[ST] Os Pioneiros do Cosmos

CAPÍTULO XII: Júlio Verne

A descoberta de uma civilização alienígena indígena em Sopdet foi recebida com grande preocupação na Terra. Inicialmente se pensou que fora um erro gerado de uma inspeção incompleta da Korolev. Posteriormente se considerou que não havia como pensar em responsabilidades, uma vez que ninguém consideraria a possibilidade de uma civilização totalmente subterrânea em um mundo tão próspero.
Fosse uma população de superfície, a situação seria outra. Mas, estando no fundo da crosta terrestre, seu ambiente lhes era imensamente favorável. Estava evidente que eles poderiam provocar sismos em qualquer ponto sob a superfície, possuindo à capacidade de pôr fim à colônia de Sopdet e a quase dois bilhões de habitantes. Não havia nenhum plano imaginado como evacuação em escala planetária.
A despeito da crise interna, o Programa de Expansão da Frota Cosmonáutica continuava. A cientista-chefe Lan Zheng anunciou um contundente avanço no campo da Engenharia de Materiais. Após anos de estudos intensivos nos achados de compostos cerâmo-metálicos em setembro de 2201, Zheng anunciou a replicação deste material para uso industrial mais de oito anos depois.

De igual modo, o Programa de Colonização de Novos Mundos prosseguiu. Poucos dias após a descoberta dos alienígenas de Sopdet, a colonização de Prithvi alcançou dois feitos impressionantes: alcançou a maturidade de suas instituições administrativas e também a marca de dois bilhões de habitantes. Entretanto, diante da ameaça iminente, os voos coloniais estavam temporariamente controlados.

Vista de Nova Jaipur, o segundo maior assentamento urbano de Prithvi, no continente de Sundar.

Não bastasse a tensão em Sirius, a capitã-comandante Ichika Yamazaki, durante a inspeção do sistema Tiamat, reportou um objeto incomum entre destroços metálicos na órbita de Tiamat VI, um mundo tóxico. Equipes da nave Tereshkova estudavam os destroços, identificados como pertencentes à civilização alienígena descoberta pela Korolev - a Consonância Dessanu - quando encontraram ao acaso um objeto pouco maior que uma cápsula de ejeção de emergência. O objeto parecia ter sido lançado em uma órbita estável deliberadamente há dezenas de milhões de anos.
O mais estranho é que o mesmo continha uma espécie de contador regressivo, ajustado à translação do planeta em relação a estrela, e seu contador se encerraria em exatos 42 anos e 3 dias terrestres: precisamente no dia 16 de novembro de 2251. Além disso, seu mecanismo de funcionamento e de construção hermética era exótico, composto de materiais metálicos desconhecidos e de uma incerteza de frequência incomparável. Levaria quase um bilhão de anos para que o mesmo atrasasse um único segundo terrestre.
O conteúdo lacrado hermeticamente na cápsula era desconhecido, e os sensores não conseguiram identificar a substância amorfa em seu interior. Seja pelo incidente com a “máquina alienígena” de Procyon, onde o comandante Rajesh Chandrasekhar acionara um mecanismo desconhecido, ou pelos protocolos revisados de inspeção, a comandante Yamazaki achou por bem marcar sua posição com rastreadores geoestacionários para uma futura análise.

Sem explicação, parecia evidente que o relógio permaneceria como um mistério intrigante nas próximas quatro décadas.

Em 16 de novembro de 2209, o Diretório-Geral determinou o comissionamento emergencial dos seis exércitos das Forças de Assalto Aeroespaciais. Em cerimônia transmitida do Centro de Treinamento de Pirbright, no Reino Unido, a General Margaret Crouch assumiu como comandante-em-chefe das Forças de Assalto Aeroespaciais. Crouch possuía uma longa ficha de comando nas Forças de Defesa Terrestre no Setor Europa, extremamente hábil em comando nos jogos de guerra, cujas “baixas virtuais infligidas” eram classificadas como “vítimas de uma açougueira”.

No comando de mais de meio milhão de combatentes, a General Crouch recebera seu comando em um momento de grave crise de segurança.

Por mais que o esforço militar fosse significativo, o Diretor-Geral Igor Zhivenkov ainda possuía dúvidas sobre a capacidade destas em lidar com a ameaça. As Forças de Assalto tinham a capacidade de alcançar a superfície de Sopdet por volta de 50 dias. Somados aos quatrocentos mil combatentes das Forças de Defesa de Sopdet, cerca de um milhão de soldados estariam a postos.
Mesmo com a preparação militar e as restrições migratórias no sistema de hiperestradas Sol-Sirius-Trappist, o Diretor-Geral acreditou ser o momento uma decisão igualmente crítica: a resolução do debate sobre a colonização ou não colonização de Manthall III, no sistema habitado pelos Ekwynianos. Em dezembro de 2209 advogou junto ao demais membros do Diretório-Geral a decisão. Em uma decisão apertada, na qual dois membros não puderam participar por holo-conferência, Zhivenkov obteve o apoio para comissionar a recém-construída nave colonial Liberação Francesa para o sistema Manthall.
A nave colonial Revolução Francesa levaria cerca de um ano e meio para alcançar a órbita de Manthall III. Além disso, ainda seriam necessárias as custosas construções de bases nos sistemas Mius e Manthall. Frente aos acontecimentos, a expansão colonial foi utilizada pelo Diretor-Geral para efeitos de propaganda. Quanto ao perigo de ação hostil por parte dos Ekwynianos, Zhivenkov afirmou que a Frota seria enviada tão logo a situação de Sopdet se normalizasse.

O sucesso da colonização de Manthall III era incerto, e, em certa medida, eticamente discutível.

Em Sopdet, os preparativos aumentavam à medida que os primitivos escavavam o interior da crosta planetária. Os acesso anteriormente cavados pelos exploradores humanos haviam sido selados como medida retardante ao avanço. As leituras indicavam que uma cadeia de montanhas proeminente no supercontinente de Ngaherenui seria o local com maior potencial para uma das ondas invasão.
Em março de 2210, o toque de recolher civil foi instaurado e a Operação Júlio Verne iniciada. O codinome operacional era irônico e, ao mesmo tempo, mais do que apropriado frente ao contexto. A maior parte dos integrantes-chaves da administração civil planetária foram evacuados para instalações flutuantes nos oceanos. Os estrategistas da Defesa Planetária acreditavam que a invasão se daria em múltiplas frente, incluindo junto às grandes cidades. Assim, as forças foram dispersadas para cobrir o maior território possível, reduzindo seu potencial bélico a regimentos.

