[ST] Os Pioneiros do Cosmos

PRÓLOGO

Nunca saberemos o momento no qual o primeiro dos homens olhou para o céu noturno e imaginou seu lugar entre as estrelas. Sua curiosidade superava o medo pelo que sentiu pelo que não compreendia. Mas sabemos que ao voltar seus olhos para baixo, aquilo que conhecia certamente deveria lhe causar maior temor: a luta desigual pela sobrevivência… O opróbrio da dominação e violência dos homens sobre si próprios.

Durante séculos, os governos das sociedades humanas lutaram entre si, buscando glórias infames e ambicionando incontáveis vanidades. Reis, imperadores, conquistadores… Todos logrando capitalizar a glória individual a custa da vida de milhões. Havia uma única luta justa: a luta incansável dos oprimidos contra seus opressores.
Quando não parecia existir esperança para o espírito humano foi que se erigiu um bastião dos anseios do povo… Pessoas comuns, lutando por pão, paz e terra. Assim surgiu outrora União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Nascida em meio a luta, a União Soviética triunfou heroicamente até mesmo na Grande Guerra Patriótica, também conhecida como Segunda Guerra Mundial, no ano de 1942, libertando a Europa da tirania do genocídio e da ganância do capital.
Quando o mundo finalmente se encontrava em paz, a perfídia capitalista tentou impor sua vontade sobre as nações livres. Incitou a chamada Guerra Fria, a qual opunha não apenas duas ideologias ou dois governos… Opunha dois projetos de humanidade. Os povos socialistas da Europa e da Ásia acreditavam que o progresso humano devia baseado na coletividade laboriosa, e não na individualidade gananciosa.
Pelo esforço genuíno e pioneiro de homens comuns - como o engenheiro Sergei Korolev - os povos soviéticos alcançavam um êxitos históricos: em 1957, enviaram o primeiro artefato humano ao espaço - o satélite Sputnik. Três anos depois, sob a direção corajosa do nascente programa espacial chefiado por Korolev, o piloto Yuri Gagarin alcançou outra marca: o primeiro ser humano a adentrar o cosmos. Logo depois, outro feito memorável: a operária têxtil e paraquedista Valentina Tereshkova se tornou a primeira mulher a alcançar o cosmos.

A bordo da Vostok 1, Gagarin orbitou a Terra em 12 de abril de 1961, por 108 minutos.

A bordo da Vostok 6, Tereshkova alcançou o cosmos em 16 de junho de 1963.

Permaneceu por quase três dias em seu vôo, completanto 48 órbitas na Terra.

O pionerismo soviético ensejava o progresso tecnológico da humanidade. Seus feitos geraram uma onda de celebrações em muitos países. Ao mesmo tempo, despertou a inveja e o arrivismo em alguns. Não demorou muito até que se cunhassem termos como “corrida espacial”. Mas como haveria de ser uma corrida, se a União Soviética estava tão à frente de congêneres capitalistas? Mesmo a morte de Korolev, em 1966, não impediu novas marcas na exploração cósmica. Através do esforço de engenheiros como Vladimir Chelomei e Valentin Glushko, em sistemas de propulsão e foguetes aprimorados, conseguiu colocar o primeiro cosmonauta na Lua em, janeiro de 1968

Ao descer do módulo lunar 7K-OK no Oceanus Procellarum, o cosmonauta Alexei Leonov proferiu as seguintes palavras:

"Dou este passo como o primeiro de uma jornada que nos levará às estrelas! Longa vida ao povo soviético! Longa vida ao ideal marxista-leninista! Paz entre os povos!".

Logo depois, hastearia a bandeira vermelha soviética sobre a superfície da Lua, em 14 de janeiro de 1968.

Os nomes desses heróis pioneiros ficariam marcados nos umbrais da História da Humanidade. Após duas décadas, a Era do Progresso Espacial parecia emergir firmemente diante dos olhos de quatro bilhões de seres humanos. Missões conjuntas entre a União Soviética, a República Popular da China e outros países socialistas seriam planejadas. Quando sobrepujada pela ciência, a imprudência capitalista mostraria sua derradeira face, cancelando os esforços espaciais com a fúria nuclear…
Após falhas monumentais de seu esforço tecnológico e de exploração econômica desenfreada, revoluções começavam a despontar em vários países do bloco capitalista. Em meio a esse clima de incertezas sobre o modelo de lucro acima de tudo e todos, os Estados Unidos deflagram uma ação acidental contra uma unidade submarina no Mar do Norte, que culminaria, na manhã de 20 de agosto de 1970, no embate devastador de uma hora que foi a Terceira Guerra Mundial.

Ao despontar dos primeiros minutos de hostilidade, a União Soviética lançou um devastador e preemptivo ataque nuclear a partir de unidades submarinas presentes no Oceano Atlântico contra alvos nos Estados Unidos. Vinte e sete minutos depois foi informado que uma transmissão de rádio havia sido iniciada pelo presidente dos EUA, que tentou aplacar a guerra total. A transmissão foi interrompida por interferências, mas não havia mais volta… A ordem já havia chegado no Atlântico e os mísseis já estavam em curso.

Os disparos balísticos soviéticos de curto alcance foram fulminantes, mas não impediram uma resposta. Cidades como Paris, Berlim, Londres, Estocolmo, Oslo e Leningrado foram arrasadas. Nos Estados Unidos, o fogo nuclear incinerou milhões em questão de milésimos de segundos, em cidades como Washington, Nova York, Houston, Nolfork e Miami. Na Ásia, Tóquio, Shanghai e Vladivostok desapareceram. Algum tipo de proporcionalidade na resposta fora obtido, pois não havia nenhum indicativo de disparos de longo alcance. Horas de tensão se seguiram. Os primeiros relatos da destruição em todo o mundo começavam a figurar na televisão. Após tentativas a fio, uma nova transmissão foi feita entre Nixon e Brejnev. Um cessar fogo foi obtido.

A catástrofe nuclear gerou uma crise mundial sem precedentes. Na Europa, uma nuvem de partículas nucleares se formou, precipitando-se principalmente sobre a Escandinávia, que se tornou inabitável. Nos Estados Unidos, o meio oeste agrícola seria arrasado por nuvem semelhante. A temperatura global caiu 1,1 ºC e gerou o inverno mais rigoroso da Era Comum no Hemisfério Norte. Milhões padeceriam com as doenças causadas pela radiação. Outros padeceriam pela crise agrícola e econômica em escala global. A União Soviética e a China uniram esforços para manter a produção agrícola em áreas não afetadas ou subterrâneas, lidando com severos racionamentos. No bloco capitalista, a elite burguesa estrangulou a recuperação, o que acabou impulsionou revoluções socialistas até o começo do Século XXI.

