[WWI]- Serie 1ª Guerra Mundial - 100 anos. - PARTE III

[center]Uma visão panorâmica do conflito[/align]

Nesse conflito global, frentes de batalha se espalharam pela Europa, mas também pelos Bálcãs, pela África, por Oriente Médio, Ásia, Oceania e Atlântico Norte. Seriam ao todo 19 grandes fronts e dez batalhas em mares e oceanos até o fim da guerra. No segundo maior foco de tensão, no Leste Europeu, ofensivas como a de Tannenberg, em agosto de 1914, não apenas contêm o ímpeto do Império Russo e desestabilizam ainda mais o czarismo, como dão à Alemanha um símbolo de triunfo, sob o comando dos generais Paul von Hindenburg e Erich Ludenforff. A caminho da derrota e da revolução bolchevique, russos comemoram vitórias como a do cerco de Przemysl, que deixou 115 mil pessoas mortas ou feridas entre 24 de setembro de 1914 e 22 de março de 1915.

Entre tantos embates, porém, nenhum foi mais mortífero do que a frente ocidental, em que soldados de França, Bélgica e Reino Unido, e mais tarde de Estados Unidos, Canadá e Austrália, entre outros, defenderam Paris de uma invasão. A devastação material e humana explica por que as linhas de front se transformaram em museus a céu aberto da guerra 1914-1918. Fortes, bunkers, crateras, campos de batalha, armamentos, cemitérios, ossários, monumentos aos mortos e até florestas são cicatrizes do conflito muito visíveis ainda hoje na França e na Bélgica.

Nesse front, ocorreu a Batalha de Marne, em 1914, decisiva para assegurar o fracasso da estratégia inicial de ataque alemã, o Plano Schlieffen, e a vitória dos aliados no final do conflito. Nela, 2 milhões de homens, entre franceses, britânicos e alemães, estiveram em trincheiras e ofensivas em Ourcq, Deux Morins, Marais de Saint-Gond, Vitry e Revigny, comandados por generais que se tornariam heróis nacionais da França, a exemplo de Joseph Joffre, Joseph Gallieni e Ferdinand Foch. Em sete dias de combates entre 5 e 12 de setembro de 1914, mais de 100 mil franceses, 7 mil britânicos e 80 mil alemães morreram ou desapareceram e 250 mil outros soldados ficaram feridos.

No mesmo front ocidental, sucederam-se as Batalhas de Verdun (já analisadas nos topicos "A Sangrenta Batalha de Verdun! - Parte I, Parte II e Parte III) e Somme, em 1916, que deixaram 306 mil e 442 mil mortos ou desaparecidos, respectivamente, além das de Chemin des Dames, em 1917, com mais 100 mil mortos, e a 2.ª Batalha de Marne, em 1918, que matou 280 mil soldados.

A alta mortalidade se dava por uma conjunção de fatores, entre os quais a chamada “guerra de posições”. Essa estratégia, que duraria os quatro anos no front ocidental, explica Michael Bourlet, doutor em História, escritor e pesquisador das escolas militares de Saint-Cyr Coëtquidan, na França, era a forma encontrada pelos países invadidos de frear o avanço dos inimigos, custasse o que custasse. “Em 1914, os estados-maiores fundamentavam suas estratégias em uma guerra de movimento, rápida, que chegaria ao término de uma grande batalha decisiva”, conta Bourlet. “Ambos os lados se dão conta, ao final da Batalha de Marne, em setembro de 1914, que a guerra será muito mais longa. E então os lados se deparam com uma guerra de posições.”

A estratégia visa levar o inimigo à exaustão e à derrota, mas o resultado é a paralisia do conflito. A alternativa, então, foi intensificar a partir de 1915 o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas para infligir baixas em massa aos inimigos e tentar sair do impasse. Os bombardeios foram intensificados e todos os meios industriais passaram a ser empregados para matar. Assim nasceram a guerra química, o uso de tanques e os bombardeios aéreos.

Essas novas tecnologias obrigaram generais e comandantes a testar métodos em pleno conflito , enviando centenas de soldados para missões impossíveis e letais, como a conquista de trincheiras bem guarnecidas e bem armadas ou de morros e colinas, pontos privilegiados para a visibilidade da artilharia. No exército britânico, um jargão se criou entre as tropas para descrever a situação:“Leões comandados por asnos”.

Essas batalhas, que figuram no rol das mais violentas da história da humanidade, tinham em comum um elemento de base: o sofrimento humano descomunal. Um dos diagnósticos mais frequentes entre soldados era a sensação de perda da condição humana. Em 10 de julho de 1916, um ano e meio antes de sua morte no campo de batalha, o sargento francês Marc Boasson escreveu:

“Eu mudei terrivelmente. Não queria lhe contar nada da horrível fadiga que a guerra engendrou em mim, mas você me força. Eu me sinto esmagado, diminuído, (…) estou pobre e nu por causa das emoções desmesuradas, das experiências desproporcionais à resistência humana. Algo está dando errado, uma perda generalizada. Eu sou um homem esmagado”.

À sua noiva, o soldado Henri Fauconnier diria em carta datada de 17 fevereiro de 1917: “É assustador depender tanto do meio em que estamos. Mady, não é com um ser humano que você se casará”, advertiu.“Às vezes eu sou um monstro, às vezes uma planta, às vezes um mineral. Nunca um ser humano.”