Ainda que fossem primitivos, as tropas humanas aguardavam um ataque alienígena massivo, executado com armas sônicas rudimentares e maquinário pesado.

A despeito da preparação, os primitivos no interior crosta planetária não pareciam dar indícios de violência a medida em que se aproximavam. Embora os sismos ainda existissem, a redução da atividade mineradora humana pareceu ter arrefecido as respostas indígenas, e nenhum dano significativo foi registrado.
Nos primeiros dias de maio daquele ano, os sismógrafos apontavam a invasão iminente. Justamente na cadeia de montanhas um maquinário de brocas rudimentares emergiu, sob a observação dos militares humanos ao longe. A ordem era não deflagar nenhuma ação hostil até que os alienígenas o fizessem primeiro.
Os minutos de tensão se seguiam. Ao longe, numerosos indivíduos emergiram. Todavia, apenas um pequeno grupo de indivíduos deixou o interior da montanha. Mesmo com armas primitivas, o grupo parecia ser um destacamento insuficientemente armado. Estavam acompanhados de animais de carga não catalogados na superfície. Seriam suas intenções pacíficas?

Os xenólogos presentes em meio às equipes militares realizaram uma descrição inacreditável dos indivíduos. Possuíam aparência certamente humanoide, porém possuíam quase três metros de altura, uma caixa craniana incrivelmente avantajada e um único órgão ocular aparente. Os cientistas foram unânimes em afirmar que a probabilidade daquela ação representar uma ação hostil era mínima.
Uma delegação humana formada por representantes científicos e militares em trajes de biossegurança se aproximaram dos alienígenas humanóides. Um destes se aproximou de um dos cientistas, onde ambos se encararam por alguns instantes.

Sem o uso imediato de computadores, a comunicação foi gestual. A linguagem empregada pelos alienígenas era fortemente gutural. O cientista apresentou os demais com a palavra “humano”. Imitando o cientista, o “emissário alienígena” descreveu a si e aos seus iguais como “Panuri”. Com o uso de equipamentos holográficos, o próprio Diretor-Igor Zhivenkov pode participar do encontro, o que assustou momentaneamente os nativos. Representações visuais sobre rochas, vegetação e recursos minerais começaram a formar um vocabulário de substantivos de linguagem.
Após várias horas, o sistema computadorizado desenvolveu um software de tradução básico capaz de realizar uma comunicação mais substâncial. O “emissário” se auto-intitulou Gapra Nik, mas não foi possível distinguir se aquele era o nome ou sua “posição social”, pois também informou que era uma espécie de representante de “comércio” dos Panuri. Disse que os humanos haviam chegado do “Grande Nada” que havia acima da superfície. Não possuíam nenhum conhecimento astronômico e tampouco interesse pelo mesmo. Surpreendeu-se pela existência de “seres além do Nada, além da Pedra”.

A civilização Panuri se estenderia sobre cada parte do mundo de Sopdet, conforme falou Gapra Nik. Informou que seu povo e suas cidades eram numerosos e prósperos, com fazendas de “líquens” e com psicultura em veios hídricos subterrâneos. Zhivenkov fez questão de falar que os humanos ocupavam outros mundos entre as “luzes no céu”. Disse que nunca nenhum humano desconfiara da existência dos Panuri. Pensavam que aquele mundo era habitado somente por animais.
Gapra Nik perguntou porque os humanos precisavam morar em tantos mundos, pois, se todos fossem parecidos com o seu, seriam vastos a ponto de nunca conseguirem ocupá-lo totalmente. Zhivenkov respondeu os humanos não poderiam morar no interior dos planetas, somente na superfície. Era evidente que a fisiologia Panuri possuía um grau de tolerância incrível ao gradiante geobárico e geotérmico, pois não precisavam de roupas de proteção tal qual os seres humanos.
A ameaça que os Panuri poderiam representar poderia não estar inteiramente dirrimida com sua ação amistosa, mas certamente eram um alívio. Para firmar uma forma de coexistência, o Diretor-Geral pediu aos Panuri uma “permissão” para compartilhar seu mundo, a fim de uma prosperidade coletiva. Gapra Nik respondeu que assim deveria ser feito em “harmonia”. Demonstrou interesse em fazer comércio com os humanos, apelidados de “superficiais”.

A caravana Panuri retornou para a montanha, afirmando que faria preparativos. Em sinal de amizade, entregou um objeto composto por cristais nunca vistos antes. Gapra Nik teria dito que aquele objeto era um símbolo de toda a sua civilização, em um tom quase sacramental. Zhivenkov perguntou ao comandante militar local se havia motivos para manter a mobilização militar. A resposta foi afirmativa: “Aconselho cautela e manutenção da prontidão de nossas guarnições, Camarada Diretor-Geral”.
A prontidão seria mantida, por hora. Os dados xenoculturais sobre os Panuri eram importantes. Obviamente um estudo seria necessário de fato, mas a tolerância a ambientes hostis e uma resistência fisiológica superior pareciam evidentes. Os Panuri pareciam não ter apreço ou consciência acerca de suas máquinas, pois foram abandonadas na superfície. É possível que tenham uma postura semelhante à humana nos séculos anteriores, onde toda exploração descartava objetos no local explorado.

O tamanho da população Panuri era desconhecido, bem como a localização de seus centros urbanos subterrâneos. Talvez, no futuro, seria possível enviar xenólogos e criar uma espécie de “Zona de Contato Subterrânea”, como elo permanente de comunicação e de escuta.
Os Panuri cessaram todas as perturbações sísmicas na superfície, sugerindo que assumiram uma postura amistosa ao tempo que demonstravam ser mais do que capazes de um enfrentamento militar estratégico. A atividade mineradora de Sopdet não parecia afetar o modo deles, e apenas teria despertado sua atenção. O fato de não ter havido um combate militar planetário já se mostrava um ganho político importante. Se a crise estava totalmente encerrada era incerto, mas o resultado da Operação Júlio Verne era promissor…

Dei até um reload no save para ver se dava um “outcome” agressivo desse evento para deixar a coisa caótica, mas deu novamente contato pacífico. Nem cheguei a mover os exércitos de assalto para a colônia, pois a defesa ficaria fácil também. Então… Bora tentar a amizade com os Panuri. Os traits deles são daoras :upside_down_face:

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Caramba, que início promissor. Agora imagina um conto sob a ótica de um dos humanos presentes…

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Em terra de caolho, quem tem dois olhos é rei. Hora de vassalizar esses Panuri.