Em meio à depressão econômica, a exploração das florestas tropicais na América Latina, em busca de terras cultiváveis, acabou desencadeando, em 2020, a Grande Pandemia da Gripe Amazônica. A doença se espalhou inicialmente pelo manejo de proteína animal in natura, e depois em toda a América. Mesmo com controles de viagens e barreiras, não demorou até que a doença alcançasse a Ásia, a Europa e a África. Enfrentando movimentos revolucionários nas áreas urbanas, o combalido governo dos Estados Unidos acusavam os socialistas de implantarem o vírus na América de forma deliberada.

As acusações tresloucadas seriam eclipsadas pelo esforço coletivo dos países socialistas, que encontraram uma vacina em questão de meses. Infelizmente as mortes já atingiam milhões. Foi também naquela década que o capitalismo finalmente ruiu no Ocidente. Um governo revolucionário socialista pôs fim aos desmandos da elite burguesa americana, instaurando a União dos Estados Socialistas Soviéticos da América.

Durante a segunda metade do século XXI e o século XXII, o nível de progresso das sociedades humanas novamente floresceria. Superando as crises e reduzindo as desigualdades a um nível sem precedentes na História, os seres humanos novamente puderam voltar seus olhos para o cosmos. Em 2045, os primeiros cosmonautas pisaram pela primeira vez no planeta vermelho: Marte.

Cosmonauta Konstantin Titov, na região de Valles Marineris, em 10 de setembro de 2050.

A tão temida tecnologia de fissão nuclear foi orientada para o progresso coletivo e isso revolucionou os voos tripulados ao cosmos, permitindo transpor grandes distâncias em poucos meses. Isso permitiu a de exploração dos longínquos corpos celestes do Sistema Solar. A imensidão do Cinturão de Asteróides, as atmosferas do Gigantes Gasosos e as congelantes superfícies das Luas Jovianas permearam a Era da Exploração do Cosmos Profundo. Mesmo com certas divergências, russos e chineses lideraram os esforços de superação dos limites do cosmos e da tecnologia. Criou-se um organismo internacional de cooperação técnica quase irrestrita: o Diretório de Cooperação Internacional Socialista para a Ciência.
Por mais que ressurgências como a Contrarrevolução Sulista Americana de 2049 e a insurreição religiosa indiana Satyameva Jayate de 2112 ameaçassem perturbar a paz, já no Século XXII as fronteiras políticas começavam a não mais fazer sentido. A credibilidade da comunidade científica começou a substituir círculos puramente políticos nos inúmeros Partidos Comunistas em todo o mundo. Uma reconciliação entre Ocidente e Oriente teve lugar, e, em 2117, no bicentenário da Revolução Russa, representantes de todas as nações socialistas assinaram a carta de fundação da União Socialista da Terra.
Nesta mesma época, experimentos comprovaram conceitos físicos teorizados desde o século XX, como os táquions e a matéria escura, em plataformas experimentais localizadas fora da influência gravitacional, nos limites da Nuvem de Oort. Porém, o mais surpreendente foi a compreensão da existência de um plano dimensional dinâmico paralelo ao espaço-tempo, logo alcunhado de “hipercosmos”, em meados do século XXII. Partículas e até massa poderiam ser aceleradas por meio desse plano. Não demorou mais do que três décadas para a criação da primeira propulsão experimental e do envio das primeiras sondas em direção aos sistemas estelares de Alpha Centauri, Sirius e da Estrela de Barnard.
Pelo esforço coletivo humano e de pioneiros do Cosmos, as estrelas estão ao alcance. O sonho lúcido do primeiro dos homens é agora uma realidade para toda a humanidade…

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Então… Mais uma vez, comecei com o Prólogo. Desde 2017, eu ensaiei partidas no Stellaris, quando ainda fazia o AAR Nem um passo atrás!. Como meu notebook era antigo, sem placa gráfica e 32 bits, não consegui progredir muito em jogo. Tinha uma ideia em linkar a história daquele AAR até a era espacial através do Stellaris. O tempo se passou, abandonei aquela AAR.
Como puderam acompanhar na ressurreição do AAR, segui a história até 1942, com o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa e uma vitória avassaladora da URSS. Quando você ocupa tudo até a França, o jogo fica desiquilibrado. Infelizmente o Darkest Hour não simula os efeitos globais de uma guerra nuclear, então você pode nukar os EUA e em 2 dias dá um spawn num evento de Revolução, sem que ocorra resposta deles a tempo.
Eu havia jogado um pouco o Federations no começo do ano, mas não segui adiante. Agora vou insistir nele.

Opções de jogo

Bom… Já viram que o próprio jogo já tem um visual e flag comuna customizável :shushing_face: Sempre pensei que se fosse possível existir uma “Nações Unidas da Terra”, sem fronteiras e ainda assim capitalista, seria factível uma “'União Socialista da Terra” em universo paralelo.

Traits: Inteligente, Conservacionista, Comunal, Sedentários e Desafiadores

Bom, mesmo em um futuro alternativo comunista, o único meio da Terra chegar no século XXII seria com um trait “conservacionista”. Inteligente, porque é quase uma pré-config narcisista para a espécie humana. O comunal é autoexplicativo :sweat_smile:. O trait sedentário combina mais com os humanos enquanto espécie do que indivíduos. Desafiadores também porque não existe unanimidade em nenhuma ideologia.

Essa funcionalidade de “origem” é bem legal. Deixou de ser componente cívico e molda o futuro do jogo. Escolhi unificação próspera, por motivo óbvio para a história. Joguei com outras também, e ficou show isso.

Eu jogava na época de 2017 o 2.2 com as éticas “militarista, igualitário e materialista” como “Diretoria Científica”. Entretanto agora não é mais possível.
No jogo, o sentido de igualitário parece dar a ideia (pela descrição) de não haver distinção de ethos (na dimensão filosófica de identidade) entre os indivíduos ou mesmo de status social. Como historiador, a ideia dos conceitos de socialismo ou comunismo (na visão marxista) visionam em stricto sensu não uma defesa de salário/costumes/religiões iguais para todos em qualquer função, e sim uma ressignificação do conceito de mais-valia. Assim, o trabalho não seria direcionado à acumulação desigual de lucros, mas sim de acordo com as necessidades da sociedade como um todo. Salários seriam sim diferentes entre uma função menos especializada e outra mais especializada, obviamente, pelo tempo de profissionalização. Mas isso não significaria uma exclusão de acesso à cultura (ir a um teatro, por exemplo) ou de necessidades básicas (educação, saúde, consumo, por exemplo).
Claro que isso é na teoria marxista. O socialismo pragmático do mundo real (URSS, China, Cuba, etc) apresenta sim problemáticas de exclusão, estratificação violência de Estado ou de particulares (agentes do Estado ou não). Isso é inegável e injustificável. Tão inegável também é o fato de que em qualquer outro país capitalista, existem em maior ou menor grau problemáticas semelhantes. Nem um erro de nenhum dos lados pode para justificar o outro, ao meu ver. Aí minha visão filosófico-religiosa pessoal é que o problema mesmo está com os seres humanos mesmo em si… :slightly_frowning_face:
Moral: Tudo isso para justificar o porquê o não uso dessa ética agora. A recombinação das éticas gera outros tipos de governo totalmente diferentes com uma “união socialista mundial” (como conselhos militares, consenso racionais, etc). Por outro lado, acredito na caracterização de materialista fanático e militarista, pelo contexto da história alternativa criada. Aqui eu peço desculpas ao Hiryuu, se ele ler isso. Juro que não é plágio :face_with_hand_over_mouth:

