barco e contava sua próxima aventura à Ridge.

  • Vamos seguir para o leste e bombardear o porto de Cartagena! – falava com entusiasmo puro.
  • Por que Cartagena? – perguntou Ridge.
  • Porque é lá que 70% do comércio espanhol flui pelo mar, senhor. Vamos aplicar um duro golpe nos bolsos deles – sorria de orelha a orelha.

Era a guerra se desenrolando, principalmente nos mares. Os britânicos mantinham os inimigos longe de sua costa e bombardeava seus portos, se aproveitando de sua superioridade através da Marinha Real. Napoleão havia despachado um exército para a Inglaterra alguns meses atrás, e Nelson afundou aquela frota perto da costa da Cornualha. Doze mil franceses foram para o fundo do mar naquele dia, e agora havia um enorme bloqueio comercial na costa norte e oeste da França, e outro se formava agora no sul da Espanha.

Chegaram ao cais do porto meia hora depois de deixar o navio, Todd se despediu de Donald Ridge de forma calorosa, havia realmente se apegado ao capitão. Ridge lhe deu um relógio de bolso que continha a foto de Lady Joana dentro.

  • Para manter seu sonho aceso quanto as mulheres – disse Ridge brincando. Todd agradeceu profundamente e abraçou o capitão, falando que voltariam a se ver sempre que o HMS Elephant ancorasse em Algeciras.

Ridge se deixou ficar no porto e observar o navio que o trouxe ao longe. Era um ótimo navio de linha de 74 canhões, e se pegou imaginando se estaria no comando de um parecido caso entrasse para a Marinha Real. Mas seu devaneio foi interrompido por um garoto não muito mais velho que Todd Baker, que pegou em seu ombro para que se virasse, sobressaltando Ridge.

  • O senhor é o Capitão Donald Ridge?
  • Sou.

O garoto sorriu, era um pouco mais baixo que Ridge, magro, cabelos castanhos, olhos negros e nariz adunco, usava a casaca vermelha do exército britânico, divisas de alferes e o emblema mostrando o número 21 no ombro esquerdo.

  • Prazer em conhece-lo, senhor! – apertou sua mão – Sou o Alferes Barry! Julius Barry! Vigésimo Primeiro Regimento do Rei! Bem-vindo à Gibraltar! Onde estão suas coisas? Mandarei que peguem, senhor – o garoto estava entusiasmado, e isso deixou Ridge feliz.
  • Obrigado, Alferes Barry. Minhas coisas estão ali – apontou para dois baús pequenos, continham apenas mudas de roupa, livros, uma luneta e as armas de Ridge. Barry mandou dois homens envergando casacas vermelhas se apressarem e pegarem os baús para colocar em uma carroça que esperava mais à frente no porto apinhado de gente e fedendo a peixe.
  • Eu e os soldados Kyle e Green somos sua escolta até o alojamento do batalhão, senhor, por favor me acompanhe.
  • Onde estamos alojados? – perguntou Ridge enquanto subia na carroça.
  • Em San Roque, senhor.
  • Isso é algum bairro de Gibraltar?
  • Não, senhor, é uma vila ao norte do Rochedo, senhor, estamos fortificando o local devido às ameaças espanholas, senhor.
  • As pessoas com quem tenho falado não parecem levar muito a sério – observou Ridge enquanto os cavalos eram açoitados e começavam a se mover pela rua do cais.
  • Muitos não levam, senhor. Mas o Brigadeiro Banneker deve manter o povo tranquilo, senhor. Está no comando da guarnição. Se me permite, onde está seu uniforme, senhor? – perguntou o alferes mudando abruptamente de assunto.
  • Em meu baú – respondeu Ridge, não havia vestido seu uniforme de capitão até agora. Viajava com roupas de civil, uma camisa branca de abotoar coberta por um paletó preto e calças pretas.
  • Talvez seja melhor vesti-lo antes de se apresentar ao Coronel Ears, senhor. Ele é muito rigoroso quanto todas as disciplinas militares.

Ridge assentiu, se vestiria assim que chegassem ao alojamento. Enquanto a carroça avançava aos solavancos nas ruas desniveladas, Ridge observava a cidade, não só haviam todo tipo de navios na baía como também havia todo tipo de pessoas em volta. Ingleses, espanhóis, portugueses, judeus e até mesmo árabes, segundo o Alferes Barry.

  • Quando foi assinado o tratado que nos dava Gibraltar em 1713, havia uma cláusula que não permitia a moradia de judeus ou árabes, mas isso nunca foi respeitado – comentou o alferes, querendo demonstrar conhecimento tanto quanto o jovem Todd.

A viajem demorou uma hora até a vila de San Roque, ao norte de Gibraltar. Era um lugar pequeno, possuía poucas ruas, várias casas amontoadas, com uma grande casa no centro, se destacando, era a morada do prefeito local. Haviam também no mínimo duas grandes igrejas no lado sul da vila. O local estava apinhado de casacas vermelhas trabalhando, construindo barricadas no extremo sul e nas principais ruas da vila. Era uma medida preventiva contra um ataque que provavelmente não viria, o que apenas dificultava o trafego de pessoas e carroças no local, mas o Brigadeiro Erwin Banneker seria brutalmente criticado pela população se não as tomasse. Portanto, as barricadas estavam sendo erguidas.

  • Em caso de problemas, a guarnição tem ordens de se reunir para resistir aqui – explicou o alferes – O general diz que se ficarmos no Rochedo, os espanhóis podem nos manter entre a pedra e o mar e nos matar de fome, por isso nossas defesas estão aqui. Pode se trocar ali, senhor – apontou para uma casa perto do centro da vila, marcada com o número 21, escrito à giz na porta.
  • Obrigado, alferes – Ridge desceu da carroça, pegou um de seus baús enquanto o soldado Green levava o outro e foi para a casa.

Ridge vestiu seu uniforme de capitão pela primeira vez, se olhou no espelho do aposento e gostou do que viu. Via a imagem de um homem que poderia criar seu próprio destino, após vestir a casaca, guardou a pistola e afivelou o cinto da espada, era uma bela arma, leve e sutil, além de mortalmente amolada. Saiu da casa e foi procurar o resto de seu batalhão. Os encontrou trabalhando nas barricadas perto da prefeitura, na rua principal da vila. Viu um homem carrancudo de cabelos grisalhos, corpulento e com um tapa olho gritando com os soldados, possuía as divisas de major.

  • Bom dia, major – disse Ridge – Se me permite a apresentação, sou o Capitão Donald Ridge, recém-chegado da Inglaterra, senhor.
  • Ótimo! Mais um sem gosto para o trabalho pesado! – disse o major, apertando a mão de Ridge – Sou o Major Valentine Ashcroft! Mas pode me chamar de Ash, todos o fazem – sorriu.
  • É um prazer, Major Ash – Apesar do jeito carrancudo e da voz áspera, Ridge gostou do homem.
  • Bom, garoto, direi quem vale a pena você conhecer, pelo menos por hoje. Ali à frente bebendo no cantil e fingindo que é água é o Tenente Colin Brent, mais à esquerda dele é o Sargento-mor Troilus Butler, não use o primeiro nome dele, ele odeia. E acho que já conheceu o mascote do batalhão – disse em tom brincalhão.
  • O mascote, senhor? – Ridge não havia entendido.
  • O garoto, capitão! O garoto! Alferes Barry! E por último e mais importante de todos, aí vem o coronel – o major adotou uma posição de sentido imediatamente.
  • Bom dia, senhores! – disse o coronel.
  • Bom dia Coronel Ears, senhor! - Ridge queria demonstrar entusiasmo. Mas depois que disse isso fez-se um silêncio esquisito e constrangedor que Ridge não entendeu, mas quando olhou o coronel novamente e o tamanho de suas orelhas, soube que havia falado besteira.
  • Espero que esteja no regimento correto, capitão. Sou o Coronel Bradstreet. O Coronel Ears não deve pertencer a essa guarnição – disse o coronel sério, era velho, perto dos cinquenta, tinha uma cabeça calva e era bem gordo.
  • Desculpe, senhor, acho que confundi – disse Ridge sem graça. Todos ao redor seguravam o riso.
  • Que não volte a se repetir, capitão. Você é o advogado de Bristol? – Ridge não gostou de ser chamado de advogado, odiava a advocacia, mas respondeu.
  • Sim, senhor.
  • Capitão Ridge, certo? O Major Ash já lhe deu alguma ocupação?
  • Ainda não, senhor.
  • Ótimo! Pois eu tenho um grupo de encrenqueiros esperando uma punição e o senhor irá dá-la – disse o coronel, satisfeito.
  • Eu, senhor? – disse Ridge, surpreso.
  • Sim, você. Tem vinte e sete homens perto da Igreja de Santa Maria ao sul da vila que criaram problemas, alguns roubaram, outros se meteram em brigas, não importa. O que importa é que o trabalho que vão realizar depende de nossa sobrevivência – o coronel completou, deliciado com a vingança – Devem cavar as latrinas – sorriu.

Ridge ficou imóvel por poucos segundos, mas não havia o que fazer.

  • Senhor, sim, senhor! – e se dirigiu para a igreja, consternado por ter feito besteira logo ao chegar no seu novo trabalho.

Chegou na igreja após caminhar pela vila alguns minutos e viu que os homens já estavam todos nus da cintura para cima e estavam caminhando para uma campina perto de um bosque para começar o trabalho, eram comandados por um sargento gordo e sorridente que os amaldiçoava frequentemente, o sargento cumprimentou Ridge quando este chegou.