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Para o bem ou para o mal :face_with_hand_over_mouth:

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E os meus q “matei” sem querer? :confused:

Texto mto bom, Bill!

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Cada evento/anomalia daria muito mais de um capítulo… Um conto dentro de outro. Tou tentando evitar ser muito descritivo para não cansar a leitura, mas é difícil. :sweat_smile:

Mesmo não podendo interagir com eles como posso com outros primitivos, a ideia é justamente essa, @Lord_Victor … Afinal, são uma continuidade direta da União Soviética. Gulag neles se não gostarem :upside_down_face:

Detalhe que no Stellaris dá pra fazer uma “colônia penal” mesmo…

1q07hp

Valeu, @Hiryuu ! Gosto desse evento da civ subterrânea… Bem montado. Pena que não dá pra interagir muito. Acho que os nativos em vez de atacar diretamente poderiam exigir a “retirada” ou exigir “tributos” pela permanência, anyway…

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CAPÍTULO XIII: Existências apagadas

Durante a crise em Sopdet, nenhuma das naves científicas da Frota sofreu alteração em suas missões assinaladas. Na superfície do mundo inóspito de Mius III, as equipes de exploração da Korolev haviam passado os últimos meses investigando uma estrutura esquelética de proporções titânicas encontrada, que jazia sobre a superfície daquele planeta há cerca de seis milhões de anos. As análises iniciais ocorridas ainda em 2209 indicavam que a forma de vida não poderia ser nativa do planeta e tampouco indicavam qualquer estrutura que indicassem um meio de locomoção terrestre ou aérea, o que era incomum.
Vestígios de radiação na estrutura óssea eram igualmente significativos, pois sua estrutura molecular não parecia se degradar em função dela. Junto à estrutura óssea haviam estruturas metálicas e componentes artificialmente atrelados quase que por “cirurgia”. Novos restos exoesqueléticos alienígenas foram identificados em diversos pontos do “interior” da criatura, porém os mesmos não teriam passado por nenhum processo corrosivo ou digestivo. Tais restos se assemelhavam a artrópodes, todavia deviam ser dotados de um avançado grau de senciência, uma vez que seus exoesqueletos estavam cirurgicamente ligados a um traje metálico.
Após a conclusão dos longos estudos dos restos esqueléticos gigantescos, o capitão-comandante Qiang He e seus oficiais de exobiologia chegaram à conclusão de que a criatura em si era um tipo de “nave estelar orgânica” construída por Bioengenharia, possuidora de alguma forma de "biopropulsão. Era capaz de se locomover pelo Cosmos Profundo, gerando uma bioenergia a uma escala nuclear. Já os alienígenas artrópodes em seu interior eram a “tripulação”, talvez os construtores. Talvez a nave fosse seu meio de viagem interestelar comum ou algo experimental, mas certamente um dano catastrófico seputou a todos milhões de anos antes do surgimento da Primeira Liga. Não havia como comprovar todas as hipóteses.

O grau de desenvolvimento de Bioengenharia ali presente estava muito além dos conhecimentos tecnológicos humanos.

Paralelamente, a nave Glushko, capitaneada pela comandante Nancy Cochrane, havia descoberto um oceano abaixo da camada de gelo da superfície do mundo congelado de Aphris VI, observado inicialmente como um planeta sem vida. Com o ocorrido em Sopdet e sua civilização subterrânea, todas as naves da Frota adotaram um protocolo de exploração profunda das crostas planetárias. E, ao fazer isso, as equipes da Glushko acabaram por descobrir o oceano aquecido de forma hidrotermal, dotado de uma biosfera ativa. Tal qual a da Korolev, a expedição levaria vários meses.
Com o aparente fim da crise em Sopdet, o Diretório-Geral liberou recursos que estavam canalizados para o esforço militar. Nos dois últimos anos, a única exceção civil fora a nave colonial Liberação Francesa, pois três novas corvetas haviam sido comissionadas em 2208 - as naves Mesopotâmia, Londres e Paris. Após tamanho esforço industrial, a sexta nave científica da Frota teve seu comissionamento. Seu nome era Wenzhong.
O nome da nave era uma homenagem ao físico chinês Li Wenzhong, descobridor do plano dimensional alcunhado de Hipercosmos e fora também o primeiro a conceber a física motriz de propulsão hipercósmica, na última metade do século XXII. Wenzhong fora uma das mentes mais notáveis tal qual Albert Einstein, Stephen Hawking e Anant Patel. O comando seria entregue à brilhante cientista sul-africana Imani Mbanjwa, antes chefe da Seção de Matriz Cibertrônica.

A nave Wenzhong seria enviada para uma longa viagem ao sistema Urrom, e, a partir dali, para estrelas desconhecidas além do aglomerado local.

O novo comissionamento inaugurava uma nova geração de tripulações e oficiais de comando. Parte dos tripulantes experientes da Korolev e da Gagarin cederam lugar a novos em um sistema de rodízio. Já alguns oficiais mais experientes foram promovidos a novos postos da Frota ou assumiram cadeiras em cursos de instrução na Terra. Ter tripulações mistas era fundamental para o sucesso da Frota Científica.
Após deixar o sistema Mius, a nave do capitão-comandante Qiang He alcançou o campo gravitacional da anã-vermelha M3V976-79546, batizada de Faenov, Vyacheslav Faenov, físico soviético russo do final do século XXI que trabalhou junto a Anant Patel na análise experimental dos táquions e suas interações extra-dimensionais.
Sem nenhum planeta potencialmente habitável e tampouco nenhum telúrico, a Korolev marcou rumo de inspeção para as luas do gigante gasoso Faenov II, um dos dois gigantes do sistema. Analisando a composição atmosférica e de superfície da lua tóxica Faenov II B, em setembro de 2210, as equipes fizeram uma sórdida descoberta: aquela lua era um mundo continental que possuía uma biosfera ativa e uma civilização indígena avançada… Porém esta civilização pré-espacial encontrou seu fim em uma hecatombe termonuclear há mil anos!

Nuvens de fuligem e enorme quantidade de partículas radioativas permeavam a densa atmosfera tóxica da desta Lua continental.