Configs: Galáxia Gigante (1000 Estrelas), Espiral (4 braços), 16 AI, Sem AI avançada, 4 Fallen Empires, 3 Corsários, 1X Mundos Habitáveis/Custos, 1X Custos de Tech, 2,5X Civs primitivas, 1,5X Força da Crise, Sem aglomerados, 1,5X Rede de Hiperestradas, 1X Portais/Wormholes, Dificuldade: Capitão. (Sou noob nisso).
Bom eu espero que meu notebook rode o jogo (i5 8ªGeração, GTX 1050 4GB, 8GB de RAM). Por mim eu jogava até o ano 3000, mas o lag é insuportável. Fora a paciência… Li no fórum da PDX que o problema parece ser com o número de pops, onde quanto mais deles, maior a exigência de cálculos… E algo com ele não usar totalmente o potencial dos processadores. Ainda assim, coloquei bastante tempo de jogo. Vamos ver se vai dar certo…
Então, vamos lá… Um pouco de space opera comunista :joy: Espero que acompanhem :+1:
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ÍNDICE

PRÓLOGO

OPÇÕES DE JOGO

CAPÍTULO I: O primeiro passo

CAPÍTULO II: Por que estamos sós?

CAPÍTULO III: Entre o futuro e o passado

CAPÍTULO IV: Um admirável mundo novo

CAPÍTULO V: O propósito de nosso tempo

CAPÍTULO VI: Réquiem em Alpha Centauri

CAPÍTULO VII: Primeiro Contato

CAPÍTULO VIII: A Máquina Alienígena

CAPÍTULO IX: Investimento no futuro

CAPÍTULO X: A Floresta Sombria

CAPÍTULO XI: Ameaça das profundezas

CAPÍTULO XII: Júlio Verne

CAPÍTULO XIII: Existências apagadas

CAPÍTULO XIV: Mudanças políticas

CAPÍTULO XV: Contra o relógio

CAPÍTULO XVI: Déjà vu

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@Biller, gostei de ver! Eu juro q to tentando terminar logo a minha pra finalmente ir a fundo no Federations, mas o tempo nunca me ajuda (novidade nenhuma nisso :sweat_smile: ).
Gostei bastante do prólogo, como sempre consegues fazer o pano de fundo perfeitamente. Bora pras estrelas!

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CAPÍTULO I: O primeiro passo

Durante o século XXII, o mundo testemunhou a derradeira revolução de toda a História da humanidade: a despeito das diferenças culturais e crenças, pela primeira vez as fronteiras políticas das nações foram extintas. Com a unificação global, o sistema socialista político real foi gradualmente substituído por uma concepção socialista científica.
A causa socialista científica trouxe um devir à espécie humana, quanto à conservação ambiental do planeta e o desenvolvimento sem precedentes da tecnologia. Por mais de um século, o Diretório de Cooperação Internacional Socialista para a Ciência ganhou importância ,e em 2199,foi transformado em cúpula político-científica sob o nome de Diretório-Geral da União Socialista da Terra. Através de eleições globais, o jovem cientista-chefe do Programa de Física Quântica Experimental - o russo Igor Zhivenkov - foi eleito para um mandato vicenal até 2220.

Em sua campanha, Igor Zhivenkov manifestou uma agenda política com um certo grau de nostalgia aos feitos dos grandes líderes socialistas. A medida que a espécie humana explorasse o Cosmos, essa exploração deveria promover o desenvolvimento industrial, mas ao mesmo tempo sem esquecer dos desafios a serem enfrentados… Muitas vezes de forma bélica, infelizmente.

A mostra da necessidade de manter forças militares cosmonáuticas nasceu em 2172, quando o grande asteroide 711494 Satis entrou em rota de proximidade com a Terra e não foi detectado até se tornar inevitável. O pânico se alastrou por um planeta que contemplava a extinção. Foi então que a heróica missão levada a cabo pela tripulação da recém-construída nave militar Moscou teve êxito em alterar a rota de impacto do Oceano Pacífico para a região de Alberta, no norte do Canadá.
O êxodo em massa na América do Norte provocou distúrbios sem precedentes na megalópolis BosWash. O impacto não causou uma extinção, como se previu. Porém, os tumultos generalizados quase puseram fim à União Socialista Mundial. Não fossem hábeis lideranças do Governo-Geral sob a presidência do então governador-geral francês Antoine Lebouef, pai do atual Governador-Geral Sébastien Lebouef, o mundo teria se despedaçado em caos.

Sem dúvidas, a popularidade do pai e a dedicação à Engenharia Ambiental, a fim de superar problemas como a Zona de Exclusão na Escandinávia, o contingenciamento do problema de detritos plásticos no Oceano Pacífico e a participação na equipe do Doutor Izquierdo Fuentes, responsável pelo Projeto Saara Verde, legaram a Sébastien Lebouef votos mais que suficientes no Grande Congresso Socialista Global para o seu mandato.
No último ano do século XXII, além da presidência de Estado exercida pelo Diretor-Geral e Administrativa pelo Governador-Geral, o Diretório foi composto ainda pelos seguintes membros permanentes: pela cientista-chefe chinesa Lan Zheng, especialista em Propulsão Hipercósmica, do Departamento Central de Engenharia Avançada de Sichuan; pelo cientista-chefe nigeriano Imani Nzeogwu, especialista do Fórum Global de Estudos em Sociedade, em Lagos; e pela cientista-chefe russa Natasha Komarova, especialista do Instituto Lomonossov de Física de Moscou.

Na condição de chefes dos principais departamentos científicos, esses líderes coordenavam o esforço científico em escala global.

Em caráter consultivo, o chefe do Programa Espacial para o Cosmos Profundo, o cientista chinês Qiang He, integrava a última cadeira do Diretório. Sua posição era curiosa, pois era o único membro fora da Terra e cujo escritório ficava na gigantesca Estação Espacial Solar, orbitando o centro do Sistema Solar.
Após as descobertas iniciais acerca do Hipercosmos romperem com as barreiras das distâncias estelares, desafios persistiam. Provou-se possível que algumas sondas não tripuladas pudessem transitar por esse plano dimensional e alcançar outros sistemas estelares… Mas seria possível para os humanos conseguirem isso? Afinal, algumas sondas sofreram danos extensivos e uma delas chegou a se desintegrar na reentrada.
A despeito dos potenciais perigos, Qiang He sempre se mostrou firme e despreocupado. Orientou pessoalmente a construção da gigantesca nave científica batizada de Korolev, em homenagem ao pioneiro engenheiro-chefe do programa espacial da antiga União Soviética. Diferente de qualquer outra de suas predecessoras, fora montada com a propulsão hipercósmica. Demonstrando um inabalável espírito de liderança, Qiang He solicitou ao Diretor-Geral a capitânia da nave e a custosa construção de uma segunda.nave.