  • O senhor é o oficial supervisor?
  • Sim, sargento, sou o Capitão Ridge.
  • Sargento Grove, ao seu comando. Então vamos cuidar para que ninguém faça merda, hein? – e riu da ironia que havia dito, revelando uma arcada dentária horrível.

O trabalho desagradável começou sob o sol forte do meio dia, Ridge descobriu que cada um dos vinte e sete homens já havia sido açoitado antes, e percebeu que estava no comando do pior dos piores do batalhão. Talvez fosse um teste para descobrir do que ele era capaz ao liderar homens, e Ridge estava determinado a mostrar serviço. Dava instruções o tempo todo e sempre exigia perfeição em todos os setores do buraco, tentava parecer autoritário mas percebia que os homens não o levavam muito a sério, eram homens acostumados com a encrenca e o castigo. Terminaram ao fim da tarde, e quando começaram a despejar os baldes de merda no buraco, Ridge tapou o nariz com um lenço branco que possuía e isso provocou risos entre os homens, fazendo o capitão largar o lenço logo depois.

Naquela noite, houve um jantar no alojamento dos oficiais, e para a irritação de Ridge, o coronel o havia apelidado de Capitão Latrina, o que provocava risos o tempo todo no jantar.

  • Não ligue para isso, garoto. Todos aqui têm seu dia ruim, é o que acontece para ninguém morrer de tédio nessa guarnição – disse o Major Ashcroft.
  • Sim, senhor – respondeu Ridge desanimado. Estivera com puro entusiasmo pela manhã quando chegou, mas agora estava questionando se não deveria ter ficado em Bristol. Ashcroft percebeu o desânimo.
  • Vamos, vou levar você a um lugar que vai botar um sorriso nesse rosto – Ridge fitou o rosto com tapa-olho do major.
  • Para onde vamos, senhor?
  • E importa? Eu quero ajudar e lhe dei uma ordem, capitão. Agora vamos!

E Ridge saiu do jantar com o Major Ash para a noite em San Roque.

  • Tem cavalo?
  • Não, senhor.
  • Pois compre um, todo oficial que se preze deve ter um cavalo. Mas já que não pode fazer isso agora, vamos a pé mesmo, não é uma caminhada longa – Ashcroft parecia entusiasmado.
  • Aonde vamos, senhor? – perguntou Ridge desconfiado.
  • Ao paraíso na terra, garoto, vamos para La Logo! – disse o major, sorridente.

Mais tarde, Ridge descobriu que La Logo era um famoso bordel em San Roque. Era a primeira vez que entrava em um, apesar da idade, e ficou espantado com o que viu. As mulheres, em sua maioria espanholas, eram lindas e tentadoras, e Ridge realmente se animou naquela noite, como o major prometeu. E talvez, pensou, ter vindo para Gibraltar não fosse tão ruim assim, para viver uma nova vida, uma nova carreira, um novo começo.[/align]

Bom prelúdio, bom prelúdio :slight_smile:

História muito bem escrita. Gostei.

Valeu pelos elogios! :thank

A parte 2 já está em produção! Previsão para esse fim de semana, no mais tardar segunda-feira. :wink:

Parte II – Prisioneiros de Guerra

Gibraltar – Setembro de 1805.

[justify]Seu nome era Eliana, Eliana Ferreira. Era portuguesa, tinha cabelos negros compridos e lisos caindo até a cintura, uma pele branca delicada e macia e olhos azuis como o mar. Se a visse andando na rua, Ridge jamais pensaria que ela era prostituta. Era uma das mais requisitadas em La Logo, e era a favorita do capitão.

  • Está me dizendo que já veio pra cá há um mês e só comeu essa garota, senhor? – perguntou estupefato o Tenente Brent.
  • Sim.
  • Experimente a Rosita, é uma espanhola ruiva, é uma das melhores.
  • O capitão aqui é homem de uma mulher só, certo Don? – quem falava agora era o Major Ashcroft.
  • Acho que sim, Ash – disse Ridge dando um meio sorriso, sem vergonha alguma disso, o que parecia surpreender os outros.
  • Só diz isso porque não esteve com duas ao mesmo tempo! – disse o major, rindo.
  • Eu entendo tudo isso de homem, uma mulher só e tudo mais… mas uma prostituta, capitão? – o tenente estava indignado. Era um homem baixo, um pouco mais jovem que Ridge, muito magro, cabelos e olhos castanhos e sorridente.
  • Gosto dela, apenas isso, tenente.
  • Silêncio agora, rapazes – disse baixinho o major.

Era uma noite de escuridão absoluta, a lua estava coberta por nuvens, poucos ruídos eram ouvidos a não ser os grilos e os sussurros dos homens agachados entre as árvores. O objetivo desta operação era um ataque surpresa na vila de Castellar de la Frontera. Segundo os relatos dos espiões, havia um regimento de cavalaria alojado na cidade, com ordens de observar de longe as defesas sendo montadas em San Roque. A presença dos cavaleiros foi o suficiente para o Brigadeiro Banneker querer realizar uma operação para expulsar os inimigos, a guarnição precisava de um pouco de ação e isso se mostrou uma bela oportunidade.

Logo, o 21º Regimento foi ordenado a fazer um ataque surpresa na vila. As ordens eram para expulsar os espanhóis e capturar tudo que pudesse ser útil, como pólvora, caixas de munição, comida e até mesmo oficiais inimigos. Mas o mais importante, e o que mais se torcia para haver na vila, eram canhões. A guarnição de San Roque carecia de artilharia, não possuía nenhum canhão sequer, e isso seria problema em uma defesa contra um cerco inimigo, de modo que se houvessem canhões ali, seria uma grande vitória para os britânicos.

O batalhão estava postado no limite da linha de árvores, antes da descida por um terreno de grama alta até a vila, que era debilmente iluminada durante a noite por algumas lamparinas nas paredes das casas. O Major Ashcroft havia pedido silêncio pois o Alferes Barry, garoto de recados do coronel, havia dito que a ordem de avançar havia sido dada. Ridge estava excitado com a perspectiva de luta, e muito nervoso também. Até agora desde que chegara em Gibraltar havia apenas cavado latrinas, erguido barricadas, montado algumas cheval-de-frise e feito exercícios com o batalhão por horas e horas, além de praticar sua esgrima com o Tenente Brent e o Major Ashcroft.

Ridge já ia desembainhando a espada quando uma mão tocou em seu antebraço.

  • Ainda não, Don. Podem ver o reflexo do aço na vila e nossa surpresa já era – repreendeu Ashcroft.

Ridge assentiu e colocou a espada de volta na bainha. A grande linha de casacas vermelhas no escuro começou a se mover para fora das árvores, eram um pouco mais de trezentos homens e a vila de Castellar de la Frontera era pequena, de modo que a linha de soldados avançava e envolvia a vila de uma extremidade à outra. Ninguém ia de mosquetes carregados para evitar disparos acidentais e todos estavam com as baionetas de prontidão para acoplar nas armas no momento certo. Desceram pelo trecho de grama alta e entraram em silêncio na vila. Não havia sinal de vida exceto pelos latidos de cães ao ver os homens passarem. A grande linha se quebrou e se dividiu em vários grupos quando cada grupo foi entrando por uma rua diferente.

Após alguns metros vila adentro e nenhum sinal de inimigos, os casacas vermelhas de uma rua à esquerda de Ridge foram sobressaltados por um grito alto e agudo. Era uma mulher que olhara pela janela e se assustara com o grande número de soldados estranhos na rua. O grito cortou todo o elemento surpresa e com isso veio a ordem de fixar baionetas. Ridge agora desembainhou sua espada com a mão direita e segurava sua pistola com a esquerda. O avanço agora era mais rápido em direção ao centro da vila, onde havia uma praça, e ao chegar lá, também não havia nada.

  • Fiquem juntos, pode ser uma armadilha! – gritou Ashcroft.
  • Fiquem juntos, seus desgraçados! – ecoou a ordem o Sargento-mor Butler.

Por alguns minutos, houve confusão e medo na noite. Mas depois de um tempo, o Coronel Jared Bradstreet veio galopando para o grupo de Ridge.

  • Não há nada na vila! Devem ter ido embora! – ele parecia aliviado.
  • Nenhum inimigo? – perguntou Ashcroft.
  • Não, apenas os moradores, todos se trancaram nas casas ao ouvirem aquele grito miserável. Coloquei os outros grupos para revistarem as residências, fiquem alertas.
  • Sim, senhor.
  • Que ótimo! Lá se vai a história de um bom combate que não virá de novo – disse o Tenente Brent depois do coronel ir embora.
  • Pelo menos ninguém morreu, isso é bom – disse Ridge, tentando consolar.
  • Acho que sim – Brent estava decepcionado. E a verdade era que Ridge também estava. Criou uma grande expectativa esperando um combate, mas no final das contas não haveria um.

Após algumas horas no povoado, conseguiram comida e informações dos moradores, nada mais, nenhum canhão. Diziam que os cavaleiros eram batedores de um grande exército espanhol a caminho, que fazia uma semana que conseguiam comida e suprimentos naquele povoado, que eram apenas cinquenta e que eles sempre iam embora antes do anoitecer. Com essas informações, o Coronel Bradstreet decidiu fazer uma emboscada para quando os cavaleiros voltassem no dia seguinte, mas os batedores não vieram, todos ficaram decepcionados de novo e o coronel decidiu voltar.