A destruição autoinflingida teria ocorrido no primeiro século da Era Comum da História Humana. Nenhuma forma de vida resistiu à devastação nuclear, porém os vestígios de construções indicavam que a guerra acabou poucas horas depois de começar. Bolsões de gases tóxicos do interior da crosta planetária foram liberados e tanto a superfície desertificada quanto os subterrâneos colapsaram diante da toxicidade.
Os relatórios enviados para o Diretório-Geral causaram certa consternação. Ficava evidente, mais uma vez, o padrão da chamada Etapa Civilizacional do Átomo, na qual toda a espécie inteligente deveria superá-la e evitar o auto-extermínio. Por um milênio de “atraso”, a humanidade havia perdido a oportunidade de encontrar um mundo continental próspero. Houvesse essa civilização alienígena superado essa etapa, teriam observado nosso desenvolvimento, nos subjugado ou nos guiado?
Conforme as análises sociológicas e xenológicas em curso no Forum Global de Estudos em Sociedade, talvez poucas sociedades primitivas conseguissem superar esta etapa ou poderiam ter sido “orientadas” por civilizações mais avançadas. A humanidade somente sobreviveu unicamente em razão da causa socialista, como unificadora de diferentes governos, sociedades e esforços econômicos. Se outras civilizações avançadas cósmicas se imbuíram de guiar, os humanos deveriam fazer o mesmo para evitar o colapso de culturas xenos? Era um debate em aberto.
A experiência humana com culturas alienígenas ainda era rudimentar. Até então toda a interação havia sido como uma análise laboratorial. Agora, com os Panuri abria-se um campo comportamental da Xenologia. Mais do que observar a distância, como no caso dos ekwynianos, com os Panuris haveria interação. Ter deixado que retornassem ao subterrâneo gerou certa apreensão na população civil, cujas restrições foram parcialmente reduzidas. Cinco meses depois do encontro, uma nova comitiva Panuri emergiu, solicitando contato.

Segundo os informes dos emissários do governo colonial de Sopdet, os nativos de fato estavam interessados em uma relação amistosa. Talvez reconhecessem que os humanos fossem potencialmente perigosos, com tecnologias desconhecidas, mas talvez tivessem segurança em sua capacidade de se defender. Fora a vantagem anatômica dos Panuri frente aos humanos. Assim, sentiram segurança em realmente estabelecer uma relação de “comércio”.
Como ato de boa vontade, entregaram um carregamento mineral sem precedentes. Com suas máquinas primitivas, trouxeram os minerais até a superfície, sem requerer nada em troca. O carregamento era tão expressivo que, em outubro de 2210, correspondia a treze meses de toda a produção mineral mensal em vigência. Segundo a compreensão xenológica obtida pelas impressões culturais, seu comércio era voltado para o bem estar coletivo de sua sociedade. Ironicamente não estava nem um pouco distante do ideal socialista.

Cargueiros de minérios deixando a superfície de Sopdet, em outubro de 2210.

O “presente” inesperado certamente foi um alívio para a Administração Colonial de Sopdet e para todo o governo da União Socialista Terrestre. Permitiu a redução da mobilização militar em Sirius, e aparente volta à normalidade. Entretanto, tanto a Frota Cosmonáutica quanto as Forças de Assalto Aeroespaciais permaneceriam de prontidão para qualquer eventualidade em relação aos Panuri.
Na virada do ano, a longa expedição submarina comandada pela capitã-comandante da nave Glushko, Nancy Cochrane, teve fim. A biosfera de Aphris VI era singular, por resistir à pressão geobárica e flutuações geotérmicas. Nos níveis mais profundos do oceano subterrâneo descobriu-se que muitas espécies compartilhavam se uma enzima única, que, se não fosse encontrada em seres vivos, seria certamente analisada como inorgânica. Esta enzima possuía propriedades regenerativas nunca antes vistas, quase como se fosse artificialmente programada.

A comandante Cochrane acabou por nomear essa enzima como “metal vivo”, uma vez que estava no limiar da fronteira orgânica-inorgânica. Talvez, no futuro, o potencial desta enzima pudesse ser aplicado para outros organismos e finalidades.

Após a descoberta, a comandante Cochrane pode completar seu holo-curso no Programa de Inspeção e Prospeção de Dados Exoplanetários.

A biosfera oceânica de Aphris VI era certamente única, rememorando a antiga expectiva de que a lua saturnina de Europa abrigasse vida em seu oceano sob o gelo (o que foi rechaçado de forma frustrante).

O ano de 2211 certamente despontara com descobertas singulares. Após as constatações em Faenov II B e uma inspeção sem relevância no gigante gasoso Faenov II, a tripulação da Korolev novamente se deparou com outra mostra de inteligência xeno: a lua Faenov II abrigava uma espécie de estrutura de comunicação primitiva. Essa constatação motivou uma investigação localizada, uma vez que a superfície inóspita e a atmosfera quase inexistente corroboravam para baixas expectativas.
A antena era apenas uma parte de uma estrutura maior. No subterrâneo havia uma instalação gigantesca que parecia ser uma espécie de abrigo ou compartimento de habitação temporária de visitantes espaciais. No entanto, após a decifração da linguagem presente, constatou-se que pertencia a uma espécie alienígena nativa do planeta! Então, Faenov II A também teria sido um mundo habitável, provavelmente um lua árida!
A raça nativa parecia avançada, mas sucumbiu em algum desastre planetário. Qiang He conjecturou que poderia ter sido uma perda anômala de atmosfera diante da proximidade com o gigante gasoso ou tempestades solares. A civilização de Faenov II A era dezenas de milênios mais antiga que a de Faenov II B, não sendo estas contemporâneas de forma alguma. Não haviam restos mortais aparentes, e sim sistemas avançados de armazenamento de dados. Os oficiais de engenharia da computação informaram que nunca haviam visto nada parecido. Decodificar tal quantidade de dados era inviável para a Korolev.

Sem um suporte adicional, levaria anos até que os computadores de bordo da Korolev pudessem decodificar o padrão codificante daquele sistema avançado.

Deixando rastreadores de superfície, o capitão-comandante Qiang He decidiu solicitar o envio de equipamentos adicionais para o sistema Faenov. Porém, diante da expectativa de colonização em Manthall, nenhum esforço poderia ser feito nos próximos anos, de qualquer forma. Assim, deixou a superfície de Faenov II A para traz. Aquela era certamente mais uma anomalia para estudo e reflexão existencialista… Novamente uma civilização primitiva sucumbira.
A excentricidade de duas luas anteriormente habitáveis em sistemas orbitais de estrelas anãs-vermelhas indicavam mais uma vez o desvio nos padrões de habitabilidade projetada. A essa altura, talvez esses mundos possam ter sido constituídos por alguma forma de mecanismo terraformador há milhões de anos por uma potência galáctica. Talvez a Consonância Dessanu há 80 milhões de anos, talvez outra. Impossível saber sem explorar ainda mais o Cosmos.
O fatalismo de dois fracassos civilizacionais alienígenas impelia o Diretório-Geral a se posicionar definitivamente sobre o futuro dos Ekwynianos, uma vez que os Panuri pareciam dispostos a uma coexistência. A colonização de Manthall II certamente mudaria o rumo das coisas…

Ruim de jogar em tempos de home office, é que o reload come solto. Então volta e meia dá spawn de anomalias em sequência. Muitas anomalias menores estou deixando off, como eu disse antes, mas acho algumas dessas bem interessantes para não entrarem. E o presente dos Panuri veio muito a calhar… Tenho torrado alguns minerais para obter créditos energéticos para comprar ligas metálicas…

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Q bom!