A 20 de fevereiro de 2200, após uma viagem de quase três meses aos limites do Sistema Solar, na nuvem de Oort, a nave Korolev atingiu o escape gravitacional do Sol. O motor de propulsão hipercósmica tinha suas limitações: além de obrigatoriamente ser acionado fora do campo gravitacional do Sol, exigia uma quantidade gigantesca de energia obtida por fissão nuclear, exigindo dias para alcançar força para romper o espaço-tempo e ao mesmo tempo alcançar seu destino com o menor risco possível.

Em um célebre discurso, que chegaria com horas de atraso no longíquo ponto do espaço na Nuvem de Oort, o Diretor-Geral Igor Zhivenkov, parafraseando as palavras do cosmonauta pioneiro Alexei Leonov, proferiu:

- …Um dia nossos pioneiros deram os primeiros passos de uma jornada até as estrelas. Hoje, a heroica tripulação da Nave Científica Sergei Korolev se prepara para caminhar rumo ao desconhecido e cumprir esta jornada iniciada há dois séculos. Pelo esforço coletivo de um mundo socialista, esses heróis corajosos chegaram no ponto mais distante da Terra… Mas saibam que não irão sozinhos! Levam consigo nossa gratidão por tão destemida coragem e todos os sonhos e esperanças da Humanidade!
A emissão da cálida luz azulada dos exaustores de radiação da nave marcava o salto para o desconhecido…

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História alternativa sempre fica legal, ainda mais do Biller :grin:

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Sim, ainda mais como ele contextualiza os eventos iniciais do planeta. Além de ser um bom escritor de épico.

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Já comecei a gostar pelo título, com essa referência aos cosmonautas. Bom capítulo, sua narração sempre me agrada. Dá-lhe!

Dá um spoiler aí para nosotros: xenófilos ou xenofóbicos? Hahahahahaha

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Agradeço a todos :+1:

Só posso dizer que eu comecei com certa intenção xenófila, mas as circunstâncias não ajudaram muito :shushing_face:

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CAPÍTULO II: Por que estamos sós?

Uma forte onda de choque sacudiu a nave Korolev, após a saída do Hipercosmos. Na ponte, os imediatos mal se aguentaram em suas cadeiras. O capitão-comandante Qiang He era o único que mantivera o semblante praticamente inexpressivo, mas que escondia uma enorme satisfação… Haviam feito a travessia para o Sistema Binário de Sirius!

As primeiras leituras eram surpreendentes. Os fragmentos de informações colhidos pelas sondas das décadas anteriores que apontavam a existência de moléculas orgânicas no sistema não chegavam nem próximos do que os sensores da nave captavam: a zona habitável do sistema estelar era maior que o projetado inicialmente, envolvendo cinco planetas telúricos entre os sete de Sirius… E o mais incrível: os enormes planetas Sirius II e Sirius III indicavam massas de água em estado líquido! Pela rotação do sistema, Sirius II estaria ao alcance em dois meses.
A bordo da Korolev, oficiais de Cosmofísica e Engenharia Cosmonáutica debatiam as principais teorias sobre esse plano dimensional que foram concretizadas. Principalmente aquela que apontava a abundância de radiação gama no hipercampo… Altamente nociva para qualquer estrutura orgânica, impeditiva de observação a olho nu e sugestiva de blindagem total no casco na nave.
Outras teorias foram comprovadas: a incapacidade de manobra bidirecional, impossibilitando o “salto dentro do salto”; e o impedimento de comunicações de dentro do Hipercosmos para o Espaço-Tempo. No entanto, protótipos de “boias de comunicação por navegação hiperpropulsada” permitiriam comunicações com semanas de atraso, substituindo a comunicação convencional que impunha um atraso de quase uma década, uma vez que Sirius estava a mais de oito-anos luz da Terra. Graças a essas constatações e as limitações de funcionamento da propulsão hipercósmica, os sistemas de navegação poderiam construir uma espécie de rede de “hiperestradas”, com saltos unidirecionais sistema-a-sistema.
A chegada da Korolev a Sirius II foi marcada por expectativas, em meados de abril de 2200, quando a nave orbitou o exoplaneta. As leituras indicam que a massa total de Sirius II e seu diâmetro planetário era 20% maior que a Terra. A composição atmosférica indicava um ar extremamente rarefeito para a fisiologia humana. E, assim, várias equipes de exploração desceram ao planeta.

Equipe de exploração XVII no Vales Fera Harenae, na latitude norte de Sirius II. O brilho azulado das estrelas binárias tornava o céu muito parecido com o céu terrestre.

O clima árido do planeta com certeza não era um impeditivo para o maior achado do século XXII: havia vida em Sirius! Havia formas de vida a base de carbono em abundância sobre a superfície do planeta… De vida microbiana a vegetais e animais de grande porte. Ao longo de duas semanas, as equipes colheram informações suficientes para décadas de Exobiologia. Prospecções indicavam ainda uma variedade anômala de recursos exóticos a serem investigados no futuro.

Os relatórios enviados para a Terra respondiam a uma das questões mais inquietantes… A vida certamente era abundante no Universo! Enquanto a Korolev para inspecionar Sirius IV, as notícias, imagens e informações de Sirius II se espalhavam pelo mundo. Os modelos climáticos indicavam que, pelo ciclo de translação, o planeta possuía três estações definidas, desde uma estação de leve regadio, uma de altas temperaturas e outra simplesmente infernal. Era impressionante como um mundo árido como aquele pudesse suportar tamanha variedade biológica!
Na Estação Espacial Solar, os últimos preparativos para o comissionamento da Nave Científica Gagarin foram finalizados com pressa. Com tamanho sucesso da Missão Sirius, não a toa o Diretório-Geral determinou a antecipação de uma nova missão. Sirius havia sido uma escolha segura antes de Alpha Centauri, apesar da distância superior, pois a força gravitacional das estrelas havia praticamente eliminado a constelação de meteoroides. Contatou-se anteriormente que o sistema ternário de Centauri possuía quantidades elevadas de objetos errantes. Assim, a gigante vermelha de Barnard recebera prioridade.
Para a Missão Barnard, o cientista-chefe do Programa de Exoarqueologia Solar - o indiano Rajesh Chandrasekhar - foi escolhido como capitão-comandante na nave. Sua controversa teoria sobre “Sistema Solar: Um Laboratório Esterilizado?” havia ganhado força com a ausência completa e “forçada” de vida além da Terra. “Forçada”, segundo ele, uma vez que planetas como Vênus, Marte e luas dos Gigantes Gasosos continham moléculas orgânicas e formações rochosas anômalas em quantidades significativas no sistema, o que indicava algum processo artificial de esterilização do Sistema Solar, semelhante a um laboratório de microbiologia, onde o único ponto de interesse está sobre as placas de Petri ou em incubadoras.
A viagem da Gagarin para a nuvem de Oort ocorreria sob a expectativa de um salto bem sucedido. Entre os milhares de tripulantes e oficias na nave científica, haviam aqueles que viam na nomeação de Chandrasekhar, uma compensação política para anos de busca científicas infrutíferas.