  • Melhor do que ficar aqui e ser pego pelo exército principal, se é que estão vindo mesmo – disse o coronel enquanto almoçava antes do regimento partir.
  • Senhor, me permite? – solicitou Ridge.
  • Continue, capitão.
  • Quero permissão para ficar e emboscar os cavaleiros quando vierem, senhor.
    Todos os oficiais na mesa olharam para ele.
  • Tem certeza, advogado? Pode ser que não voltem – o coronel fitava o capitão seriamente.
  • Sim, senhor. O Tenente Brent pode ficar também, preciso de apenas cinquenta homens, os do grupo do Sargento Grove podem servir – esse era o grupo dos encrenqueiros em sua maioria – Ficaremos no máximo três dias, e se não vierem, voltaremos.

A verdade era que Ridge estava desesperado por alguma ação, pois como o Capitão Rose havia dito a ele um mês atrás, ele devia cuidar para não morrer de tédio com a rotina monótona de Gibraltar, e como o Tenente Brent não era tão diferente dele no modo de pensar, com certeza ele gostaria da ideia.

  • Não vejo porque não. Terá seus homens, capitão. Mostre que é mais soldado do que advogado – e sorriu, sabendo que Ridge não gostava de ser chamado assim.
  • Obrigado, senhor – Ridge aguentou o insulto pois seu pedido fora concedido.[/align]

[justify]O Tenente Brent recebeu bem a ideia de ficar mais um pouco no local, mas também foi o único. Nem os sargentos, nem os cabos e soldados que ficaram acharam aquela ideia muito entusiasmante. Já não respeitavam Ridge por ele ser um aristocrata que simplesmente queria uma aventura no exército, e agora esse maldito aristocrata estava botando eles em perigo desnecessariamente. Mas Ridge era o oficial superior, então todos deviam obedecê-lo, de modo que, logo após o regimento partir no início da tarde, o Capitão Ridge arranjou casas para alojar os homens, escolhendo lugares estratégicos virados para o norte, para a Espanha, de onde viriam os cavaleiros. Os homens receberam ordens de não usar as casacas vermelhas pelas ruas, para não assustar os batedores quando viessem.

Passaram a primeira noite sem grandes problemas. Os batedores não vieram. Não houve problemas com os moradores locais, mas os homens estavam inquietos porque naquela maldita vila não havia um bordel sequer e Ridge os havia proibido de beber pois precisava de todos sóbrios para quando os cavaleiros chegassem. Os homens não se amotinaram mas reclamaram bastante naquela noite. Ridge fez os sargentos os acordarem ao amanhecer e assumir posições para vigiar a estrada que traria os inimigos, a manhã foi avançando à medida que o sol ia subindo, os homens revezavam na vigilância da estrada, logo chegou a tarde, que também foi avançando.

Ninguém veio. E os problemas começaram na segunda noite.

Um grupo de soldados desobedeceu às ordens de Ridge e foram a uma taverna para beber. Foi o Tenente Brent que avisou Ridge sobre a desobediência. Ridge se enfureceu com a falta de disciplina, mas sabia que não devia esperar outra coisa vinda do grupo de encrenqueiros. Havia escolhido ficar com eles pois imaginava que seriam bons na hora da luta, e agora começava a se arrepender disso. Colocou seu uniforme para demonstrar autoridade, não pegou sua espada, mas carregou e levou a pistola, e foi caminhando pela rua iluminada pela lua e as tochas até a taverna, que ficava de frente para a praça no centro da vila, um lugar pequeno chamado Los Naranjos, Brent foi com ele.

Ao chegarem no local, os oficiais viram um grupo de pelo menos quinze soldados se embebedando. A taverna era um lugar quente, fumacento e fedorento, havia um balcão à direita de Ridge logo na entrada com uma mulher servindo bebidas e o resto do local eram mesas e cadeiras de madeira espalhadas e com um pequeno palco nos fundos onde curiosamente uma melodia irlandesa era tocada. Ridge foi entrando no lugar e via que mesmo com seu uniforme de capitão ninguém prestava muita atenção a ele, apenas se divertiam e bebiam, e isso enfureceu o capitão, que sacou sua pistola carregada e deu um disparo para o teto de madeira, sobressaltando a todos, que pararam para olhar o capitão com o tenente do lado, a música parou.

  • Todos os soldados aqui vão sair agora! Formarão uma coluna na praça da vila, onde ficarão formados até o amanhecer, fui claro? – Ridge falou com calma, com uma raiva contida.

  • Vai nos processar se não fizermos isso, advogado? – perguntou uma voz no fundo, e os homens riram, Ridge ficou perplexo com a falta de respeito e furioso ao mesmo tempo.

  • E o desgraçado que falou isso será açoitado quando regressarmos! – o homem que havia dito se levantou para Ridge vê-lo, era pelo menos dez centímetros mais alto que o capitão, tinha cabelos enrolados negros e volumosos e um rosto duro, com cicatrizes de cortes na bochecha e na testa, possuía um rosto que poderia fazer qualquer inimigo temer encara-lo, era forte e agora vinha caminhando entre as mesas para o capitão, agora o local estava em silêncio.

  • Já fui açoitado uma vez, capitão, não me importo. Melhor isso do que morrer aqui nesse fim de mundo só porque você quer ter uma história para contar pro papai na Inglaterra – dizia com desprezo na voz.

  • Qual o seu nome, soldado? – perguntou o Tenente Brent, tentando pegar as rédeas da situação.

  • Scott, senhor. Reginald Scott. – e ao dizer isso, se virou para retornar às mesas.

  • Soldado Scott! – gritou Ridge, Scott suspirou e se virou de novo.

  • Senhor? – perguntou com escárnio.

  • Se acha que eu só quero uma história de luta para contar, então me dê uma – e ao dizer isso, Ridge entregou a pistola para Brent e foi tirando a casaca vermelha. Scott sorriu.

  • Oh, o senhor não faria isso.

  • Exceto que eu já fiz – e Ridge desferiu um soco que atingiu em cheio a têmpora esquerda do grandalhão. O único jeito de recuperar o respeito daqueles homens era desse jeito, era a única linguagem que eles conheciam.
    Scott cambaleou para trás pegando na têmpora. Brent ficou perplexo, sem saber o que dizer. Todos na taverna pareceram prender a respiração. O soldado olhou malevolamente para Ridge.

  • Só para deixar claro, se eu bater no senhor, estarei atacando um oficial? – perguntou com a voz carregada de raiva agora.

  • Claro que estará! – interveio Brent.

  • Por que acha que tirei a casaca? Você vê alguma divisa? Sou um civil neste momento – disse Ridge provocando, esboçando um leve sorriso para esconder o nervosismo. Todos agora estavam perplexos, mas foi por poucos segundos, até alguém gritar.

  • Uma briga! – e todos se animaram novamente, a banda composta por irlandeses começou a tocar de novo, agora uma melodia mais animada, todos olhavam para os dois homens. Scott tirou a casaca lentamente, sorrindo para Ridge e levantou as mangas da camisa de baixo depois, revelando braços fortes e tatuados.

  • Vai se arrepender disso, capitão.

  • Sempre deixa seus inimigos esperando tanto tempo assim?[/align]

[BBvideo 400,200]http://www.youtube.com/watch?v=xJMSfmXi26g[/BBvideo]

[center]Recomendo ler o próximo trecho ao som da banda irlandesa na taverna. :wink: [/align]

[justify]O soldado deu um passo à frente, lançando um cruzado de direita que Ridge defendeu e contra-atacou, acertando a barriga do oponente, que parecia ser feita de pedra. Scott aproveitou que estavam próximos e usou sua força superior para empurrar Ridge contra uma mesa, o capitão deslizou por cima, arrastando e quebrando garrafas no caminho, caindo do outro lado com a mesa. Ridge se levantou, mas o homem enorme já estava em cima dele, e lhe acertou o primeiro soco no rosto, cujo impacto deixou o capitão momentaneamente tonto. Scott pegou Ridge pelo colarinho da camisa e o levou até o balcão que estava poucos metros atrás do oficial, este bateu a costa na madeira do balcão e o soldado o acertou outro soco, agora na boca, quase arrancando dentes, e então tentou enforca-lo. Brent gritava protestando toda hora, mas era abafado pelo ruído das pessoas comemorando.

  • É tudo o que tem, capitão? – provocava o soldado.

Ridge sentiu os fortes dedos das duas mãos de Scott se apertarem em seu pescoço. Estava tentando tirá-los de lá, mas era inútil, cuspiu sangue no rosto do homem e então tateou o balcão atrás de si com a mão direita, achou algo que parecia uma garrafa, e não pensou muito, quebrou-a contra o rosto do soldado, que gritou e cambaleou para trás. Ridge sabia que sua chance era agora, chutou a virilha do soldado, que se curvou em agonia, então Ridge lhe aplicou mais um soco, no mesmo lugar de antes, colocou toda sua força no golpe, o soldado se curvou de lado. Ridge empurrou um homem que estava sentado perto, pegou sua cadeira e a girou no ar, quebrando contra a costa de Scott, este se encolheu mais ainda, Ridge deu um grito de triunfo e foi para cima do homem curvado e colocou os braços em volta de seu pescoço.

  • Queria me enforcar, desgraçado? – e apertou para enforcar o soldado.

Este pareceu recuperar sua força, estava com o lado esquerdo do rosto ensanguentado por causa da garrafa, e agora gritava selvagemente. Se levantou mesmo com Ridge pendurado às suas costas, e foi andando para trás, até que tropeçou no palco e os dois homens caíram separados, Scott havia se libertado. Agora o soldado procurou Ridge no chão para esmagar seu rosto com pancadas, mas quando ia desferir o golpe, outro disparo ressoou na taverna chamando a atenção de todos. Era o Tenente Brent, e um soldado assustado estava ao seu lado. Ridge olhou do chão para os dois e cuspiu sangue.