Q mau!

Só coisa boa nesse começo!

Tô falando… Rabo! :face_with_hand_over_mouth:

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Double-Post… (yeah, shame on me…) Mas achei esse DevD bem interessante, mudanças no management das construções nos planetas. Vai ser bom!

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Muito bom, mestre. Pelo visto, não deve ter gulag para os Panuri.

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É, não sei se eu gostei, @Hiryuu … Pelo que li nesse DevDiary, eles desvincularam o crescimento dos pops ao management construtivo. Ao que entendi, com uma longa fila de construções vai dar para urbanizar um planeta inteiro, já que não depende do nº de pops. Entra num loop de construir distrito urbano > slot de construção p/ melhoria > construir distrito urbano… Até o limite. Relembra um pouco o que era o sistema de squares planetários que tinha até o 2.1, onde você podia construir o planeta todo antes de ter os pops.

Enquanto facilita para o management, acho que fica meio irreal. Para mim, crescimento dos pops e urbanização/liberação de slots tinha que continuar vinculado. Já basta terem tirado o tempo de reassentamento dos pops lá atrás… Mover “bilhões” em um único dia. Eu entendo que tem a ver com os limites de tempo de jogo e que pedir “realismo” em um jogo é bobagem, mas fica muuuito irreal :roll_eyes:

Agora, o retrabalho que fizeram nos setores industriais foi interessante. Acho que vai deixar o jogo mais elástico para guerras precoces (com alloys extras e consumer goods para sustentar conquistas). Só sinto que vai desequilibrar os minerals, e, se deixar muito no automático, a AI pode encher de distrito industrial e destruir a produção de minerals. No fim, só deve migrar o déficit que era de consumer goods (principalmente no early-game) para um déficit de minerals (igual era antes da criação de “alloys”).

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Achei interessante como a descoberta do metal vivo se deu diferente nas duas AARs. Agora uma dúvida, tem como jogar sem ter a opção dos Impérios Caídos. Ou seja, sem essa vantagem de pegar tecnologia avançada pronta de outras civilizações?

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Tem essas anomalias que dão acesso ao metal vivo (2) e uma dos Precursores Cybrex (um dos mais legais do jogo). Só não dá para fazer nada com ele, a não ser vender (e obter muito crédito energético) e um edito lá pro mid-game para acelerar a construção de mega estruturas. É uma pena, porque acho um recurso bem exótico.

Então, tem sim como desabilitar no setup de jogo, @Richardlh . Mas em relação a essas techs avançadas obtidas por eventos não estão ligadas aos impérios caídos.

Agora… A única coisa que eu sei que tem a ver com eles exclusivamente são duas techs raras: a dos Reatores e Defletores de Matéria Escura (melhores reatores/escudos do jogo). Mas o único jeito de obtê-los é analisando os destroços de naves de Impérios Caídos que forem destruídas em combate. Então, se não estiverem, não tem como ter acesso.

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Pré 2.2 ele era usado para autoreparar naves, o que foi substituído pelos componentes de regeneração (Tecido de Casco Regenerativo e Sistema de Reparo Nanite).

Sendo amiguinho deles tem a questão de ganhar gifts dependendo da relação com eles… Quanto às techs, sim, eles têm essas duas “especiais” mais todas as demais techs pesquisadas (o q é bom pra analisar destroços deles), exceto as de eventos (Leviatãs e afins).

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Obrigado @Biller e @Hiryuu pelos esclarecimentos.

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CAPÍTULO XIV: Mudanças políticas

Aos onze anos de governo do Diretor-Geral Igor Zhivenkov, a estrutura científico-política da União Socialista da Terra passava por mudanças estruturais significativas. A medida de Zhivenkov em ampliar as cadeiras do Diretório-Geral havia garantido sua base de apoio nesta cúpula, contudo, pulverizou o poder político a muitas mãos. Essa pulverização acabou por criar condições para que os membros do Diretório buscassem suas próprias bases de apoio.
A primeira iniciativa veio precisamente de fora da Terra. Após seu nome ter alcançado incrível projeção como comandante da Korolev, Qiang He discretamente assumiu uma posição executiva no Comitê de Progresso Tecnológico, resultado final de uma antiga ala influente no Grande Congresso Socialista cuja existência informal remontava à própria fundação da União Socialista Global. Na liderança deste Comitê, sua popularidade capitanearia votos expressivos para as pautas científicas, uma vez que elas eram a própria essência do Socialismo Científico.

Mesmo com uma ala política estruturada oficialmente, Qiang He era favorável ao mandato do Diretor-Geral Igor Zhivenkov.

Em abril de 2211, o Diretor-Geral esteve presente na cerimônia de comissionamento do comando da Frota Cosmonáutica. Sendo o mais jovem oficial ao alcançar a posição de Comodoro, o comandante turco Omar El-Ghazali assumiu o recém-criado posto de Almirante da Frota Cosmonáutica. Sob seu comando, as sete corvetas da Frota - Moscou, Rio das Pérolas, Mesopotâmia, Londres, Paris e as recém lançadas Pequim e Lagos.
El-Ghazali era um comandante com um estilo agressivo e inflexível, e com uma ficha de serviço invejável. A trajetória dele era meteórica: aos 22 concluíra o curso de formação de oficiais, destacando-se como um piloto de caças suborbitais por três anos. Aos 30 concluíra seu curso de Estado-Maior, e, nos próximos anos, com a morte do antigo capitão da nave Mesopotâmia, assumiu seu comando. Aos 35 alçara a Comodoro da Frota, sendo o consultor militar responsável pelo Programa de Expansão da Frota Cosmonáutica e maior advogado pelo fortalecimento militar.