Enquanto a Missão Sirius prosseguia, em agosto de 2200, a nave Gagarin saltou de forma bem sucedida para o Sistema da Estrela de Barnard: uma Gigante Vermelha, na qual orbitavam quatro planetas: três telúricos e um gigante gasoso. Os sensores não indicavam presença de água em estado líquido no sistema ou pontos de interesse. Pela posição de navegação, Barnard IV, o gigante gasoso, seria o primeiro planeta a ser investigado.
O planeta em si não parecia ser muito diferente de Júpiter. Era composto por hidrogênio e hélio… Um pouco frustrante para o capitão Rajesh, que esperava poder ter a mesma sorte que Qiang He, encontrando uma descoberta semelhante. Só restava completar a rotação orbital e seguir para Barnard II.
Minutos antes de completar o ciclo orbital e acionar a sequência de impulsão a 100%, um jovem oficial da ponte notou algo estranho no visor. Uma leitura tênue e contínua de massa. No mesmo instante, os sensores computadorizados dispararam na ponte, com a voz metálica ecoando:
- ALERTA DE PROXIMIDADE! ALERTA! ALERTA DE PROXIMIDADE!
Todas as contramedidas foram ativadas. A energia do processo de ignição fora redirecionada para os escudos. Minutos se passavam sob muita tensão. A despeito dos temores, nenhuma frequência ou sinal luminoso era captado. Somente a estrutura massiva figurava nos sensores. E o que aparecera apenas neles, começava a se tornar um contato visual, refletindo a luz rubra da estrela. O capitão-comandante Rajesh foi aconselhado por mais de uma vez à reversão evasiva, como previa o protocolo… Mas sua curiosidade e anseio por resposta superou sua razão naquele instante.
Ao se aproximarem, a estrutura emudeceu a todos na ponte… De natureza claramente metálica e orbitando passivamente o planeta…Inerte.

Os drones enviados indicavam danos por impacto no casco e destroços numerosos. Análises indicavam vestígios de combustão de propulsão química em aberturas semelhantes a baias, datados em centenas de milhares de anos. Se assemelhava à Estação Espacial Solar, mas como haveria de ser? Mesmo a gigantesca nave Gagarin parecia ínfima perto da estrutura, que alguns sentiam dificuldade em chamar de “alienígena”. Uma área que se assemelhava a uma impacto estrutural parecia ainda completamente selada.
O capitão-comandante leu o relatório da situação à tripulação. Sabia perfeitamente que o protocolo de evasão deveria ser seguido, mas não o fora. Sabia também que fosse uma presença agressiva, naquela distância a fuga era inescapável, então qualquer ação era possível. Enobreceu a coragem de todos, ressaltando que a exploração do desconhecido impunha desafios e assumiu a responsabilidade diante do Diretório-Geral. Tudo seria reportado de imediato para a Terra e suas ações provavelmente seriam postas a judice.

Quando os relatórios de informação eram analisados com cautela na Terra, o Diretor-Geral Igor Zhivenkov pessoalmente sabia que havia acertado no apoio à Chandrasekhar. Fosse outro oficial-comandante provavelmente a nave teria abandonado a missão, por covardia ou excesso de cautela. O cosmos não certamente não era para pessoas temerosas. Mas devia instaurar uma sindicância para apurar as ações do comandante.
Enquanto o Sistema de Barnard seguia sob escrutínio da Gagarin, seria a Korolev e seu comandante Qiang He que encontrariam outro achado perturbador. Na lua congelada de Sirius IV, um ponto isolado emitia ondas significativas em infravermelho, localizado em uma cadeia montanhosa. Ao chegar no local, as equipes de inspeção, informadas do “encontro” em Barnard e crentes de se tratar de objeto artificial, depararam-se com um maquinário operando para sustentar a sinalização de calor. Após dois dias, os geólogos e engenheiros chegaram à conclusão que o maquinário possuía relação com prospectos minerais na região… Era uma espécie de farol rastreador indicativo para mineração de origem extraterrestre, deixado ali há milênios.

As notícias dos “encontros” foram largamente difundidas em todo o mundo, com o temor de como a opinião pública encararia a realidade dos fatos por parte do Diretório-Geral… O mundo estava aberto a Ciência, mas uma coisa eram os resultados de um laboratório, outra era a constatação que não estávamos sós!

O achado por parte da Korolev acabou sendo um atenuante para o cientista Rajesh Chandrasekhar, que teve o processo discretamente arquivado após a opinião de Qiang He, indicando que um encontro é inevitável independentemente de qualquer protocolo. Pelo contrário, o Diretor-Geral Igor Zhivenkov emitiu uma declaração largamente favorável ao comandante indiano. Era evidente naquela conjuntura, que aquilo que os humanos consideravam como “evasivo e não beligerante”, poderia ser visto como “ameaçador” por outra inteligência. Afinal, os dois primeiros sistemas extrassolares explorados pela humanidade apresentavam provas incontestáveis não apenas de vida senciente, mas indicativas de intenção…
Construir uma estação espacial, implantar um rastreador de mineração. Quem ou o que colocou tais estruturas teria não um instinto provavelmente, mas um propósito… Qualquer que fosse ele. Por mais que as antigas perguntas fossem respondidas, outras resistiam, principalmente aquela que questionava o “isolamento da Terra”, como teorizado por Chandrasekhar, enquanto logo nas cercanias do Sol haviam restos incontestáveis de datações diferentes.
Se os vestígios são evidentes e provam atividades de origem inteligente no passado, por que continuamos sós?

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Sabe, Biller, se você já não pensou nisso eu sugiro que um dia ponha esse AAR na gráfica e, sem as imagens, publique, modificando, claro, uns nomes ou outros que possam ocasionar em problemas autorais com a Paradox e talvez apronfundando ainda mais em detalhes e narrativa. Daria um ótimo livro de história alternativa e ficção científica. Ademais, ótimo capítulo, o detalhe do sacode interseccional na travessia galática foi ótimo.

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Pontuando os acontecimentos com extremo detalhismo e realismo. Bom, é o Biller, o que mais esperar? :grin:

Eu compraria sem pestanejar :slight_smile:

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Ti na vibe dos contos de ficção científica e digo que o Biller e até o Hiryuu seriam bons escritores.