  • O que foi? – perguntou com raiva.
  • Os cavaleiros espanhóis, senhor, estão no povoado – disse o tenente, assustado.[/align]

[justify]A notícia de que havia uma briga na taverna da vila entre o capitão e um soldado havia distraído os homens do lado de fora. O que acabou favorecendo a entrada da cavalaria espanhola na vila, surgindo das sombras noturnas. Não estavam vindo descansar os cavalos ou pegar suprimentos, vieram atacar. Sabiam que havia britânicos na vila. Os primeiros disparos das sentinelas vieram, mas poucos cavaleiros foram atingidos, começou uma perseguição frenética pelas ruas. O lado norte da vila foi tomado em poucos minutos, com a morte de pelo menos cinco soldados. Os outros corriam para o sul, avisando a todos para fugirem, e foi assim que o soldado William entrou na taverna e deu a notícia para o Tenente Brent, que por sua vez disparou sua pistola para o alto e avisou a todos no recinto.

Uma confusão teve início, com soldados saindo às pressas do lugar para se salvar, homens civis voltando para suas casas para não serem confundidos com soldados britânicos sem casaca, e Ridge ficou atônito por um momento, e quem quebrou seu momento pensativo foi Scott, que em vez de lhe bater até amassar o rosto, segurou sua mão e o levantou.

  • Precisamos sair daqui senhor! – falava com seu rosto ensanguentado e nem parecia que acabara de tentar matar o capitão. Ridge acordou de seu momento atônito.
  • Vamos! Para o lado sul! Para os bosques! – tudo ficou urgente e rápido de repente.

O Tenente Brent correu para a rua para tentar organizar os homens, conseguiu formar dez deles.

  • Tenente! – gritou Ridge – Recue com os homens para o bosque ao sul. Se forem seguidos, formem um quadrado! Eu atraso eles aqui! – Ridge assumia agora a pequena força de dez homens que Brent conseguira reunir, Scott estava no meio deles, sem casaca mas com seu mosquete.
  • Mas, senhor… – tentou começar o tenente.
  • Agora, tenente! Isso é uma ordem! – interrompeu Ridge e o tenente se virou para correr depois – Carregar! – agora falava para a débil linha de dez homens.

Estavam na rua principal do povoado, formaram uma linha barrando toda a rua e à frente havia uma confusão de cavaleiros e pessoas correndo, alguns eram casacas vermelhas, que corriam para a proteção duvidosa da pequena formação de Ridge, o que atraía os cavaleiros que os perseguiam. Ridge tateou na cintura e não achou nem espada nem pistola, soltou uma maldição, estava sem casaca também, mas esqueceu logo disso, pois os cavaleiros estavam a caminho.

  • Apontar! – os homens apontaram os mosquetes – Esperem nossos rapazes passarem! – os casacas vermelhas fugitivos iam passando por eles, nenhum se voltou para reforçar a formação dos dez homens, os cavaleiros estavam a cinquenta passos agora. Vestiam casacas amarelas, chapéus bicornes pretos com uma pena vermelha em cima, eram dragões.[/align]

[justify]- Fogo! – gritou Ridge. Os dez mosquetes atiraram juntos e pelo menos quatro cavaleiros foram lançados para trás – Recuar! – a descarga havia parado momentaneamente os dragões e Ridge queria usar esse tempo.

Começaram a correr para o sul, mas assim que Ridge olhou para trás, a perseguição estava sendo retomada, não haveria tempo de parar e carregar os mosquetes de novo, de modo que só poderiam correr. Mais à frente, Brent e alguns homens estavam terminando de posicionar duas carroças cortando a rua para atrasar os cavaleiros, quando viu Ridge e seu grupo, Brent sinalizou para virem rápido. Ridge corria com desespero, já não sentia as dores da luta na taverna, apenas ouvia os cascos atrás de si, correu mais ainda, e por fim os dez homens atravessaram a barreira improvisada de carroças. Ridge pensou em formar atrás delas e lançar mais uma descarga, depois decidiu que não haveria tempo, continuaram correndo, o bosque estava abençoadamente perto. Saíram do limite da vila e entraram na grama alta.

Foi quando tudo deu errado.

Foram surpreendidos por cavaleiros vindos da rua da direita, eram pelo menos uma dúzia. Brent e a maioria dos homens continuou correndo bosque acima, mas Ridge se virou, pois um cavalo estava muito perto, o dragão fez a espada assobiar perto da cabeça do oficial, que só não foi atingido porque se abaixou. O capitão praguejou de novo por estar desarmado, o dragão girou a montaria e veio de novo, mas dessa vez um golpe forte na nuca o fez cair do cavalo. Era Scott, que também foi pego no meio dos dragões e lutava com o mosquete descarregado. Ridge pegou a espada do espanhol caído e aparou o golpe de outro dragão que o atacou de lado. Scott usou a coronha do mosquete contra o focinho de um cavalo.

Mas não adiantava a resistência, estavam cercados. Os outros haviam fugido, mas Scott e Ridge estavam cercados. Ridge foi o primeiro a perceber, portanto largou a espada e levantou as mãos. Scott continuava lutando como um demônio, gritando e golpeando, afastando os cavalos de perto.

  • Scott – chamou Ridge, o grandalhão não ouviu e derrubou mais um dragão da sela – Scott! – agora Ridge gritou e o soldado se virou – Já chega, estamos cercados – falou com desânimo.

O homem só então pareceu notar. Largou o mosquete com raiva no chão e levantou as mãos. Haviam sido capturados. Eram prisioneiros de guerra.[/align]

OBS: A parte 3 sai em no máximo 6 dias, chegando finalmente na batalha e finalizando a Mini AAR. :smiley:

Dramático este capítulo!

Já tava na hora de começar essa ação haha :pirata

Mto bom, mto bom

Parte III – A Fria Canção das Baionetas

Gibraltar – 22-23 de Setembro de 1805.

[justify]O quarto era escuro, e estreito também. Caso se deitasse completamente esticado no chão, conseguiria tocar a cabeça em uma parede e os pés em outra. Havia perdido a noção do tempo, não havia entrada de luz do sol. A única coisa que Donald Ridge tinha certeza era que ainda estava em Castellar de la Frontera. E que era um prisioneiro comum. Ele e Scott foram capturados sem casacas, e Ridge não tinha pistola e espada também, de modo que presumiram que fosse um soldado raso como Scott. Quando disse aos dragões que era um capitão do exército, eles riram. Consequentemente, os dois prisioneiros comuns eram tratados sem honra alguma. Foram açoitados em pelo menos cinco sessões de interrogatório.

  • Quantos homens há em San Roque? – perguntava o torturador espanhol em bom inglês.

  • Dez mil – respondia Ridge desafiador, e o torturador sabia que estava mentindo, de modo que lhe açoitava mais uma vez. A guarnição de Gibraltar devia ter no máximo sete mil e quinhentos homens, sendo dois mil integrantes da milícia local, o que não os fazia soldados profissionais. Também não havia nenhuma artilharia.

  • Onde ficam as barricadas na vila? – e apontava para um mapa de San Roque na frente de Ridge.

  • Não tenho ideia – dizia Ridge, e o torturador acertava as costas do capitão de novo com o chicote. Seu nome era Juan, Ridge não sabia o sobrenome, era um homem loiro, cabelos compridos caindo até a nuca, olhos frios e castanhos e tinha um rosto encovado e doentil de tão magro que era, o que não significava que não era forte, pois cada açoite era um inferno de dor.

  • Vou mata-lo – dizia Ridge sobre o torturador para Scott quando estavam juntos no escuro da cela.

  • Se ele não nos matar primeiro – respondia asperamente o soldado – Pelo menos agora sabe o que é ser açoitado, senhor – e sorria no escuro, de modo que seus dentes eram praticamente a única coisa visível.

  • Revelou alguma coisa?

  • Sim, que cavamos uma latrina e vou jogar ele lá dentro quando isso acabar. Me rendeu umas três novas cicatrizes na costa – disse Scott ainda sorrindo.

  • Tem ideia de quanto tempo estamos aqui?

  • Uns quatro ou cinco dias.

  • Como pode saber?

  • Nosso carcereiro, o velho gordo que sempre dorme. Presumo que ele fique pela noite, e acho que já ouvi ele dormindo umas cinco vezes.

  • Precisamos sair daqui – disse Ridge, suspirando.

  • Meu Deus, não me diga – ironizou o soldado.

  • Ainda não consegui ver brecha nenhuma, nem quando nos levam para aquele desgraçado.

  • Isso é porque você é um advogado, senhor. Não um soldado.

  • E você sabe o que fazer? – perguntou Ridge, irritado e desafiador.

  • Nossa melhor chance é de noite, quando o velho dorme.

  • Meu Deus, não me diga – Ridge imitou.

  • Mas eles mantêm isto aqui bem trancado – apontou para a porta de madeira da cela – Logo, devemos fazer algo quando eles vierem deixar aquela merda que chamam de jantar.

  • O velho vem deixar o jantar, mas sempre há três homens armados atrás dele, como pretende fazer isso, gênio? – desafiou Ridge de novo.

  • Um de nós deve fingir que está doente, ter um ataque de convulsão ou algo do tipo, é justificável pois perdemos muito sangue nos últimos dias. Se colocarmos eles dentro da cela, nossa chance é melhor.

  • Ter um ataque convulsivo? Dez libras que não serei eu.