Uma oitava corveta ainda seria entregue até o fim de 2211. Até lá, o Almirante promoveria extensivos exercícios militares além de testar os sistemas de propulsão em uma excursão a Sirius. Tão logo a nave fosse entregue, um exercício conjunto com as Forças de Assalto Aeroespaciais.
Após anos de exploração e vários sistemas estelares desabitados, as naves científicas pouco a pouco chegavam aos confins do aglomerado estelar local. Ainda em abril daquele ano, a Gagarin e a Wenzhong alcançaram dois sistemas solares promissores. A Gagarin entrou no sistema de Delta Pavonis, anteriormente classificada como estrela tipo G, mas reclassificada como estrela tipo K, composta por 4 mundos telúricos, onde dois eram potencialmente habitáveis, e 1 gigante gasoso.

O sistema era o mais promissor e sensores de longo alcance indicavam que Delta Pavonis III poderia ser um mundo com uma biosfera ativa.

A observação direta de Delta Pavonis provocou reações na comunidade astronômica na Terra em razão do erro de medição. Já para os exobiólogos, planetas orbitando estrelas classe K eram ainda mais promissores que a classe G.
Pela rotação do sistema, o primeiro mundo ao alcance da nave do capitão-comandante Rajesh Chandrasekhar era Delta Pavonis V. Conforme as leituras realizadas a partir da órbita, o mundo era ligeiramente menor que a Terra, mas, em função de sua distância, as temperaturas eram baixas durante todo o ciclo de translação. Mesmo na zona equatorial as temperaturas médias não eram tão elevadas. A despeito disso, uma biosfera estável se constituíra, a partir de uma flora essencialmente composta por vegetação rasteira e semelhante às briófitas terrestres.

Superfície de uma das regiões equatoriais de Delta Pavonis V, composta de vegetação de pequeno porte.

Em uma certa porção meridional, isolada por cadeias de montanhas, sensores identificaram um ecossistema singular: um bioma carregado de radiação, emanando de reatores de fissão natural. De plantas adaptadas a animais… Um sistema próspero em ambiente hostil. Uma das equipes da Gagarin foram despachadas para a região, para estudar a ocorrência. Antes mesmo de chegar na região, as equipes puderam constatar que havia espécie numerosa e aparentada com a classe Reptilia parecia ser dominante parte do hemisfério tanto e possuidora de um grau de “pré-senciência”.

O nome da espécie - Cormathani - derivou da aglutinação de nomes: do mineral radioativo “Cormagênio” e “Thanatos”, a personificação mitológica grega da morte.

A espécie reptílica Cormathani parecia suportar as condições de radioatividade, e talvez nela evoluído. Agora já se espalhava por regiões não radioativas, em bandos caçadores equipados com armas rudimentares. Estariam nos primeiros degraus evolutivos de uma espécie totalmente consciente.
A expedição que seguiu protocolos exobiológicos de observação pareceu ter sido farejada por um desses bandos. Quase foram surpreendidas, não fossem os sensores de proximidade. Isso determinou o encerramento da expedição. Nitidamente, a espécie não parecia temer a presença humana; pelo contrário, mostrou-se hostil a ela.

Os Cormathani possuíam quase dois metros quando eretos, uma estrutura musculoesquelética robusta e ágil. Adaptações evolutivas que os tornavam exímios predadores.

Análises de DNA de seus dejetos fisiológicos indicavam uma capacidade longeva e alta tolerância a radiação. Fossem uma espécie inteligente poderiam até ser fisiologicamente superiores aos Ekwynianos ou aos Panuri. O capitão Chandrasekhar postulou que talvez um dia os humanos possuíssem o conhecimento de Engenharia Genética suficiente para, quem sabe, induzir experimentalmente os Cormathani à consciência.
Por sua vez, a Wenzhong alcançou o sistema de Scheddi, também conhecida como Delta Capricorni. A comunidade astronômica ficou estarrecida ao ser informada pela capitã-comandante Imani Mbanjwa que a estrela não era uma gigante classe A, e sim uma anã-vermelha classe M. Talvez nuvens de gás e poeira no meio interestelar causem refração fotônica.

O sistema de Scheddi possuía cinco mundos telúricos, sendo um potencialmente habitável.

Enquanto investigavam um dos mundos telúricos inabitados, os sensores da Wenzhong captaram um contato desconhecido nos limites do sistema estelar. Alarmes dispararam na ponte. A capitã-comandante Mbanjwa ordenou a rápida evacuação da equipe de exploração que estava na superfície. A nave assumiu uma posição evasiva, enquanto os computadores determinavam a trajetória do objeto.
Após minutos de tensão, os sensores determinaram a trajetória, mas não sua composição. Era algo nunca antes visto. Não se sabia se ele já estava ali antes inerte e se deslocou ou se simplesmente aparecera no sistema. Sua trajetória projetada parecia cruzar parte do campo orbital da estrela em velocidade subluminal.

O objeto não identificado não pareceu reconhecer a presença da nave e tampouco parecia agir em função dela. A comandante tentou captar a maior quantidade de leituras e análises possíveis em uma tarefa que não parecia poder ser completada, uma vez que não haviam leituras orgânicas ou metálicas a partir do objeto. Os dados enviados pela comandante chegariam à Terra no início de julho de 2211.
Para o Diretor-Geral o novo “encontro” era outra prova inconteste de que, ao explorar o Cosmos, a Humanidade deveria estar preparada. Seu posicionamento bélico já fora apoiado pela esfera militar desde o início do mandato. Mas, desde que os encontros alienígenas passaram a ocorrer, boa parte dos oficiais do Exército Vermelho Unificado e da Frota estavam desejosos de um posicionamento mais firme. Os militares estavam há muito afastados da política, oficialmente. Mas, agora, isso parecia mudar. Temiam que o Socialismo e a própria Humanidade estivessem se expondo a riscos ao serem dirigido unicamente por silogismos científicos e ações imprudentes.
Ironicamente, o único meio que os militares possuíam para assegurar seu ponto de vista era se aproximar ainda mais do Diretor-Geral, um cientista. Um grupo de oficiais de comando se encontrou com Zhivenkov ainda naquele mês. Deste encontro, nasceu a iniciativa político-militar Vanguarda da Bandeira Vermelha. Seus proponentes delegaram apoio ao Diretor-Geral, principalmente na decisão de interferência sobre a sociedade Ekwyniana. A política de interferência era incentivada pelos militares, como meio de uma coexistência guiada pelos humanos. Eram contrários a uma política de não-interferência sobre sociedades com capacidade atômica, pelo risco em potêncial.