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CAPÍTULO III: Entre o futuro e o passado

No apagar das luzes do século XXII, as missões da Korolev e da Gagarin representavam o ápice do esforço tecnológico humano. A primeira delas surpreendia pelo achado de uma exo-biosfera, e a segunda surpreendia o mundo com um novo achado Barnard I. O planeta era muito semelhante a Marte, pela presença abundante de óxido de ferro e atmosfera rarefeita, sem nenhuma forma de vida. Mas uma das dezenas de sondas de ressonância de longo alcance captaram uma estrutura artificial em um ponto montanhoso sobre a superfície.

Quando uma equipe liderada pelo próprio comandante Rajesh Chandrasekhar alcançou o ponto de interesse encontraram um túnel escavado até uma espécie de cofre subterrâneo. Definitivamente quem criou a câmara subterrânea e quem escavou o túnel estavam separados por uma diferença de tempo gigantesca. Seja como for, as tentativas iniciais de prosseguir para a câmara requeriam equipamentos pesados e tempo.
Chandrasekhar solicitou permissão ao Diretório-Geral para prosseguir na investigação do sítio, mas a mesma foi indeferida sob a justificativa de que se fazia necessário inspecionar a maior quantidade de sistemas solares no aglomerado estelar local em busca de mundos habitáveis ou evidências de inteligência xenobiológica. Mesmo a contragosto, o capitão-comandante indiano sabia que sua teoria científica sobre o “Laboratório Esterilizado”, não havia outra escolha a não ser continuar explorando em busca de respostas.

Com o término da Missão Barnard, o saldo da exploração havia superado as expectativas. Obviamente os holofotes ainda estavam sobre a Korolev, que rumava para o segundo mundo potencialmente habitável de Sirius. Mas a tripulação da Gagarin podia se sentir orgulhosa. E, assim, foi designada para o conjunto trinário de Alpha Centauri. Em março de 2201, a nave iniciou o salto, deixando boias de comunicação para trás a fim de criar um novo canal de comunicação direta com a Terra.
Aperfeiçoando e ajustando a navegação pelo Hipercosmo, o terceiro salto executado pelos exploradores humanos já apresentava uma estabilidade um pouco maior que os anteriores. Na chegada ao sistema, os primeiros prospectos obtidos pela tripulação de Chandrasekhar eram surpreendentes… Os sensores captaram água em estado líquido na superfície do planeta telúrico Alpha Centauri III, que orbitava a estrela principal do sistema.
O sistema trinário era composto por: Alpha Centauri A, estrela Classe G, semelhante ao Sol, na qual orbitavam cinco planetas - quatro telúricos e um gigante gasoso; Alpha Centauri B, estrela Classe K, uma gigante laranja na qual orbitavam três planetas - dois telúricos e outro gigante gasoso; e Proxima Centauri, uma anã marrom na qual orbitavam dois planetas - um telúrico e um gigante gasoso.

Com o novo prospecto habitável, o Diretor-Geral Igor Zhivenkov enviou uma moção ao Grande Congresso Socialista Global para a aprovação da alocação extraordinária de recursos para um feito sem precedentes… A primeira missão colonizadora da História! Para tal, fazia-se necessário a construção de uma gigantesca nave colonial. Se uma nave científica possuía pouco mais de novecentos metros, uma tripulação de quase dez mil tripulantes, uma nave colonial teria o tamanho de doze quilômetros com pelo menos cinco centenas de milhares de colonos em “animação suspensa” fora a tripulação!
De fato, após a hecatombe entre o fim do século XX e o início do Século XXI, a população crescera em níveis geométricos. Com 32 bilhões de habitantes, a Terra possuía uma superpopulação próspera, mas que ainda enfrentava desafios ambientais. Há seis anos o antigo Diretório de Cooperação Internacional Socialista havia iniciado um programa de colonização espacial, selecionando famílias candidatas de todas as partes do mundo. Agricultores, professores, médicos, mecânicos, usineiros, engenheiros, militares… Pessoas de diferentes especializações agora seriam exploradores do Cosmos. Aprovada a moção do Diretor-Geral, em 3 de junho de 2101, o casco da Colectivitas foi lançado na Estação Espacial Solar.

Vista interna do átrio principal do casco da Colectivitas. Com quase um quilômetro de extensão, ali seria inserida a antecâmara de refrigeração do reator principal de fissão nuclear.

No final do mês de julho de 2101, Igor Zhivenkov visitou o estaleiro de construção da Estação, onde milhares de operários e técnicos trabalhavam incessantemente para ajustar cada rebite e solda da nave. E foi justamente durante essa visita que chegaram novos relatórios enviados pela tripulação da Korolev. Após meses de exploração, a nave alcançou a órbita de Sirius III… E o capitão-comandante Qiang He anunciou que o segundo exoplaneta habitável era simplesmente uma nova Terra…

O diâmetro planetário era 25% maior que o padrão terrestre e possuía dois satélites naturais. A atmosfera de Sirius III era composta basicamente por nitrogênio e rica em oxigênio, em uma taxa de quase 25%, maior que os 21% da Terra, além de outros gases nobres. Possuía uma flora e fauna ativas em todos os biomas. Várias equipes de exploração foram enviadas a diferentes pontos do planeta. Após extensas análises por patógenos aerodispersados ou substâncias tóxicas, comprovou-se a segurança do exoplaneta. Pela primeira vez em mais de um ano, os exploradores desfrutavam de ar respirável e abundante presença de água.
O mapeamento cartográfico geral feito pelas equipes de exploração e as fotos encheriam os olhos de todo o mundo. O que a humanidade sonhava como um novo lar estava bem ali… Nas “cercanias” da Terra. Sirius III possuía não apenas uma biosfera ativa, como análise geológicas indicavam uma presença maciça de minerais metálicos, como ferro, cobre e alumínio, em quantidades superiores à terra, além de um grau pureza elevado.

Vista de um dos vales do grande rio setentrional batizado de “Ek’tablan”. O rio corria para o norte do supercontinente de recém-nomeado “Ngaherenui”. Grandes formações vegetais setentrionais permeavam uma área equivalente ao dobro da Floresta Tropical Amazônica.