  • Acha que pode matar três homens armados rapidamente, sem que nenhum deles dispare? – perguntou Scott.

  • E você pode?

  • Assim que tomar a baioneta de um deles, posso fazer qualquer coisa.

  • Sabe que se falhar estamos mortos, não é?

  • Estaremos de qualquer jeito se não fizermos nada. Não estamos revelando nada nos interrogatórios, logo acharão que somos inúteis mesmo e virão cortar nossas gargantas – Ridge assentiu para aquilo. Era um plano desesperado, mas em momentos desesperados, aquilo fazia sentido.

  • De onde você é? – o capitão perguntou depois de um tempo.

  • Somos amigos agora? – perguntou o soldado de modo áspero.

  • Tem algo melhor para fazer? – o soldado refletiu com a pergunta, depois cedeu.

  • Carlisle.

  • É por isso que noto um leve sotaque escocês?

  • Metade da minha família é da Escócia, metade de Carlisle, de modo que nas festas em que todos se reúnem é uma confusão de sotaques – e sorriu ao lembrar de sua casa.

  • Quando veio pra cá?

  • Ano passado. Saímos de Liverpool em vários navios mercantes, um mercador local alugou para o governo nos transportar. Havia um capitão conosco, mas ele morreu de febre no caminho, era inverno – Ridge refletiu sobre aquilo e mudou de assunto.

  • Como é o inverno aqui?

  • Não esfria muito. Torça para poder chegar a vê-lo, capitão – aquilo lembrou aos dois homens o que deviam fazer para escapar, e a expectativa os fez ficar em silêncio.

Os dois homens esperaram na escuridão da cela, as costas latejando de dor. Saberiam que a hora havia chegado quando ouvissem o tilintar das chaves perto da porta, mas parecia que a hora nunca chegava. Ridge se sobressaltou uma hora, assustado porque havia dormido sem perceber, e quando viu que Scott estava roncando também, deu um chute para acordar o soldado. Os dois se mantiveram acordados e não muito tempo depois o barulho chegou. As chaves vieram tilintando e vozes abafadas pela porta vinham conversando em espanhol e rindo de alguma coisa.

A porta se abriu e o velho carcereiro entrou com duas tigelas de mingau, era um homem meio corcunda, gordo e com um rosto horrível, parecendo um dos mendigos desfigurados, veteranos de guerra, que eram vistos facilmente pelas ruas de Londres. Usava uma casaca amarela esfarrapada do exército espanhol e sorriu para os dois prisioneiros, que protegiam os olhos da luz da lamparina acesa, segurada por um soldado na porta. Tudo parecia como a rotina normal dos últimos cinco dias, exceto que um dos prisioneiros começou a se remexer no chão, o velho olhou aquilo e deu um chute no homem, gritando em espanhol para ele se levantar, mas o prisioneiro começou a ter uma convulsão. O companheiro de cela gritava em inglês, provavelmente para ajudarem o amigo.

O velho suspirou e pediu ajuda do soldado para colocar o prisioneiro de lado, o homem colocou a lamparina no chão e foi ajudar o velho, então tudo se deu muito rápido. Scott se posicionou de modo que o velho e o guarda ficassem de costas para ele, olhou para o lado de fora da porta e viu a silhueta de dois guardas no corredor. Então foi silenciosamente para trás do soldado e puxou sua baioneta, sobressaltando os dois espanhóis. Scott cortou a garganta do guarda em um movimento rápido e o velho ficou com o grito de alerta preso, pois Ridge havia tapado sua boca no mesmo momento. O velho mordeu a mão de Ridge e ele se esforçou para não gritar de dor, enquanto Scott enfiava a baioneta no crânio do carcereiro.

Ridge não acreditou que tinha dado certo, ficou excitado pela perspectiva de fuga e ignorou a dor na mão esquerda, Scott apontou para o lado direito da porta e fez um dois com os dedos da mão, sinalizando que havia dois inimigos ainda por matar. Ridge pegou a lamparina e jogou no corredor para o lado esquerdo, os homens se assustaram com o barulho e correram para ver o que se passava na cela. Quando o primeiro entrou, Scott o puxou para dentro, onde Ridge segurou seu mosquete e o acertou com a coronha enquanto Scott sujava a baioneta de sangue mais uma vez com o segundo homem na porta. Ridge bateu com a coronha do mosquete na cabeça do soldado repetidas vezes, descarregando toda sua fúria contida dos últimos dias, foi parado por Scott muito depois do homem já estar morto.

Ridge pegou a baioneta do morto e fixou no mosquete, Scott fez o mesmo com outro mosquete.

  • Carregue ele, podemos precisar da bala – disse o soldado. Ridge ficou olhando enquanto Scott mordia o cartucho de pólvora e o soldado percebeu o olhar – Por favor, não me diga que não sabe carregar um mosquete.
  • Nunca o fiz.
  • Malditos aristocratas – Scott suspirou.

Scott então foi fazendo os procedimentos bem lentamente para Ridge entender. Mordeu o cartucho e despejou um pouco da pólvora no cano, cuspiu a bala no cano e usou a baqueta para empurrá-la para baixo, o que foi um desafio pois a baioneta já estava fixada, então retirou a baqueta, jogou o resto de pólvora na caçoleta e estava tudo pronto.

  • Não dispare acidentalmente, senhor, mantenha o dedo fora do gatilho. Vista isso, quase não dá para perceber o sangue – jogou uma casaca amarela e um chapéu bicorne para Ridge e pegou uma para si, e dito isso, pegou as tigelas de mingau.
  • O que está fazendo?
  • Quer passar a noite toda fugindo de barriga vazia? – comeram rapidamente o conteúdo das tigelas e saíram pelo corredor.

Andavam normalmente, como dois soldados espanhóis fazendo uma patrulha, mosquetes ao ombro. Saíram da prisão improvisada acenando pegando nos chapéus para dois sentinelas sonolentos na porta e realmente estava de noite. Havia pouca atividade na vila por parte dos moradores e soldados, a maioria estava dentro das casas devido à noite fria. Andaram calmamente pelas ruas em direção ao sul da vila e pouco viram, mas Scott fez questão de pular um muro baixo para roubar dois casacos pretos pendurados em um varal de uma casa. Alguns minutos depois estavam no limite sul da vila, perto do trecho de grama alta onde foram capturados.

  • Tire a casaca agora, senhor, esse amarelo pode ser visto à quilômetros de distância. Vista isso – e estendeu o casaco preto, vestindo o outro. Era um casaco grande, provavelmente pertencente a um homem gordo, mas ficou melhor assim pois cobria mais o corpo dos dois ingleses na noite. Se livraram das casacas amarelas e começaram a subir a encosta em direção ao bosque. Ao chegar lá em cima, pararam e olharam a vila.

E também viram o acampamento do exército espanhol.
Milhares de fogueiras se estendiam ao norte da vila até o horizonte de morros mais ao norte ainda.

  • Vê as tochas se movimentando? – mostrou o soldado.

  • Estão se preparando para marchar – concluiu Ridge.

  • Deverão estar em San Roque pela manhã.

  • Quantos acha que são? – perguntou Ridge.

  • Uns oito, talvez nove mil. Muitos cavalos. E eles tem canhões – Scott apontou para um parque de artilharia ao leste. Ridge escrutinou tentando ver no escuro.

  • Doze canhões?

  • Contei pelo menos dezesseis – Scott sorriu – Estamos fudidos.

  • Estamos em número parecido com o deles – observou Ridge.

  • Você esquece que dois mil dos nossos só servem para encher a latrina que cavamos – Scott se referia à milícia – E eles não entrarão por uma brecha estreita, pois não temos muralhas.

  • Ainda assim precisamos lutar – disse Ridge.

  • É, precisamos – os dois se deixaram ficar olhando tudo aquilo por um tempo.

  • Ótima hora para pegar um navio e ser advogado de novo, hein? – disse Scott.

  • Nunca fui advogado.

  • Não? – Scott parecia surpreso.

  • Estudei para ser, mas nunca fui.

  • E preferiu ser soldado?

  • Sim.

  • Vocês aristocratas – Scott estava rindo – Quanto mais longe da merda, parece que mais querem deitar e rolar nela. Vamos embora, senhor – e se virou ainda rindo. Caminharam para San Roque.[/align]

OBS: Como a parte 3 ficou um pouco maior que as duas primeiras, postei primeiro esse trecho. O trecho final vem ainda hoje pela tarde :wink:

Muito bom. Tá chegando a hora da guerra.

Boa escapada :wink:

Parece que a brincadeira vai começar :mal

Aliais, belo capitulo.

[justify]O primeiro tiro do canhão de 9 libras ressoou muito acima das casas de San Roque, ainda estavam esquentando o cano.

  • A hora, Sr. Barry! – gritou o Coronel Jared Bradstreet. O Alferes Barry remexeu nervosamente seu bolso procurando seu relógio.
  • Cinco e dezoito da manhã, senhor!
  • Então escreva no caderno! Esta é a hora em que a Batalha de San Roque começou! – disse o coronel com entusiasmo, estavam junto ao estado maior do Brigadeiro Banneker.

O amanhecer cinzento abarcava a vila de San Roque aos poucos, com um sol nascendo atrás de nuvens ao leste e uma neblina fraca cobrindo a terra. O 21º Regimento estava encarregado de proteger a barricada da rua principal da vila, e foi para lá que todos haviam marchado assim que os sentinelas avistaram ao longe a grande mancha negra ambulante na terra vindo para San Roque, era o exército inimigo. O Brigadeiro Banneker ordenou que a vila fosse evacuada, de modo que as pessoas estavam agora todas em carroças, cavalos ou a pé, a caminho da proteção do Rochedo ou de Algeciras. O exército britânico contava com um efetivo de sete mil, quatrocentos e cinquenta e dois homens divididos entre cavalaria e infantaria, e o Brigadeiro Erwin Banneker os formou no lado sul de San Roque. Barricando desde a rua principal, todas as passagens entre as casas por onde o inimigo poderia entrar, formando um grande círculo defensivo.