Ao tempo, a comandante Nancy Cochrane, que galgara sua posição permanente no Diretório-Geral, advinha de uma família de industriais norte-americanos. Indiretamente, possuía ligações com estes grupos econômicos estatais da América, principalmente em setores de bens de consumo - um dos mais afetados pelos parcos investimentos do Governo. Observando o potencial de capital político, Cochrane manteve holo-conferências constantes, uma vez que sua nave ainda era uma das mais próximas do Sistema Solar.
Estadistas norte-americanos haviam montado um Comitê de Progresso Econômico, para justamente pressionar o Governador-Geral Sébatien Lebouef a fim de obter recursos para os setores por eles representados. Não demoraria até que a capitã-comandante fosse convidada à representação do Comitê, haja vista sua posição e notoriedade.
As mudanças políticas eram profundas. Cientistas viam no apoio a determinados grupos a prioridade no recebimento de verbas departamentais e investimentos. A Ciência poderia continuar sendo um imperativo, mas outras pautas também estavam em voga. Para Zhivenkov, o saldo das mudanças era positiva. Sua posição política se saía fortalecida, apesar da contraditória pulverização em facções políticas.
Seria impossível prever os desdobramentos de tais mudanças, mas, evidentemente, a primazia coletiva da Humanidade estava em voga.

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Que venham as facções! E os aliens! E a guerra! :face_with_hand_over_mouth:

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Vanguarda da Bandeira Vermelha ficou um nome muito legal.

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Logo vem porrada…

Ruim é que essa facção é muito exigente com o tempo: exigem conquistas constantes, porrada e caça a Leviatãs :grimacing:

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CAPÍTULO XV: Contra o relógio

Enquanto a máquina político-científica da União Socialista da Terra se complexificava, a expansão colonial parecia retomar seu rumo após a normalização do agora chamado de “Evento de Sopdet” ou o encontro com a civilização subterrânea Panuri. Uma campanha agressiva de marketing foi promovida pelo Diretor-Geral Igor Zhivenkov em pessoa, que, em vez dos tradicionais discursos mensais, passou a participar de propagandas filmadas nas novas colônias.

O objetivo era dobrar a projeção de crescimento populacional no mundo de Ninhursag e na futura colônia humana em Manthall.

A celeridade do Programa de Colonização de Novos Mundos era acompanhada pelo ímpeto de exploração do novos sistemas solares. Em outubro de 2211, a cientista-chefe do Departamento de Física promoveu o lançamento de um novo Sistema Autônomo Inteligente destinado a substituir parte da arquitetura computacional dos equipamentos de bordo das naves científicas da Frota, elaborado em parceria com expoentes do Departamento de Engenharia.
O novo sistema prometia aprimorar a capacidade de inspeção e prospecção de dados em exoplanetas e outros corpos celestes, uma vez que sua capacidade de “auto-aprendizado” selecionaria sempre os melhores padrões e modelos de análise, facilitando em muito a tarefa dos oficiais das naves e seus comandantes.

Enxergar padrões anômalos era fundamental. Nos primeiros anos da exploração do Cosmos, muitos conceitos exobiológicos foram revistos. Aliais, a própria concepção do que era “biológico” havia sido revogada. Isso permitiu que um leque de teorias pudessem ser postuladas, e, posteriormente confirmadas. Uma dessas teorias seria confirmada no mundo inóspito de Scheddi II. A capitã-comandante Imani Mbanjwa descreveu uma “resposta elétrica” a um pulso elétrico emitido pelos scanners da nave Wenzhong.
A resposta se repetiu como uma onda reverberando em toda a superfície do planeta, em uma espécie rede elétrica desconhecida. Análises de padrões secundários e uma análise eletrostática chegou a surpreendente conclusão que haviam “formas de vida” inteiramente baseadas em impulsos elétricos, que interagiam entre si. Se a vida baseada em silicone já fora uma quebra de paradigmas, a vida baseada em eletricidade era igualmente surpreendente.

A superfície de Scheddi II se iluminou em função de cada pulso emitido, lançado a partir da órbita onde estava a nave científica Wenzhong.

Em ocasião subsequente, o capitão-comandante Qiang He reportou outra descoberta de relevância: na lua de Faenov Id, cuja superfície fervilhava a temperaturas acima dos 700 ºC, dezenas de espécies de organismos procariontes semelhante a arqueias hipertermófilas terrestres. Porém, a essa temperatura, nenhum organismo poderia sobreviver por ter ultrapassado por centenas de graus a barreira de desnaturação protéica tida como intransponível. Mas estes organismos o faziam, prosperando absolutos em um ecossistema sustentável.
Além de suas características biológicas singulares, o ecossistema liberava uma série de gases estáveis àquela temperatura e pressão nunca antes observados na Tabela Periódica. O oficial de Química da Korolev postulou que talvez tais gases tivessem um potencial de aproveitamento bioquímico e tático-militar para as naves da Frota Cosmonáutica.

Nas últimas semanas do ano de 2211, a capitã-comandante Ichika Yamazaki reportou ter alcançado o sistema orbital da estrela A6V5975-82010, batizada de Iriamus, em homenagem ao químico bengali Sumairi Iriamus, responsável pelo estudo com os supercondutores a base de grafeno. Nesse sistema haviam seis mundos telúricos, com um cinturão de asteróides entre o segundo e o terceiro planeta, porém nenhum aparentava habitabilidade.
A despeito da ausência biológica, haviam sinais claros de inteligência alienígena avançada. O primeiro sinal foi a descoberta de uma estação orbital na lua de Iriamus IVa. Avariada há pelo menos um milênio por algum tipo de barragem de mísseis ou outra arma de impacto de massa, a estrutura foi identificada como um estaleiro automatizado destruído, dispondo de cascos de naves estelares que aparentemente estavam em construção.

O estaleiro automatizado de Iriamus IVa era mais um indício do potencial bélico de inteligências extraterrestres nas proximidades do Sistema Solar.

O design tecnológico das naves em construção bem como do próprio estaleiro se assemelhavam em muito com os achados no Cemitério de Naves de Mius IIa. Os indícios levavam a crer que o estaleiro pertencia a alguma atividade alienígena “mercenária” em toda a região do aglomerado estelar, que foi deliberadamente eliminada. Yamazaki informou o Diretório-Geral que o estaleiro estava em condições de ser recuperado, e, talvez, as naves pudessem ser restauradas e a instalação servir como um posto avançado no futuro. A nave de construção multi-plataformas Proletaria seria designada a partir de Alpha Centauri até o sistema Iriamus em uma viagem de vários meses para a tentativa de reparar a estação.
Outro sinal de inteligência avançada foi o encontro de emissões eletromagnéticas claramente artificiais emanando da superfície da lua de Iriamus IIIa. Quando a nave Tereshkova as interceptou, uma análise parecia dispensável, pois, na superfície lunar, havia uma instalação exótica, presumidamente para produção de energia ou algum tipo de fusão desconhecida. Equipes foram despachadas para a instalação, a fim de observar e registrar seu propósito.