O clima de euforia tomou conta da humanidade. Através do progresso tecnológico, os humanos poderiam ocupar novos mundos. Definitivamente a hipótese da “Terra Rara”, postulada ainda no século XX, estava descartada… A capacidade de sustentar a vida não era uma exclusividade da Terra. Sirius III era a reposta para o futuro socialista de todas as sociedades humanas.
As descobertas ao longo de mais de um mês de exploração foram emblemáticas. Mas igualmente relevante ou até mesmo mais importante foi o que a Korolev encontrou no mundo estéril de Sirius V dois meses depois. Parecia estar se tornando praxe encontrar vestígios em mundos desabitados, mas não como aqueles…
Uma das equipes de exploração encontrou uma enorme instalação na superfície daquele mundo. Diferentemente dos achados em Barnard, aquela estação parecia ser incrivelmente antiga, apesar do estado de conservação. Grande maquinário de superfície semelhante a veículos estavam fortemente deteriorados, talvez pela ação atmosférica em milênios. Diversos restos mumificados foram encontrados. Os arqueólogos forenses puderam estabelecer a datação aproximada… Em pouco mais de 2 milhões de anos!
Até mesmo o material que compunha as paredes estruturais daquela instalação pareciam diferentes de qualquer material conhecido na Terra, mas com semelhança a uma mistura cerâmo-metálica. Levaria anos para decifrar os sistemas de linguagem, não fosse a capacidade remota do computador de bordo da Korolev em processar padrões matemáticos. Uma das cinco representações gráficas era constituída de um padrão binário, quase uma nova “Pedra de Roseta” da Era de Exploração do Hipercosmos. Aquela instalação e informações pertenciam a um forma de organização xenológica chamada de “Primeira Liga”.

Apesar dos sistemas eletrônicos alienígenas estarem danificados para reativação, um dos exploradores encontrou uma placa holográfica funcional, com uma carta de navegação estelar. Era tudo muito óbvio… Mas ao mesmo tempo não. Sinais de abrasão nas paredes indicavam disparos dentro da instalação. O capitão-comandante Qiang He teorizou que algum tipo de incursão bélica vitimou os ocupantes de diferentes espécies. O porquê isso ocorreu ainda não estava claro. O que havia de valor efetivamente fora levado, embora, para os exploradores humanos ali presentes, os dados recolhidos eram incrivelmente valiosos.
Pelas análises, a Primeira Liga era uma civilização multi-espécies que ocupavam uma vasta região da Galáxia, uma espécie de confederação que existiu entre 2,5 e 2 milhões de anos antes da Era Comum. Ironicamente o Sistema Solar e o Sistema de Sirius compunham o núcleo de seu domínio espacial. Muitas respostas pareciam incompletas, mas começavam a explicar o vazio de inteligência do presente.
Pela idade dos vestígios, essa inteligência precursora poderia ter testemunhado a gênese do gênero humano sobre a Terra? Seriam responsáveis por interferências no curso evolutivo pouco explicado dos primeiros hominídeos? Teriam eles nos visitado com o mesmo interesse que hoje nós os visitamos? Por um paradoxo apresentado pelo Cosmos, os achados da Korolev, no início do Século XXII, representavam ao mesmo tempo respostas para o futuro e para o passado…

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Não relacionado ao jogo, mas interessante para o assunto, um livro sobre as sondas planetárias da URSS+Russia, de 1960 a 2000 (em inglês):
Russian Planetary Exploration, Brian Harvey

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Bah, que belo começo. Ritmo acelerado e já com os Precursores, essa campanha promete :upside_down_face:

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CAPÍTULO IV: Um admirável mundo novo

Enquanto na Terra a descoberta dos Precursores adicionou uma vasta gama de conhecimentos aos debates de Exobiologia no Fórum Global de Estudos em Sociedade, as expedições prosseguiam revelando novas dados sobre o Cosmos. Após a chegada ao sistema ternário de Alpha Centauri, o capitão-comandante Rajesh Chandrasekhar havia se deparado com um sinal de rádio captado pelos sensores da Gagarin.
Após um mês de registros de repetição, o sinal foi inteiramente analisado durante a circunavegação de Alpha Centauri B. Tratava-se claramente de natureza inteligente e era espantoso o fato de como fora captada pela nave em vez de dos receptores na Terra. Era uma sequência musical. E o mais incrível é que ela representava uma solução matemática complexa para a gravitação quântica, unificando os conceitos na Teoria de Relatividade Geral e Restrita. A geodesia do sinal indicava que o sinal tinha uma origem extragaláctica… Aparentava ser da galáxia espiral de Andrômeda, a 2,5 milhões de anos-luz da Via Láctea.

Ainda que os fundamentos para a proposição da equação não pudessem ser provados, a sequência musical não saía da mente do capitão-comandante. O sinal parecia um eco de repetição em FM de alta potência do sinal original, este feito através do Hipercosmos há milhões de anos. Deste modo, Chandrasekhar teorizou que possivelmente a Primeira Liga havia criado um canal de comunicação experimental com uma inteligência de outra galáxia. Quem ou o que havia produzido o sinal poderia ter desaparecido.
A dezembro de 2201, a nave de construção multi-plataformas Proletária fora designada para Sirius. Sua missão seria pioneira: a montagem da primeira estrutura de ocupação humana permanente fora do Sistema Solar - a Base Extrassolar de Sirius. Consolidava-se a tradição humana de busca e superação do desconhecido… “A curiosidade sobre o Cosmos havia nos trouxe até este momento”, referia-se constantemente o Diretor-Gerl Igor Zhivenkov em seu pronunciamento sobre a empreitada, que visava a colonização de Sirius III.

Nos moldes da Estação Espacial Solar, a Base de Sirius orbitaria a gigante principal - Sirius A - marcando o início da ocupação humana além do Sistema Solar.

Após mais de um ano na Missão Sirius, a Korolev marcou seu curso para os limites da nuvem de planetesimais do sistema. O alvo era o sistema estelar da anã vermelha de TRAPPIST, a 39 anos-luz da Terra. O nome da estrela era uma herança do observatório sul-americano homônimo que descobriu a estrela, no começo do Século XX. Desde aquela época, especulava-se sobre os planetas potencialmente habitáveis que orbitavam a estrela, e o capitão-comandante Qiang He fora o primeiro a endossar o sistema como alvo. O Diretório-Geral concordou de modo unânime pela designação de curso.
No início de fevereiro de 2202, o quarto salto tripulado ao Hipercosmos ocorreu. Pela experiência em Sirius, Qiang He fora apelidado nos noticiários na Terra de “Andarilho das Estrelas”. Seus protocolos testados aprimoravam a capacidade de inspeção de mundos. Não a toa a Frota Cosmonáutica da União Socialista aproveitou essa experiência e criaria uma especialização na área de “Inspeção e Prospeção de Dados Exoplanetários” nos futuros cursos de oficiais. Após a reentrada no espaço-tempo comum, os sensores de longo alcance foram ligados. Os dados coletados eram eram animadores.

O Sistema Trappist era composto por sete planetas telúricos, no qual o último orbitava a estrela anã vermelha em uma distância semelhante entre o Sol e Marte. A zona habitável do sistema estelar presente, incomum, tendo em vista a classe estelar, e extensa, com três mundos apresentando indicativos orgânicos e massas de água.
Sob um clima de entusiasmo coletivo, e após meses de trabalhos intensivos, a gigantesca nave colonial Colectivitas foi lançada na Estação Espacial Solar. Em julho de 2202, o embarque de milhares de colonos foi iniciado, coroando o um êxodo de milhares de pessoas. Devido ao tamanho colossal da nave, sua velocidade subluminal era menor que o padrão da Frota. Isso motivou a um “embarque em rota”, no qual as naves cargueiras, que eram mais velozes, deviam levar os colonos e promover um embarque ao longo do trajeto dentro do Sistema Solar.