  • Já que não há muralhas, nós seremos as malditas muralhas! – gostava de repetir o brigadeiro.

Outros tiros de canhão foram se juntando ao primeiro à medida que as baterias inimigas iam se instalando ao norte. A maioria passava por cima das casas inofensivamente, mas alguns atingiram telhados, fazendo-os cair nas ruas, e logo no início da manhã, um casaca vermelha foi a primeira baixa do dia ao cair um pedaço de telha que se enfiou em seu crânio. O Major Ashcroft estava ao comando da barricada do 21º na rua principal, logo de frente para a prefeitura da cidade, o Tenente Brent era o porta estandarte do batalhão.[/align]


[center]Barricada guardada pelo 21º Regimento[/align]

[justify]- Achei que tínhamos evacuado todas as pessoas – observou o major, fitando com o seu único olho dois civis que vinham caminhando do norte ao lado da prefeitura – Estou vendo bem, tenente? – o Tenente Brent também os viu.

  • Está sim, senhor.
  • Os idiotas desgraçados vão pisar nas minas! – havia um campo minado um pouco mais à frente da barricada – Corra até eles, tenente!

O Tenente Colin Brent deu a bandeira ao Sargento-mor Butler e correu por cima da barricada até os dois idiotas desgraçados. Mas quando chegou perto ficou atônito. Eram Don Ridge e Reggie Scott, oficial e soldado que haviam tentado se matar em uma taverna seis dias atrás e agora vinham caminhando sorridentes um ao lado do outro, estavam esfarrapados e de barba malfeita, mas eram eles.

  • Ei! Senhor! Cuidado com as minas! – gritou.

  • Bom dia para você também, tenente – disse Ridge calmamente, estava aliviado por chegar ao exército – Onde estão?

  • Logo à frente, não andem mais nessa direção! Venham na minha – e Brent foi para o lado direito, indicando um caminho seguro. Os dois foram pelo caminho e se uniram ao tenente.

  • Achamos que estavam mortos – disse Brent, perplexo.

  • Eu não morro fácil, senhor – disse Scott – E o capitão ficou comigo, então acabou sobrevivendo também – e sorriu.

  • Cale a boca e vá arranjar uma casaca, soldado Scott, estamos para entrar em batalha – disse Ridge sorrindo também.

  • Senhor! – foi a única resposta do soldado, que foi atrás de uma casaca.

  • O que aconteceu com vocês? – Brent ainda estava perplexo. Uma bala de canhão ressoou por cima dos dois oficias enquanto andavam de volta para a barricada.

  • Fugimos, tenente, fugimos – Ridge estava olhando a barricada agora – Cheval-de-frise – disse.

  • O que?

  • Onde está nossa cheval-de-frise?

  • Atrás do regimento, senhor. É guardada por milicianos na segunda linha de combate, caso sejamos obrigados a recuar.

  • Ótimo, porque aqueles desgraçados têm uma horda inteira de cavalaria – chegaram à barricada e o Major Ashcroft também ficou perplexo.

  • O coronel não está feliz com sua pequena aventura, capitão. Rendeu onze baixas – disse o major.

  • Imagino que não.

  • Bem, agora que você e o soldado estão vivos, nove baixas.

  • Espero compensar esse erro hoje, senhor – o major esboçou um largo sorriso ao ouvir isso.

  • Pronto para a batalha, capitão?

  • Assim que eu arranjar uma casaca e uma espada – disse Ridge sorrindo e apertando a mão do major – É bom estar de volta, Major Ash.

  • Com certeza, garoto! – respondeu o major, se virando logo depois para um menino tamborileiro – Você, corra até o armazém do batalhão e arranje uma casaca vermelha e uma boa espada! Uma pistola também? – perguntou se virando para Ridge.

  • Não, essa eu já tenho – e o Tenente Brent prontamente lhe devolveu sua pistola.

  • Só isso, pode ir, garoto! Correndo! – o garoto foi. Ridge olhou então para uma casa vermelha no lado direito da formação deles.

  • Ela está segura, foi para o Rochedo – disse Ashcroft, sabia que Ridge estava olhando para La Logo, onde Eliana trabalhava – Mate e roube os bolsos de um oficial espanhol hoje e poderá pagar por ela de novo.

Ridge apenas sorriu. O capitão viu também que havia um garoto no telhado de La Logo, ele se encolhia a cada disparo de canhão que soava perto e avisava da aproximação dos inimigos, observando por uma luneta. Os batalhões vinham marchando lentamente pela campina aberta, tocando seus tambores e trazendo a bandeira do Reino da Espanha. Segundo o garoto do telhado, eles vinham marchando em uma grande linha de três fileiras de profundidade envolvendo toda a extensão de San Roque, com o objetivo de cercar os britânicos.

A casaca e a espada de Ridge chegaram por volta das seis da manhã com o menino tamborileiro. O capitão sentia a dor dos açoites nas costas ao trocar as casacas mas não se atreveu a deixar transparecer para os homens, que já o olhavam com mais respeito agora. O menino do telhado gritou que a 5ª Companhia Ligeira de Flanqueadores Holandeses marchava para ter o primeiro contato com o inimigo ao norte. Agora os canhões espanhóis estavam mais certeiros com os canos quentes e mirando na barricada norte do exército, de onde Ridge apenas podia ver lascas de telhas e pedras arrancadas de casas voando pelos ares, mas tinha consciência de que também estavam rasgando as fileiras de soldados daquele lado e subitamente ficou nervoso com a espera.[/align]


[center]Baterias de canhões espanholas disparando contra San Roque.[/align]

[justify]- Fale comigo, Cedric! – gritou o Major Ashcroft para o menino do telhado.

  • Estão chegando perto! – ele gritava de volta – Dois regimentos marcham para assaltar a barricada norte! Tem um vindo pra cá!
  • Até que enfim! – falou empolgado o Tenente Brent.
  • Carregar – disse Ashcroft sem gritar, o sargento ecoou a ordem.
  • Carregar rapazes! Vamos fazer valer nosso pagamento! – O Sargento-mor Butler deu a ordem aos gritos e todos começaram a laboriosa tarefa de carregar os mosquetes.

Os primeiros mosquetes estalaram na manhã na barricada norte, era a Companhia Ligeira de Holandeses. O 21º Regimento não tinha visão do confronto, pois algumas casas, incluindo La Logo, estavam no caminho, mas a fumaça com cheiro de ovo podre era bem visível. O batalhão espanhol que marchava pelo centro de San Roque também era visível agora, vinham para o lado da prefeitura, o mesmo que Ridge e Scott haviam usado mais cedo. O sol já estava se sobressaindo entre as nuvens e a neblina havia se dissipado. O Tenente Brent, agora mais empolgado ainda, subiu na barricada com a bandeira da União e a balançou, convidando os inimigos a virem e morrer.

  • Não seria melhor alguém tirá-lo de lá, senhor? – perguntou Ridge para Ashcroft.
  • Deixe o garoto! É o momento dele, se o destino dele é ficar vivo, ele ficará – Ashcroft não parecia preocupado ao espiar o tenente com seu único olho – Assim como foi o meu na Índia.
  • Índia, senhor?
  • Em Assaye, capitão. Wellesley colocou cinco mil homens para marchar contra cem mil e vencemos, era o destino. Me custou um olho, mas meu destino era sobreviver.
  • Esperemos que não custe um olho ao tenente, então.

Os espanhóis vinham marchando, estes usavam casacas azuis claras, chapéus bicornes pretos e calças brancas, vinham ao ritmo dos tambores e cantando na língua deles. O Sargento-mor Butler gritou a ordem de apontar e a primeira fileira da barricada levou os mosquetes ao ombro.

  • Ao meu comando!
  • Espere, sargento! – gritou Ridge.
  • Senhor?
  • Apenas espere – Ridge queria que eles chegassem mais perto. Ashcroft não interveio na ordem.

Eles vieram marchando para mais perto, passando pelo lado da prefeitura formados em coluna, já possuíam as baionetas fixadas. Vinham confiantes ao passo da marcha e da música.

Até que a música morreu.

  • Fogo! – gritou Ridge, apoiado pelo grito do sargento, e a primeira fileira disparou sua carga, cobrindo todos de fumaça.[/align]


[center]Primeira descarga.[/align]

[justify]A descarga coincidiu com a explosão das minas, os soldados da vanguarda pisaram nos dispositivos e foram imediatamente estraçalhados na explosão, e os de trás receberam as balas de mosquete logo depois.

  • Primeira fileira, ajoelhar! – gritou Ridge – Segunda fileira, fogo! – e mais homens atiraram para a fumaça fedorenta. A terceira fileira juntou seus disparos à fumaça logo depois.

Incrivelmente, o regimento espanhol ainda estava intacto. Haviam aguentado o castigo e não haviam fugido, haviam se formado em quadrado em uma resposta rápida ao grande impacto que receberam e disparavam contra a barricada. Eram poucos disparos e eram desordenados, ao passo que os disparos do 21º eram organizados e por fileiras. O Tenente Brent continuava vivo em cima da barricada, balançando a bandeira que era cravada por balas, mas agora havia se agachado.[/align]

[center]Tenente Brent na barricada.[/align]

[justify]- Mirem baixo, rapazes! – lembrava o Major Ashcroft, estava rindo porque os espanhóis começavam a recuar, se virou para a milícia de apoio, posicionada atrás do 21º - Olhem e aprendam, olhem e aprendam! – depois se virou para Ridge – Ótimo trabalho de liderança, capitão.

