[WWI]- Serie 1ª Guerra Mundial - 100 anos. - PARTE II

[center]1914: Quando horror se alastrou[/align]

Na cabeça de líderes políticos e diplomatas, a 1.ª Guerra Mundial seria um conflito sangrento, mas rápido. Cem anos depois, fortes, bunkers, crateras, armamentos, campos de batalha, cemitérios, ossários e monumentos comprovam: foi uma guerra total.

Em um extrato de uma mensagem escrita às vésperas da eclosão da 1.ª Guerra Mundial, o imperador da Rússia, Nicolau II, rogou a seu primo e amigo, o imperador da Alemanha, Guilherme II:

“Uma guerra vergonhosa foi declarada contra uma nação fraca; eu compartilho inteiramente a imensa indignação na Rússia. Muito em breve não poderei mais resistir à pressão e serei forçado a tomar medidas que conduzirão à guerra. Para prevenir a infelicidade de uma guerra europeia, eu te peço, em nome de nossa velha amizade, que faça todo o possível para impedir que teu aliado vá longe demais.”

À correspondência, o kaiser responderia horas depois: “Não posso considerar a marcha à frente da Áustria-Hungria como uma ‘guerra vergonhosa’. (…) A declaração do gabinete austríaco me fortifica na opinião de que a Áustria-Hungria não visa a nenhuma aquisição territorial em detrimento da Sérvia. Creio logo que é possível à Rússia perseverar, frente à guerra austro-sérvia, em seu papel de espectadora, sem empurrar a Europa à guerra mais horrível que ela jamais viveu”.

Membros da mesma família – ambos eram também primos do monarca britânico George V –, além de velhos companheiros prestes a se tornarem inimigos, Nicolau II e Guilherme II compartilhavam em junho de 1914 erros e acertos quanto à interpretação do conflito iminente. Líderes de potências econômicas e políticas concorrentes, ambos sabiam que na realidade não se trataria só de um desentendimento “austro-sérvio” e o início dos combates entre seus dois impérios também era uma questão de horas. Documentos diplomáticos e de arquivos governamentais mostram que ambos projetavam embates sanguinários, mas não acreditavam que um conflito longo estava por começar nem que os campos de batalha se espalhariam pelo mundo.

Entretanto, em um intervalo de apenas 99 dias a partir de 28 de julho, quando a Áustria-Hungria abriu as hostilidades contra a Sérvia, no marco da 1.ª Guerra Mundial, meio mundo seria tragado por uma sucessão de 19 declarações oficiais de guerra envolvendo dez países. Após a atitude de Viena, o caos político se espalharia: a Alemanha declararia guerra contra a Rússia em 1.º de agosto e à França dois dias depois; o Reino Unido se lançaria contra a Alemanha em 4 de agosto e contra a Áustria-Hungria nove dias mais tarde; entre as duas datas, a Áustria-Hungria declararia a Rússia inimiga em 5 de agosto. Em 23 de agosto, o Japão se uniria à Entente opondo-se à Alemanha, colocando a Ásia no mapa da guerra. Enfim, em 5 de novembro de 1914, França e Reino Unido declarariam guerra aos otomanos, empurrando a fronteira do conflito ao Oriente Médio.


[center]O rei George V (dir.) e o kaiser Guilherme II (esq.)[/align]

Como a escalada da crise diplomática de 1914, a zona de guerra se alastraria pelo continente como fogo em uma carreira de pólvora até 1917, com a entrada de Estados Unidos e latino-americanos, inclusive o Brasil.

Tratava-se, então, de uma “guerra total”, industrial e globalizada. “É uma guerra que vai perdurar e vai se industrializar, em que todos os progressos técnicos, todos os recursos dos Estados-Nação potentes serão mobilizados”, diz Joseph Zimet, historiador e diretor-geral da Missão do Centenário. “É uma guerra de sociedade, toda mobilizada a seu serviço. As fábricas, as mulheres, toda a economia vai alimentar o conflito. A guerra não se ganha só nas trincheiras, ou por combates de artilharia, mas pela mobilização econômica, social e mental na retaguarda.”