Repousando no interior da superfície planetária, as equipes encontraram o que definiram como um “bunker robótico” aparentemente autônomo. Análises visuais pouco esclareceram sobre o propósito da instalação, mas sua arquitetura computacional se assemelhava à descrição da “Máquina Alienígena de Procyon”. Assim que essa correlação foi estabelecida, a capitã-comandante ordenou a evacuação das equipes. Enquanto evacuavam às pressas, detectou-se movimento no interior da instalação. Máquinas robóticas iniciaram um ataque, numa espécie de protocolo de defesa contra invasores.

Os dróides eram capazes de disparos de feixes de energia concentrada e um “campo de energia” que repelia ataques cinéticos e de lasers.

O destacamento de segurança se defendeu como pode. A inefetividade motivou o desespero, e o deflagar de armas convencionais de projéteis, que foram capazes atravessar os escudos e de derrotá-los. A inteligência maquinária parecia não esperar o uso de “armas primitivas”. No exato instante em que os tripulantes derrotaram os dróides, da órbita lunar, a Tereshkova captou uma rápida anomalia gravitacional partindo da instalação para o Cosmos Profundo. Era certamente algum tipo de sinal avançado. A evacuação foi finalizada às pressas e a nave deixou a órbita lunar.

Os relatórios enviados por Yamazaki ao Diretório-Geral foram extensivamente analisados pelos departamentos científicos. Nem mesmo o protocolo de “não-interação” com sistemas avançados parecia capaz de evitar uma resposta agressiva. Não era possível aplicar uma proibição de inspeção, pois isto limitaria toda a investigação científica do Cosmos. O Diretor-Geral considerou que, a partir desse ponto, fazia-se necessário que não houvesse um acovardamento no próposito humano de explorar o desconhecido.
Esse novo incidente foi decididamente levado à opinião pública, e Zhivenkov obteve ainda mais influência para convocar uma reunião com os demais membros do Diretório-Geral, a fim de resolver o impasse acerca da Sociedade Ekwyniana. No início de março de 2212, a nave de construção multi-plataformas Camponesa concluíra a construção da Base Extrassolar de Manthall, após meses de atraso. A nave colonial Liberação Francesa, por seu turno, estava a caminho da órbita de Manthall III. Fazia-se necessário decidir a política sobre os ekwynianos.

Durante os debates acalorados no Diretório-Geral, que durariam quase uma semana, o Programa de Colonização de Novos Mundos seguia ao seu zênite de duas décadas. A terceira colônia terrestre - Ninhursag - alcançava um padrão de crescimento acelerado, semelhante a Sopdet e Prithvi. Embora os padrões climáticos de Ninhursag fossem um poucos hostis à presença humana, com supertempestades elétricas, isso seria brevemente percebido como uma inesgotável fonte geradora de energia.
Diferentemente das duas colônias predecessoras, Ninhursag possuiria uma autonomia energética muito superior, e, no futuro, poderia ser equiparada à da Terra. Como medida inicial, o Governador-Geral Sébastien Lebouef determinou obras públicas para a edificação de parques geradores antes da temporada das tempestades.

Vista de Urim, a primeira megacidade de Ninhursag, no continente de Sumer. A arquitetura de Urim foi construída especialmente resistente às tempestades elétricas planetárias.

Enquanto isso, em Manthall, a gigantesca nave colonial Liberação Francesa alcançava a órbita de Manthall III, após atrasos do cronograma original. O planeta seria nomeado Houtu, seguindo o estabelecido de homenagens às mitologias antigas, desta vez em razão da divindade mitológica chinesa homônima.

Vista a partir da superfície de Houtu. Os grandes anéis planetários e a lua vulcânica Diyu davam ao mundo um cenário único.

Neste ínterim, surgia uma nova ameaça em potencial: o contato ainda não identificado em Scheddi havia deixado o sistema e alcançado Manthall, de alguma forma igualmente desconhecida. O fato foi suficiente para que a sessão do Diretório-Geral chegasse ao consenso de que a Frota Cosmonáutica devia ser designada urgentemente para lá. Se antes a questão eram apenas os ekwynianos, agora uma nova situação permeava o contexto.
A situação favoreceu uma decisão sobre os ekwynianos, ainda que composta de duas abordagens distintas. Manthall II foi considerado uma ameaça de baixo potencial aos esforços coloniais em Houtu. Entretanto, recursos adicionais deveriam ser utilizados para o estabelecimento de uma Base de Observação Orbital, a fim de que uma comissão científica exoplanetária fosse feita nos próximos meses.
Essa comissão deveria determinar o grau do impacto da colonização humana sobre os primitivos. Caso os relatórios apontassem mudanças xenológicas, duas soluções eram possíveis: uma pacificação militar, caso necessário, que era apoiada por uma ala do Diretório-Geral sob a influência de Zhivenkov, e uma espécie de “iluminismo” a ser feito pela Humanidade, apoiada categoricamente por outra ala liderada por Imani Nzeogwu. Estava evidente para todos que se a colonização provacasse tais mudanças, uma ou outra linha deveria ser seguida.
Zhivenkov, por sua vez, afirmar que se a decisão fosse tomada antes, a ameaça desconhecida poderia ter sido antecipada e possivelmente interceptada. Poucos dias depois dos efetivos militares deixarem a órbita da Terra, informações apontaram que o contato não identificado deixara o Sistema Manthall, em direção a Mius. Sua natureza e propósito eram desconhecidos. Contra o relógio, tanto a Frota Cosmonáutica quanto as Tropas de Assalto Aeroespaciais estavam a caminho de Manthall…

Enquanto isso, anomalias de boost de influência vindo bem a calhar… :smiley:

E só posso dizer que o “timing” dessa entidade cristalina foi certeiro. Posso “justificar” o envio das naves e exércitos para o sistema. O sentimento de insegurança com os ekwynianos faz o resto, talvez? Ou a ala iluminista ganha? :face_with_hand_over_mouth:

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Você tá dando bastante sorte nesse começo.

E tá errado?

Teremos a resposta no próximo episódio! (Leia com a voz do Goku)

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