  • Obrigado, senhor – Ridge estava orgulhoso.

O 21º havia tido apenas quatro baixas no confronto. A batalha se desenrolava ainda na barricada norte, onde fuzileiros reais mandavam suas saraivadas contra dois regimentos espanhóis, que assim como os casacas azuis que vieram pela prefeitura, suportavam o castigo, mas ali eles também eram apoiados pelos canhões, que mandavam suas balas mortíferas para se cravar em casas, quicar na barricada ou rasgar uma fila de homens.[/align]


[center]Assalto à barricada norte.[/align]

[justify]Quando os espanhóis recuaram, foram mandados alguns meninos atrás de água para os homens tirarem a sede provocada pelo salitre da pólvora, os homens recarregavam as armas pois sabiam que o descanso não duraria muito. Os barulhos ficavam mais altos e a fumaça mais densa nas barricadas norte e leste, alguns homens olhavam apreensivos, pois se um dos lados caísse, poderia ser o fim de tudo. Os sargentos os mandavam olhar para frente e se concentrar na tarefa em questão, que era defender a rua principal.

  • Senhor! – gritou Cedric do telhado de La Logo – Barricadas norte e leste sob fogo intenso! Estamos aguentando! – ia gritando pausadamente – Espanhóis marchando para barricadas oeste! Cuidado à esquerda!

  • Quantos? – gritou de volta Ridge.

  • Milhares, senhor! Pelo menos seis regimentos! E dois ou três entrando pelas ruas se desviando para cá! Cavalaria também! – o garoto parecia pálido, depois se encolheu quando uma bala de canhão atingiu La Logo, fazendo a casa estremecer.

  • E já não temos mais minas – disse Ridge para Ashcroft.

  • Agora começa o verdadeiro combate, garoto – Ashcroft olhava para a rua à esquerda da barricada, sabia que a qualquer momento veria os inimigos chegando – Está com medo?

  • Você não? – a perna direita de Ridge não parava de tremer, embora ele tentasse controla-la.

  • Eu devia usar uma calça marrom, posso me sujar a qualquer momento – e deu uma gargalhada para mandar o medo embora – mas com certeza não é pior que Assaye – os dois ficaram pensativos.

  • Sabe quem foi São Roque? – a curiosidade bateu de repente em Ridge, Ashcroft o encarou.

  • Pelo que sei, algum idiota que gostava de cachorros. Não me leve a mal, capitão, mas não estou com religião na cabeça agora – e pegou um charuto do bolso para acender – Pode ser a última vez que aproveito um – disse para explicar o gesto.

Cantis de whisky eram repassados entre os homens. O major deixou, pois sabia que os homens sentiriam mais ímpeto e menos medo com a bebida. Ridge pediu um pouco de um soldado ao lado também, que olhou primeiro para Scott, e só quando o grandalhão assentiu, passou o cantil para o capitão, que tomou um longo gole, fez uma careta e depois sorriu para o soldado.

  • Pode ser a última vez que aproveito um – repetiu as palavras do major, e o soldado e Scott riram.

Os inimigos apareceram pouco tempo depois. Três regimentos. O que vinha em coluna na frente possuía casacas brancas com acabamento azul claro por baixo, os de trás eram casacas azuis escuras e negras. Vinham em coluna e vinham tocando os tambores e cantando sua marcha, as baionetas refletindo a luz do sol, confiantes na vitória.

  • Fixar baionetas! – ordenou Ashcroft, cuja ordem foi logo ecoada pelos sargentos. Ouviu-se o chiado das lâminas saindo das bainhas e sendo acopladas nos mosquetes – Aqueles desgraçados não vão parar para trocar tiros, sabem que resistiremos assim – disse para Ridge, depois gritou – O desgraçado que morrer de baioneta limpa não vai ser enterrado, entenderam? Vou deixar para os corvos! – esse era o encorajamento para os homens.

O Tenente Brent subiu na barricada de novo.

  • Podem vir, desgraçados! – e balançava a bandeira.
  • Vamos golpear os sacanas com tiros até chegarem aqui, preparem-se! – gritou o major – Apontar! Ao meu comando! – os espanhóis estavam a menos de cem passos – Mais perto, seus bastardos – sussurrou Ashcroft para si mesmo.

A coluna continuou a marcha, vinham cantando entusiasmados, a essa distância Ridge já podia diferenciar os rostos, alguns jovens, outros mais veteranos, alguns de barba feita, outros com barba e bigode. Todos vinham na direção dele.

  • Fogo! – Ashcroft deu a ordem. Os mosquetes estalaram e vários homens caíram na vanguarda do primeiro regimento – Fogo! - a segunda fileira disparou e mais espanhóis iam para a fatura do açougueiro, a bandeira da Espanha caiu, mas foi erguida por outro homem rapidamente – Fogo! – a terceira fileira cuspiu suas balas. E eles continuavam vindo, estavam a menos de cinquenta passos, começaram a correr para a barricada agora, lançando um grito de guerra e triunfo. O Tenente Brent fez o mesmo e correu para além da barricada em direção aos espanhóis.

  • Desgraçado louco! Vamos atrás dele ou ele morrerá! – gritou Ashcroft – Baionetas! Deem-lhes aço, garotos! – e todo o 21º gritou e correu para a carga.

Ridge desembainhou a espada emprestada e correu ao lado do major. Subiu na barricada e foi ali que encontrou o primeiro inimigo, que tentou estocar desajeitado com a baioneta, mas Ridge aparou empurrando o mosquete de lado e subiu a espada para cortar o rosto do inimigo. Já havia outro à direita e Ridge enfiou a espada em seu quadril, pintando a casaca branca de vermelho, fez um movimento no ar e cortou à esquerda por puro reflexo, um espanhol de bigode aparou com o mosquete e Ridge chutou seu abdômen, fazendo o homem cair da barricada. Agora não havia mais medo, não havia mais tremor na perna, não havia mais dor nas costas, não havia mais fome de não ter comido nada desde a noite passada, não havia mais cansaço de não ter dormido. Só havia aquele momento, a linha tênue entre a vida e a morte em uma fria canção assassina de baionetas onde qualquer erro e não se acorda nunca mais.[/align]

[justify]O Tenente Brent estava milagrosamente vivo, ainda com a bandeira da União na mão esquerda e uma espada na direita afastando os atacantes, era protegido pelo Sargento-mor Butler. Scott também estava vivo, Ridge primeiro ouviu um grito selvagem e soube imediatamente que se tratava do soldado, depois o viu cortando e matando tudo de branco que se movia em sua frente. A resistência estava indo bem, mas agora os outros dois regimentos, intactos pois não receberam fogo de mosquete, estavam chegando para se juntar à luta. Ridge procurou o Major Ashcroft para avisar, mas não o viu em canto algum, por isso se virou para chamar a milícia, logo depois de derrubar mais um casaca branca da barricada.

  • Venham! Venham! – tentava gritar, mas ninguém atrás da cheval-de-frise se movia.

Os espanhóis iam empurrando e ganhando espaço, o 21º estava retrocedendo para trás da barricada de novo. Ridge pulou de volta para trás da proteção e golpeou um tornozelo espanhol, fazendo o homem gritar de dor, ele caiu ao lado do capitão, que já estava golpeando outro espanhol que vinha com a baioneta de cima, matou-o enfiando a espada na garganta. Ridge então sentiu uma pontada na coxa direita, era o homem do tornozelo cortado que havia se recuperado e golpeado sua perna, Ridge praguejou e fez descer a espada com força contra seu crânio, a vida se esvaiu do espanhol aos poucos, que morreu.
Ashcroft morreu.

Não foi necessário a ordem de recuar. Os homens já estavam todos correndo para a proteção duvidosa da milícia. Ridge foi mancando até o oficial em comando, era um major, que estava dando ordens para a milícia apontar os mosquetes.

  • Major! Ainda há homens nossos no caminho! – gritou em protesto.
  • Prefere deixar que eles cheguem aqui? – perguntou calmamente o major – Fogo! – Ridge se encolheu com os disparos, que mataram muitos espanhóis, mas Ridge também viu alguns casacas vermelhas caírem. Estava perplexo pela morte de Ashcroft, mas não podia pensar muito nisso, a barricada da rua principal estava caindo.
  • Senhor! Capitão! – era o Alferes Barry quem chegava à cavalo – O Coronel Ears manda seus cumprimentos! Ele pede que segurem os espanhóis até a chegada do reforço!
  • Que reforço? – Ridge mal conseguia pensar direito.
  • Um regimento de holandeses de linha está marchando pra cá!
  • Diga ao coronel que faremos o possível! – e o garoto galopou de volta.
  • Ouviu isso, major? – disse para o major da milícia – Vai ter que lutar como um soldado de verdade agora! – e sentiu um grande orgulho ao dizer isso. O major o fitou horrorizado, mas levantou a espada.
  • Baionetas, homens! É a nossa vez de entrar na luta! Vamos!