Para embarcar quase meio milhão de colonos, várias levas de transporte de colonos e equipamentos foram necessárias, na maior mobilização logística desde o século XXI.

Outra preocupação era poupar o casco estrutural para o salto no Hipercosmos, que deveria contar com estabilizadores extras e uma precisão cirúrgica de navegação, a fim de não afetar o imenso complexo de suporte biológico de milhares de colonos em animação suspensa. A viagem até Sirius III levaria cerca de sete meses.
Em agosto de 2202, a Proletaria concluiu os esforços de construção da Base Extrassolar de Sirius. A ocupação de outro sistema estelar era um marco na exploração do Cosmos e criava a primeira rota cargueira que utilizava o Hipercosmos. Possuiria uma tripulação permanente e serviria como ponto de coordenação da exploração do Sistema Sirius.

No sistema Alpha Centauri, a Gagarin alcançou a orbita de Alpha Centauri III, mundo continental que orbitava a estrela principal do sistema ternário, em dezembro daquele ano. Da ponte, a tripulação imediata do capitão-comandante Rajesh Chandrasekhar pode contemplar o planeta, quase do mesmo tamanho que a Terra. Para o comandante, alcançar aquele mundo habitável era gratificante o feito depois de meses de exploração em mundos desabitados. A visão de um novo lar era simplesmente indescritível.

Várias equipes de exploração desceram à superfície, a fim de mapear e explorar o exoplaneta. As projeções computadorizadas indicavam que aquele mundo possuía um clima diferente da Terra. Sob a influência gravitacional de mundos próximos, as marés e as massas atmosféricas criavam condições adversas, como grandes furacões e tempestades elétricas gigantescas. Isso é claro, não impedia a prosperidade do meio ambiente local, com evidente abundância de fauna e flora, mas exigiria maior cautela para a ocupação humana.
Evidentemente, tais condições adversas ainda não eram nem próximas ao caos que a Terra conhecera no Breve Inverno Nuclear do final do Século XX, que causou destruição climática sem precedentes. A geofísica de Alpha Centauri III foi verificada assim como o bio-scanning, em busca de patógenos ou microorganismos nocivos aparentes, sem nenhuma outra anormalidade comum encontrada em ambas as verificações. Obviamente seria na colonização futura que esses dados seriam verificados com maior escrutínio.

Nos céus de Alpha Centauri III era possível contemplar o gigante gasoso Alpha Centauri IV e sua lua Faunus. Devido a influência gravitacional, Alpha III não possuía satélites naturais.

Coincidentemente na mesma ocasião em que a Terra tomava ciência do novo mundo habitável, a Korolev anunciou um achado no planeta inabitável de Trapist II. Durante uma missão de coleta de amostras de solo em um leito magmático extinto, uma equipe encontrou uma elevação montanhosa na qual estava presente uma “estela”. Tratava-se uma placa em rocha esculpida artificialmente, e com uma escrita alienígena extensa.
A composição dos “logogramas” se assemelhava à escrita cuneiforme mesopotâmica, mas, ao mesmo tempo, misturava elementos “pictográficos” semelhantes aos hierófligos egípcios. Seja como fosse, uma análise extensa seria necessária para se iniciar a tradução uma vez que diferentemente do achados acerca da Primeira Liga, no qual um possuía padrão binário, este parecia estar totalmente isolado.

Apesar da relevância, a prioridade do capitão-comandante Qiang He era explorar os três mundos habitáveis antes. Encontros exobiológicos ocupavam àquela altura a atenção prioritária antes de achados arqueológicos.
Na primeira semana do ano de 2203, a Colectivitas entrou na órbita de Sirius III. Após o encerramento da animação suspensa dos colonos, blindagens foram abertas e muitos puderam contemplar o planeta com seus próprios olhos…

Diferentemente das outras naves da Frota, a nave colonial era preparada para a entrada na atmosfera e pouso. O desembarque dos tripulantes e dos colonos bem como de todo o equipamento seria feito no solo, para facilitar a logística. O próprio reator nuclear da Colectivitas fora preparado para servir como fonte de energia para o primeiro assentamento urbano. O casco seria adaptado como sede administrativa colonial e ponto de comunicação com a Terra. O local de pouso escolhido foi o delta de um rio caudaloso, em vista da abundância de suprimentos e recursos da região florestal temperada do supercontinente de Ngaherenui.
As votações ocorridas meses antes da partida, haviam determinado o nome da primeira colônia da Terra. Mesmo sob a ótica do socialismo científico, mantinha-se a tradição da nomeação de planetas e luas com divindades mitológicas da cultura humana. O planeta seria conhecido a partir daquele momento como Sopdet, o nome da divindade feminina egípcia que representava a estrela de Sirius.
Pelo progresso científico da Humanidade e pelo ideal socialista, a primeira colônia fora estabelecida. Nos próximos anos novas levas de colonos seriam enviadas para endossar a ocupação do novo mundo humano. A natureza exógena de Sopdet encantaria os colonizadores, ao tempo que novos desafios seriam enfrentados. Nos movíamos como uma unidade nesta empreitada de desbravar aquele admirável mundo novo!

EDIT: Então, algumas considerações in-game… O sistema TRAPPIST é um padrão do jogo com três mundos habitáveis (1 deles continental) como pré-set. Sair com esse sistema próximo é um game start perfeito, porque ele não entra no padrão de contagem de “2 mundos habitáveis garantidos”. Com 3 mundos habitáveis, o negócio é dar um rush de colonização antes de qualquer coisa.
Assim sendo, na história dou a entender que sei para qual sistema estava indo, mas estou explorando randomicamente mesmo.
Nunca vi sentido na ideia de que as estrelas também fazem parte do “desconhecido”, porque ao menos o nome delas devia aparecer já que são parte do universo observável (ao contrário de planetas), anyway… :roll_eyes:

Outra coisa… Eu tinha criado um Índice, mas agora vi que após 1 mês eu perco o direito de editar o índice do tópico, então acho que isso fica meio comprometido… :slightly_frowning_face:

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Que escrita épica. Parabéns Biller!

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Estupendo, @Biller, minucioso e envolvente, como sempre :grin:

Bom, acho que aí depende de onde elas estão sendo observadas, rsrs… Mas, né? :man_shrugging:

Sério isso? Ixi, nem sabia dessa… :thinking:
EDIT: True, tinha limite de n minutos para edição de acordo com o nível de confiança do autor… Testaí que eu retirei o limite.

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Bom, a gente tenta… Agradeço :+1:

(Quem manda eu não ser de confiança :face_with_hand_over_mouth: :sweat_smile:) Agora sim ficou beleza! Tá funcionando a edição, valeu :+1:

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