E a milícia correu para o embate. As baionetas se chocaram outra vez, os gritos dos feridos voltaram, e o horror recomeçou. Ridge, mesmo mancando, entrou na luta, um homem de casaca negra o acertou com a coronha do mosquete, o capitão se curvou de lado mas girou a espada para cima rapidamente, antes do homem aplicar o golpe final, e fez um profundo corte no rosto do casaca negra. A fúria havia tomado conta, ele se virou de lado e cravou a espada em um ombro de casaca azul, sentiu a lâmina raspar em osso e o soldado gritar, mas foi silenciado por um miliciano que o trespassou com a baioneta. Ridge viu um soldado balançando a bandeira da Espanha em cima da barricada capturada, logo soube que aquela bandeira devia sair dali, pois dava moral aos inimigos.

Correu pelo flanco esquerdo do combate, evitando os inimigos para chegar à barricada. Matou um espanhol no caminho e chegou. Teve dificuldade de subir pois a perna estava ferida, escorregou em sangue, mas por fim subiu. O porta estandarte o viu, era apenas um garoto, sacou uma pistola e apontou, mas Ridge foi mais rápido e golpeou a pistola para longe com a espada, o garoto ficou imóvel, horrorizado com aquele oficial ensanguentado com cara selvagem que vinha para ele. Gritou que se rendia, Ridge tomou a bandeira da mão dele, e quando olhou à frente, viu o que temia.

Mais reforços espanhóis vinham chegando. Cavalaria espanhola de casacas amarelas, malditos dragões. Ridge também reconheceu Juan, seu torturador, que vinha na cabeça da formação, e sentiu uma raiva imensa. Sacou sua pistola, que ainda não havia disparado, mirou em Juan e atirou. Errou. Praguejou e empurrou o garoto da barricada.

  • Hijo de puta! – xingou o garoto.

Ergueu a bandeira para os dragões verem, depois a lançou ao alto para cair entre os cadáveres.
Voltou correndo para onde o combate se desenrolava, gritando ordens.

  • Voltem! Voltem! – queria os homens atrás da cheval-de-frise para quando a cavalaria chegasse.[/align]

[justify]Os casacas vermelhas foram recuando aos poucos. Quando os dragões ultrapassaram a barricada, foram se metendo na confusão de homens, sem notar a armadilha que os esperava. Ridge olhava apenas Juan, que vinha impetuoso na frente. O torturador era um oficial, e estava bem uniformizado, mas agora esse uniforme se sujava de sangue, enquanto Juan matava um miliciano. Instigou o cavalo para frente abrindo caminho na confusão de homens, e o bicho tentou pular a cheval-de-frise. Falhou. As estacas se cravaram na barriga do animal, que fez um barulho horrível. E Juan tombou ao chão no lado britânico da cheval-de-frise, se levantou rapidamente, espada erguida, e Ridge já estava em cima dele. O espanhol aparou o golpe do capitão inglês.

Ridge estava com raiva, por isso atacou com força e selvageria. Juan aparou seus golpes facilmente, mas recuava. Quando chegou perto de uma casa em suas costas, escorregou em sangue, Ridge gritou de triunfo e partiu para o golpe final, mas era um truque do espanhol, que contra-atacou, estocou com a espada de baixo para cima e acertou o peito esquerdo de Ridge, muito perto do coração, provocando uma grande dor. O capitão recuou, Juan deu dois passos à frente para o golpe final, mas uma coronha de mosquete vinda do lado esquerdo o atingiu em cheio no rosto, era Scott.

  • Não achou que ia matar o desgraçado sozinho, achou? – gritou para Ridge, o soldado estava banhado em sangue. Ridge sorriu e estocou com a espada no espanhol, que havia caído. Enfiou a lâmina no ventre do torturador, enquanto Scott enfiava a baioneta no peito.

Trespassaram o torturador várias vezes antes de pararem ao ouvir disparos muito próximos, e quando se deram conta, os espanhóis estavam recuando. A cavalaria foi parada na cheval-de-frise e a infantaria recuava.

O 12º Regimento Anglo-Holandês havia chegado.

Eram trezentos e sessenta homens que ainda não haviam entrado em combate, estavam descansados, deram uma descarga de mosquetes e atacaram com as baionetas. E foram os heróis do dia, pois além de acabar com a ameaça na rua principal, mataram o General de Divisão Pedro Sureda, que estava no caos da batalha com seus cavaleiros.[/align]

[justify]Após a morte do general, o exército espanhol, que estivera lutando bravamente até agora, desmoronou. Todos começaram a fugir de San Roque e o Brigadeiro Banneker finalmente soltou a cavalaria para a perseguição, mas não antes de matar os artilheiros que dispararam balas de canhão na vila durante a manhã inteira.[/align]

Após os espanhóis irem embora, Ridge se deu conta do quanto estava cansado e ferido, parecia que um peso caía todo de uma vez sobre ele. Desabou ao lado do corpo de Juan. Estava feliz, apesar de tudo. Havia sobrevivido. Enquanto estava deitado, vasculhou lentamente os bolsos do oficial morto, achou uma pequena sacola de couro com moedas tilintando, pegou-as, bem como os botões de ouro da casaca do homem. Seria seu presente para Eliana. Ficou deitado até os músicos, que também eram os médicos, chegarem com macas para os feridos, o colocaram em uma depois de um tempo. Scott estivera com ele o tempo todo, em silêncio.

  • Reggie – chamou o soldado.
  • Senhor?
  • Mais algum oficial morreu?
  • O Tenente Brent está ferido, senhor. Mas não tanto quanto o senhor. Os Sargentos Butler e Grove foram mortos tentando proteger a bandeira, senhor – Butler e Grove não eram oficiais, mas Scott sabia que Ridge os conhecia – Dentre os soldados, tivemos baixas pesadas, senhor, pelo menos olhando daqui – falava desanimado.

O Coronel Bradstreet e o Alferes Barry chegaram nessa hora.

  • Sr Barry! A hora?
  • Uma e trinta e dois da tarde, senhor – agora o alferes já estava com o relógio na mão.
  • Marque como a hora do fim da batalha! – o coronel viu Ridge na maca – Devo parabenizá-lo, Capitão Ridge, provou ser mais soldado que advogado! E que tem mais competência do que apenas cavar latrinas! – pela primeira vez Ridge gostou de ouvir algo do coronel.
  • Obrigado, senhor – disse Ridge com dificuldade.
  • Agora vá ao cirurgião fazer alguns remendos! Espero você hoje à noite para o jantar! – mesmo com toda a matança em volta, o coronel não parecia perder o bom humor.
  • Sim, senhor – o coronel foi embora com o alferes.
  • É um desgraçado – comentou Scott, sem vergonha de dizer isso na frente de Ridge, um oficial.
  • É mesmo – concordou Ridge.
  • E você é um sortudo, senhor.
  • Por que?
  • Com esses ferimentos? Talvez passe umas férias em casa.

Casa. A palavra veio na mente de Ridge, mas não foi Bristol que apareceu como imagem. Ainda não mandara sua carta para a família, e agora decidiu que não mandaria, não precisava.

Ele estava com sua família.

  • Eu estou em casa, Reggie – o capitão sorriu enquanto os médicos o levavam para longe de Scott.
  • Senhor! – gritou Scott, Ridge se virou para olhá-lo – O que acha que aconteceria se não tivessem nos interrompido naquela taverna? – Ridge o fitou por alguns segundos.
  • Eu acabaria com você, claro – mentiu Ridge, se deitando na maca de novo depois. Scott riu daquilo e o capitão foi levado. Estava ferido, mas havia sobrevivido, sobreviveu à sua primeira batalha e à fria canção das baionetas.

Fim.

Vitória custosa, mas vitória!
Bela narrativa, congratz!

[center]CURIOSIDADES E O QUE ACONTECEU NO JOGO[/align]

[justify]Como devem saber, o combate em Castellar de la Frontera foi fictício. Já a Batalha de San Roque aconteceu como narrada no conto. Não escolhi o 21º Regimento para ser a unidade de Ridge por acaso, pois foi na rua principal da vila que se deu os momentos mais desesperadores da batalha, por muito pouco os espanhóis não quebraram minha defesa e entraram no círculo defensivo. Por sorte eu ainda possuía uma unidade de reserva que podia oferecer ajuda, o 12º Regimento Anglo-Holandês da linha. No fim, poucos batalhões britânicos cederam e fugiram, mas ainda assim o exército teve 3.265 baixas, contra 4.913 dos espanhóis, o 21º começou a batalha com 360 homens, terminou com apenas 90.

Quanto à descrição de Gibraltar, preferi descrever o lugar como ele realmente é, não no jogo, e tomei a liberdade de adicionar algumas curiosidades sobre o lugar também, que acabei descobrindo enquanto pesquisava para fazer a AAR. La Logo existe, é um bordel localizado em San Roque hoje em dia, embora eu não tenha achado nenhuma evidência de que existiu em 1805, o mesmo vale para o Pub Los Naranjos, de Castellar de la Frontera.

Quanto aos nomes citados no conto, a maioria foi tirada do jogo, exceto pelos nomes das mulheres, o de Ridge e Scott. Em consequência a essa batalha, acabei por construir um forte em Gibraltar pouco tempo depois, recrutei também um general na guarnição, George Townshend Walker. O Rochedo nunca mais foi atacado de novo no save (ou na vida real, já que pertence aos britânicos até hoje). O 21º Regimento ainda lutou em uma campanha na Bretanha, na França, mais tarde no save, em 1807, sob o comando de Wellington.

Qualquer imprecisão histórica ou furo de roteiro, peço que me avisem para eu consertar na história, às vezes mesmo lendo tudo umas quatro vezes deixo passar algo. Por fim, quero agradecer profundamente a todos os feedbacks que deram. Fico feliz que tenham gostado. :wink:

Abraços!

Valeu![/align]